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Banda ultralarga ainda é um balão de ensaio
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No ano de 2009 o Brasil viu surgirem as primeiras ofertas de acesso à Internet em banda “ultralarga”, com velocidades a partir de 30 Mbps. Em um movimento que lembra uma corrida armamentista, depois que a Net apresentou seu primeiro piloto comercial, em novembro do ano passado, as demais operadoras foram atrás. Telefônica, GVT e Oi, nesta ordem, lançaram ao longo de 2009 seus serviços de altíssima velocidade para o mercado residencial. Embora cada uma trabalhe com preços, coberturas e arquiteturas de rede distintas, uma coisa todas têm em comum: a falta de clientes. A impressão é de que as experiências realizadas até agora foram mais uma jogada de marketing do que propriamente uma ação com plano de negócios e retorno bem calculados. De qualquer forma, elas servem de balão de ensaio para atender a uma demanda que aparecerá dentro de alguns anos, acreditam especialistas.
O projeto da Net Serviços é um bom exemplo de como é cedo para se pensar em banda ultralarga para o mercado residencial brasileiro. Um ano atrás, a empresa lançou um piloto comercial para testar a tecnologia Docsis 3.0 sobre sua rede de fibra óptica e cabos coaxiais (HFC). O lugar escolhido foi o bairro do Leblon, um dos mais elegantes do Rio de Janeiro. Passados 12 meses, poucos clientes dentre os 20 mil assinantes da Net na região migraram para o plano de 60 Mbps criado pela companhia. Essa é a razão para a operadora não ter expandido o serviço. “Não saímos da fase piloto porque não há conclusão de que haja demanda. E isso vale para Docsis 3.0, VDSL2, fibra ou qualquer outra tecnologia. O interesse das pessoas ainda não é grande por velocidades tão altas”, relata Marcio Carvalho, diretor de produtos e serviços da Net. Não custa lembrar que na oferta da Net o preço para 60 Mbps é o mesmo cobrado para o plano com a segunda maior velocidade, 12 Mbps, caso o cliente assine o serviço de TV em alta definição.
Mais otimista, a GVT lançou seu serviço de banda ultralarga com uma cobertura muito maior que aquela da Net. A comercialização, iniciada em agosto passado, acontece em 59 cidades de oito estados brasileiros, além do Distrito Federal, com ofertas de velocidades de 35, 50 e 100 Mbps para download. Em quatro meses de vendas, conquistou aproximadamente 1,5 mil assinantes de banda ultralarga. É uma quantidade pequena frente aos 604 mil usuários de banda larga que compunham a base da operadora ao fim do terceiro trimestre. “Hoje a demanda é baixa. Banda ultralarga é um produto para nicho de mercado. Mas queremos estar preparados para quando essa demanda aumentar. Precisamos estar sempre alguns passos à frente”, explica o vice-presidente de marketing e vendas da GVT, Alcides Troller.
Segundo o executivo, o perfil do cliente que procura banda ultralarga no Brasil hoje é de profissionais que trabalham em casa e que precisam transferir arquivos pesados pela Internet, como arquitetos, videomakers e pesquisadores. Há também demanda por parte de pequenas empresas para distribuir a banda entre vários computadores. A verdade é que faltam serviços na Internet que demandem banda ultralarga. “Para e-mail e navegação simples 100 Mbps é desperdício. É como dar um tiro de bazuca para matar uma formiga”, comenta o analista do IDC João Paulo Bruder. A Net se deparou com essa questão quando do lançamento do pacote de 60 Mbps: não havia sites ou serviços na Internet que requisitassem tal velocidade para o usuário residencial. Na tentativa de atrair os consumidores, a empresa criou um site de streaming de vídeo em alta definição, com conteúdo cedido pelo canal National Geographic.
Além da falta de serviços que justifiquem a contratação dessas velocidades, outro inibidor são os altos preços. Os pacotes variam de R$ 199 a R$ 499 ao mês no Brasil. Isso sem falar nos preços dos modems. Para a tecnologia VDSL2, o equipamento custa em torno de US$ 150. Já um modem para receber fibra óptica em casa (FTTH, na sigla em inglês) pode custar até US$ 2 mil. No caso dos modems de cabo na tecnologia Docsis 3.0, a Net informa que os preços são de três a quatro vezes mais caros que aqueles dos modelos comuns.
Infraestrutura
Para vender banda ultralarga cada operadora adota a tecnologia que melhor se adapta à sua arquitetura de rede. No caso das operadoras de telefonia e suas extensas redes de cabos de cobre uma das opções é o uso do VDSL2, espécie de evolução do padrão ADSL. A princípio é uma das soluções mais baratas, pois requer apenas a troca de placas nos gabinetes de rua. Além disso, nos últimos anos o preço das placas VDSL2 caiu substancialmente. “No começo da década essas placas custavam 2,5 vezes mais caro”, lembra a vice-presidente de redes da Ericsson, Luciana Pailo. Em tese, com o VDSL2 é possível se alcançar até 100 Mbps. Mas essa tecnologia enfrenta o mesmo problema do ADSL: quanto mais distante a residência estiver do armário de rua, menor a velocidade alcançada. Por ter uma rede jovem, com uma distância média de 400 metros entre a casa do cliente e o gabinete, a GVT optou pelo VDSL2 para os pacotes de 35 e 50 Mbps. Nos planos até 15 Mbps ela ainda usa ADSL2+.
As concessionárias, por sua vez, têm redes muito antigas, com longas extensões de fios de cobre. Em muitos casos a distância até o gabinete supera 1 km. A Oi utiliza VDSL2 no caso de velocidades de 14 e 20 Mbps. Mas para banda ultralarga o melhor caminho é mesmo levar fibra óptica até a casa do cliente. A desvantagem da fibra é o fato de envolver a realização de obras civis, o que encarece o projeto e toma mais tempo. Também pode ser muito difícil a instalação dentro da residência, por conta das curvas dos dutos e da necessidade de fazer emendas, que no caso da fibra demanda equipamentos caros e complexos. Por outro lado, trata-se de uma infraestrutura que vai durar por muitos anos. Na teoria, a velocidade de transmissão na fibra é praticamente infinita: o que a limita são os equipamentos eletrônicos acoplados nas pontas. Outra vantagem das redes ópticas passivas (PON, na sigla em inglês) é o fato de requererem um baixo custo de manutenção. Ou seja: o Capex é alto, mas o Opex é baixo. São redes que se pagam em longo prazo e com uso intenso.
Por conta do alto investimento, as operadoras pensam duas vezes antes de expandir a capilaridade de suas redes de fibra. A Telefônica limitou sua rede de FTTH a oito cidades de São Paulo, enquanto a Oi fez o lançamento de banda acima de 30 Mbps apenas em três cidades de Pernambuco até o momento. “Muitas vezes a conta não fecha. A operadora só investe em fibra onde houver uma garantia de receita grande”, comenta Marcelo Motta, diretor de tecnologia da Huawei.
A Net, por sua vez, usa uma rede HFC, considerada mais estável e segura que aquela em cobre das teles. Sua desvantagem, porém, é o fato de ter pouca capilaridade se comparada com as redes das concessionárias. Isso limita o público a ser coberto com as altas velocidades. A tecnologia Docsis 3.0 adotada para a oferta de 60 Mbps pode, no futuro, alcançar até 300 Mbps, segundo testes de laboratório. A rede da Net é dividida em células de cabos coaxiais abastecidas por fibras. A banda é compartilhada entre os usuários de cada célula. Se a quantidade de assinantes passa de um determinado limite, a célula é dividida em duas e um novo par de fibras é instalado. A longo prazo especialistas acreditam que as operadoras a cabo também migrarão para redes FTTH.
Mundo e futuro
A banda ultralarga já é realidade em vários países desenvolvidos. Nos EUA, a Verizon reagiu ao avanço das operadoras de TV a cabo com o lançamento do FiOS, um serviço de FTTH através do qual vende acesso à Internet (além de TV e voz) em velocidades de até 50 Mbps. A companhia tem hoje uma base de 3 milhões de assinantes do FiOS. Cada um deles consome em média 3,5 vezes mais banda que o cliente de um plano de ADSL comum, informa a Verizon. Se 50 Mbps parece rápido, o que dizer de 1 Gbps? Pois essa velocidade já é oferecida ao mercado residencial por algumas operadoras asiáticas, como a japonesa KDDI, através de FTTH. O fato de alguns países estarem mais avançados que o Brasil em matéria de banda ultralarga não se deve apenas a uma questão de mercado, mas também de apoio governamental. “Em alguns países o governo investe em cabeamento, como na Coreia do Sul. Lá a fibra é muito mais capilarizada que no Brasil”, lembra Luciana, da Ericsson.
Apesar do cenário brasileiro ainda ser composto majoritariamente por experiências pontuais de banda ultralarga, o mercado está otimista para os próximos anos. A principal esperança reside no âmbito regulatório: se o PL 29, que regulamenta o setor de comunicação, for aprovado, as concessionárias de telefonia terão sinal verde para vender TV por assinatura sobre suas redes físicas, o que deve impulsionar a expansão de banda ultralarga. A distribuição de vídeo está nos planos da GVT, por exemplo. Vale lembrar que a espelho foi recentemente comprada por um grande grupo internacional de mídia, a francesa Vivendi. Talvez o PL 29 seja exatamente o empurrãozinho que falta para as concessionárias liberarem budget para uma expansão significativa de FTTH, acreditam algumas fontes.
Um fator que pode impulsionar o consumo de velocidades mais altas é a tendência do cloud computing. Cada vez mais os aplicativos estão migrando do HD dos computadores pessoais para servidores ligados à nuvem da Internet. Para dar conta disso, a conexão precisará melhorar. Somam-se ainda a constante queda nos preços dos equipamentos e o esperado crescimento da economia brasileira. “Entre 2011 e 2012 é quando banda ultralarga vai começar a se popularizar no Brasil”, prevê o presidente da Furukawa, Foad Shaikzadeh.
Por fim, os especialistas alertam: o avanço da banda ultralarga precisará ser acompanhado de investimentos em backbone e backhaul, para dar conta do aumento do tráfego. Caso contrário, corre-se o risco de criar um novo gargalo na infraestrutura, como acontece com as redes 3G atualmente no País.
Banda larga e cara
Um estudo inédito do banco JP Morgan sobre o mercado brasileiro de banda larga publicado em novembro mostrou que, no Brasil, as operadoras competitivas estão tomando esse mercado das incumbents com agressividade.
Segundo o levantamento do JP Morgan, 62% das novas adições de banda larga nos últimos 12 meses vieram das “operadoras alternativas”, que já abocanharam 31% de market share. O banco também levantou os efeitos da presença de operadoras competitivas em relação aos preços de banda larga. Segundo o levantamento, onde há competição, o preço da banda larga tende a ser metade daquele praticado onde não há competição.
Entre as diferentes operadoras, o JP Morgan aponta a Net Serviços (que já tem 26% do mercado brasileiro de banda larga, contra 24% da Telefônica e 38% da Oi) como a mais bem posicionada para se beneficiar da expansão do mercado de Internet em alta velocidade no Brasil. Segundo o levantamento do banco, a expectativa é que a taxa de crescimento de 18% no mercado de banda larga fixa se mantenha nos próximos anos.
De acordo com o levantamento, onde as operadoras competitivas não estão, o preço médio cobrado pelas incumbents pela banda larga de 1 a 2 Mbps é de R$ 118. Esse valor cai a R$ 60 quando há a presença da Net e da GVT. Quando há a presença apenas da GVT, o preço médio da banda larga de 1 a 2 Mbps da incumbent é de R$ 64 e quando há apenas a Net, o preço médio é de R$ 72. Os dados são de outubro.
O JP Morgan diz que a Net já tem 28% de suas receitas vindas da venda de banda larga, contra 20% da GVT e menos de 10% das incumbents. O banco estima que até 2012 a Net terá 40% de suas receitas vindas desse mercado. Segundo o levantamento do banco, a operadora de cabo foi responsável, sozinha, por 48% do crescimento do mercado de banda larga nos últimos 12 meses, e deve chegar a 32% de market share em 2012. No comparativo geral em relação ao preço cobrado por cada operadora, a GVT é a mais agressiva. Segundo o JP Morgan, a operadora consegue, no mix de pacotes ofertados, chegar a um preço médio de R$ 9/Mbps. A Net está em R$ 41,6/Mbps, a Telefônica está em R$ 53,1/Mbps e a Oi em R$ 43,5/Mbps. O levantamento considerou apenas as cidades em que Net e/ou GVT estavam presentes. A conclusão do estudo é que as operadoras competitivas ameaçam os preços das incumbents, mas a rentabilidade pode ser compensada pela ampla margem de crescimento do mercado. (Samuel Possebon)
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| Fernando Paiva |
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