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  EDIÇÃO #128 - ANO 12 - DEZEMBRO/2009
INVESTIMENTOS
Todos na mesma toada

As três maiores concessionárias brasileiras de telecomunicações estão com planos parecidos para 2010 em termos de estratégias e, portanto, de investimentos. Mas existem diferenças importantes. Entre os pontos comuns, estão a expansão da cobertura de serviços banda larga e da oferta de TV por assinatura. A divergência fica em relação aos compromissos e obrigações regulatórias e em relação à capacidade de expansão da rede.

Das duas grandes concessionárias locais, a Telefônica tem uma posição relativamente confortável. A julgar pelos resultados no total de reclamações, tudo indica que a operadora conseguiu estabilizar sua rede de dados em 2009 depois de quase um ano de instabilidade, que culminou na suspensão temporárias das vendas do Speedy. A estimativa da operadora, segundo informações do seu presidente, Antônio Carlos Valente, é de investimentos da ordem de R$ 2 bilhões em 2010, sobretudo na expansão da oferta do serviços de banda larga.

Mas ao contrário do que se poderia esperar, a Telefônica não deve fazer grandes investimentos na expansão da rede de fibras para acesso FTTH, um dos destaques dos investimentos de 2008 e 2009. Segundo Mariano De Beer, vice-presidente executivo que em fevereiro assume o cargo de diretor-geral da Telefônica, a equação para a oferta dessa tecnologia e dos serviços a ela associados ainda é complicada e para se equilibrar depende, sobretudo, de um acerto com os fornecedores. “Essa precisa ser uma aposta da indústria”, disse De Beer a TELETIME. A intenção da empresa em tornar esse assunto público é sensibilizar os grandes fabricantes a reduzirem os custos. Segundo apurou TELETIME junto a fontes da empresa, mesmo que o acesso por fibra seja o mais barato em valores relativos (custo por megabit), o investimento só faz sentido economicamente quando o usuário contrata mais de 20 Mbps e uma série de serviços agregados, como vários canais de vídeos e alta definição.

A empresa explica que o mercado ainda não chegou a esse ponto de maturidade, e por isso é necessário reduzir a componente de custo para acelerar a adoção da nova tecnologia. Além disso, existe uma complexidade na instalação e nos sistemas de suporte ao serviço de acesso por fibra óptica que ainda são desafiadores para a companhia. Outro problema é que ainda não há padronização das redes de acesso por fibra, e a Telefônica, que trabalha com três fornecedores (Alcatel-Lucent, Ericsson e Huawei) sofre com isso. Segundo os técnicos da Telefônica, a operadora estuda alguns modelos alternativos de distribuição dentro dos condomínios, com uso de tecnologia wireless, Ethernet e mesmo cabo coaxial. “Não é que não expandiremos a rede de fibra. Só que vamos fazer isso mais lentamente”, diz De Beer. A prioridade da empresa, ao que tudo indica, é o bom e velho serviço de banda larga por ADSL, empacotado com o serviço de voz. Isso exigirá investimentos no backbone e backhaul da empresa para evitar a degradação do serviço, mas hoje, diz De Beer, a empresa está com rede ociosa. Além disso, até março de 2010 a empresa promete atender todos os municípios de sua área de cobertura, completando assim as metas previstas no PGMU, segundo o presidente Antônio Carlos Valente.

A oferta mais agressiva de DTH da Telefônica ainda depende de uma definição sobre a estratégia de empacotamento dos produtos para classes de maior poder aquisitivo. Desde o ano passado o produto de DTH da Telefônica não é mais considerado um produto de baixo custo. Além disso, a venda do serviço foi impactada pela pirataria dos sinais por meio das caixas clandestinas, como a AZBox. A operadora cogita atuar em parceria com a Vivo na oferta de pacotes combinados inclusive fora do Estado de São Paulo, mas são estratégias ainda em definição, que não devem gerar investimentos em equipamentos.

Outro esforço em estudo pela Telefônica diz respeito a sua rede de telefonia, que vem lentamente perdendo base. Com pelo menos duas panes sérias na rede de voz, a operadora cogitava a hipótese de duplicar os pontos de transferência de sinalização (PTS), com equipamentos de múltiplos operadores. Para fazer isso, contudo, seria necessário um complexo processo de integração, cuja viabilidade ainda precisava de estudos. A Telefônica não projeta grandes investimentos adicionais no core da rede nem em sistemas em 2010.

Aperto e obrigação

Mas o que deixa o mercado, sobretudo de fornecedores, apreensivo é o que acontecerá com a Oi em 2010. Maior operadora do país e responsável pela maior parte dos investimentos, a Oi viverá um ano de economia em 2010. Com R$ 30 bilhões em dívidas para serem equacionadas e compromissos com credores de manter indicadores saudáveis, a operadora não terá muita margem de manobra.

Ainda assim, o “arroz com feijão” da Oi é suficiente para movimentar o mercado. São valores entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões apenas no investimento necessário para atender as metas colocadas pela Anatel, seja no Plano Geral de Metas de Universalização, seja para cumprir compromissos exigidos no ato da anuência prévia que permitiu a fusão com a Brasil Telecom. Um valor semelhante é estimado para os investimentos em setores onde não há obrigação regulatória, mas necessidade concorrencial. “2009 foi um ano carga pesada. Juntamos as duas companhias e estendemos a operação móvel para São Paulo onde já temos 4 milhões de clientes e 11% de market share”, disse João de Deus, diretor de planejamento estratégico da Oi durante o Fórum Telequest em São Paulo.

No quesito “investimentos forçados” pela regulamentação, a expansão do backhaul é o mais complexo. A operadora é a responsável por assegurar que quase 5 mil municípios tenham uma rede de dados de alta velocidade disponível (backhaul). Segundo fontes da Oi, esse investimento é brutal, primeiro no backbone necessário a dar suporte a essa rede, depois a infraestrutura de acesso como estradas, torres, postes e dutos. E, por fim vem o investimento em roteadores, rádios de microondas, fibra quando é o caso etc.

Parte desse investimento em backhaul já foi contratado e pago em 2009, mas ainda há a possibilidade de que a operadora tenha que ajustar seus planos em função da nova versão do Plano Geral de Metas de Universalização, que deve sair no começo de 2010 para valer em 2011.

Entre os investimentos decorrentes das obrigações assumidas com a Anatel na anuência prévia, para a fusão com a BrT, está ampliar o backbone na Região Norte. A Oi está construindo uma extensa rede de fibra ligando Manaus a Boa Vista e, de lá, à Venezuela e ao Brasil, rota considerada mais barata do que uma rota meramente amazônica. Este é um projeto de R$ 100 milhões, parte já contratado.

Outro investimento importante da Oi, ainda na categoria dos investimentos compulsórios, será na obrigação de levar Internet discada a todos os municípios da área de cobertura. Com estas obrigações, e com uma empresa endividada, os investimentos em mercados rentáveis implicam uma escolha rigorosa e estudada. Por enquanto, a estratégia passa pela ampliação da oferta de banda larga fixa, pela rentabilização dos serviços móveis e pela ampliação da oferta de TV por assinatura. Na banda larga fixa, haverá a expansão da rede ADSL para os municípios entre 50 mil e 200 mil habitantes ainda não atendidos, o que gerará um expressivo investimento em DSLAMs, infraestrutura de backhaul, melhoria da rede de acesso e investimentos nas centrais, além é claro do investimento na aquisição dos clientes.

Paralelamente, a Oi não quer continuar perdendo espaço para a Net Serviços junto a clientes rentáveis, e deve expandir, pelo menos de maneira moderada, sua rede de acesso por fibra, hoje disponível em alguns bairros de cinco cidades. Além disso, a rede de par trançado passará a oferecer velocidades de 14 Mbps e 20 Mbps por meio de ADSL2, o que também demandará algum investimento nas centrais. Na parte de serviços móveis, a ordem é aumentar o ARPU. No estado de São Paulo, por exemplo, a empresa entrou achando que teria uma receita média por usuário de R$ 20 e constatou apenas metade disso. Para ampliar a receita, a estratégia é a banda larga móvel. A Oi, dizem seus executivos, fez o investimento necessário na rede nos últimos dois anos, então há capacidade ociosa para ampliar a oferta de serviços. Isso significa, contudo, que no ano de 2010 a rede móvel não deve ter investimentos significativos.

Outra variável que a Oi observa com muita atenção e que pode influenciar investimentos é o Plano Nacional de Banda Larga. Por atuar em 26 dos 27 estados brasileiros na condição de concessionária, qualquer coisa que o governo faça tem um grande impacto para a operadora. Se o backbone estatal começar a ser utilizado, ou se o governo decidir prover acesso, ou mesmo se passar a exigir mais metas de universalização de banda larga, todo o planejamento da Oi pode mudar, segundo fontes da operadora.

Na questão da TV paga, a Oi claramente se ressente de não ter acesso a licenças de TV a cabo. A solução para esse problema ainda é complicada (ver matéria nesta edição). Aguardar a aprovação total do PL 29/2007 significa esperar pelo menos mais um ano para que ele passe no Senado. Fazer uma licitação sem mexer na Lei do Cabo restringirá, num primeiro momento, a presença das teles, e a Oi será a mais afetada. É claro que a Oi tem já hoje o DTH para ofertar a seus clientes de forma integrada com os demais serviços, mas considera que os clientes mais rentáveis estão sendo tomados rapidamente pela Net Serviços. O sucesso da operadora concorrente está, justamente, no fato de a Net oferecer os serviços por meio de uma boa e única rede de cabo.

Talvez por esse motivo a Embratel esteja planejando construir, a partir de 2010, uma rede HFC pronta para banda larga e telefonia e para um futuro serviço de vídeo. O investimento da tele não será pequeno, pois as consultas aos fornecedores falam em um milhão de homes passed, o que é 10% da base de homes passed da Net. A rede HFC será complementar à de TV por assinatura em termos territoriais. Ou seja, elas não brigarão entre si. E até que a legislação permita à Embratel adquirir licenças de TV a cabo, a rede servirá para serviços de banda larga e telefonia apenas.
Samuel Possebon
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