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  EDIÇÃO #150 - ANO 14 - DEZEMBRO/2011
INFRAESTRUTURA
Mares revoltos

O ano foi de forte turbulência no mercado de cabos submarinos. Aquisições, ampliações e o esperado anúncio do projeto da Telebras no mercado de links internacionais geraram dúvidas e dividiram opiniões, sobretudo entre os players do setor.
Para os representantes da Level 3, empresa norte-americana de serviços que recentemente adquiriu a Global Crossing e tornou-se um dos maiores provedores de comunicação intercontinental do mundo, a maior competição deve ser positiva. “Há uma parte (da rede submarina) que a Telebras deve construir, mas eu diria que a grande maioria será composta pelo backbone de empresas já estabelecidas, ou seja, poderemos usufruir dessa capacidade para chegar em locais de difícil acesso, como a região Norte. E, em contrapartida, a Telebras precisará de banda”, prevê Orlando Neves, diretor de produtos da Level 3. Já Yuri Menck, diretor de marketing da empresa, não vislumbra um horizonte tão bom assim. “Esse é um processo que está começando (a ser discutido) agora e será implantado daqui a alguns anos, por isso corre-se um grande risco de investir muito dinheiro para depois chegar-se à conclusão de que era necessário contratar outras empresas”, diz.
Mitsuo Shibata, diretor geral da Telefónica Whole Sale (TIWS), subsidiária do grupo Telefónica e provedor global de comunicação, vê ambiguidade no debate. “É saudável num ponto, pois pode estimular o crescimento dos backbones brasileiros e da banda larga como um todo. Mas não há carências nos links internacionais, pelo contrário, acho que o Brasil já está muito bem servido nessa área. Além do mais, a Telebras tem investimentos mais importantes por fazer, como em infraestrutura terrestre”, diz. O projeto de instalação dos cabos submarinos está orçado em R$ 2,5 bilhões, dos quais 40% serão arcados pela Telebras e o restante por empresas parceiras.
No entanto, o gerente de tecnologia e inovação da Telebras, Paulo Kapp, rebate a crítica de maneira curta e grossa: “Quem sabe onde temos de gastar somos nós”. Kapp justifica o investimento alegando que esta é a única forma de se reduzir drasticamente o custo por megabit da banda que chega ao Brasil e assim viabilizar as operações da estatal. “Quase metade do tráfego nacional anual, de aproximadamente 1,8 Tbps, vem dos Estados Unidos (EUA) e o custo médio é de US$ 35 a US$ 37 por Mbps”, dispara. “A diferença do preço se dá dentro do Brasil (redes terrestres) e ganha quem tem acesso local, como Embratel, Telefônica e Oi”.
O custo considerado razoável pela Telebras é de US$ 15 por Mbps na saída de Fortaleza, menos da metade do preço cobrado atualmente pelas operadoras de cabo submarino. “A Telebras é carrier de carrier e nosso principal objetivo, ao construir o cabo submarino, é o de baixar esse preço e inundar o País todo de banda larga”.
O projeto, anunciado recentemente pela estatal, prevê uma saída para os EUA (chegada em Miami, Jacksonville ou Virgínia), passando pelo Caribe e conectando com os países da fronteira Norte (Colômbia e Venezuela); uma outra saída para a Europa, passando por Cabo Verde, na África, e chegando na Inglaterra, Holanda ou França (as opções ainda estão em estudo, mas a preferência é Amsterdam); um terceiro cabo ligando Fortaleza e Angola; e uma outra derivação para os países do Cone Sul (Uruguai e Argentina).
A ideia é implantar uma rede de capacidade máxima de 32 Tbps, mas com capacidade inicial de 2 Tbps. Pelas projeções da Telebras, o tráfego brasileiro é hoje de 1,8 Tbps. “Uns 500 Gbps desse total é acessado via redes internacionais por meio dos cabos submarinos existentes. Teremos de ter também um backbone de uns 500 Gbps e, a partir daí, evoluir esse tráfego”, calcula Kapp.
O objetivo da estatal é se tornar uma operadora Tier 1, ou seja, com capacidade de conexão direta aos principais pontos de troca de tráfego sem precisar passar por intermediários. Com isso, a Telebras teria a possibilidade de trocar tráfego com operadores de cabos que cruzam o continente africano e assim ter uma saída direta para a Ásia, sem passar por Europa ou EUA, como acontece hoje.

América do Sul
Mas a intenção da Telebras de derrubar o custo do megabit dos links internacionais não se restringe à implantação de cabos submarinos próprios. Aliás, o debate extrapola as fronteiras nacionais e está sendo tratado no âmbito sul-americano. A missão é interligar, por terra e mar, a infraestrutura de telecomunicações dos países sul-americanos, ação coordenada pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul) com doze países da Região. Atualmente, a comunicação entre os países da América do Sul só ocorre por meio de cabos submarinos ligados a outros continentes, principalmente aos Estados Unidos. O anel óptico pretende promover a integração das telecomunicações na Região, além de torná-la menos dependente do tráfego transcontinental.
O negócio é tão sério que, pela primeira vez, os ministros de comunicação dos países sul-americanos se reuniram em Brasília para conversar, no final de novembro, tendo esse assunto em pauta. A nova infraestrutura abrangeria praticamente toda a América do Sul, com uma extensão total de mais de 10 mil quilômetros, e aproveitaria as redes existentes utilizadas atualmente no setor elétrico ou energético, como é o caso dos gasodutos. O objetivo final é o de reduzir os custos das transmissões de dados entre os países e assim ampliar o acesso aos serviços de telecomunicações entre a população sul-americana. “Em relação a uma empresa norte-americana, um provedor de serviços na América do Sul paga, no mínimo, três vezes mais por megabit”, compara Kapp. “Na Bolívia, o valor do Mbps é US$ 1 mil”, alerta.
Segundo o consultor da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), Edwin Rojas, o uso dos enlaces internacionais representa de 30% a 40% do custo final do serviço de Internet na América Latina. “As operadoras dizem que esse custo não passa dos 20%, mas há outras melhorias que devem ser analisadas”, alerta. Esse valor excessivo na composição da conta do serviço de Internet, de acordo com o consultor, ocorre pois de 60% a 80% do tráfego internacional originado na América Latina passa por servidores dos Estados Unidos. Cerca de 40% desse tráfego advém do Brasil.
Mas os provedores privados refutam: “Só de impostos são 40%. Essa conta não fecha. Além do mais, o usuário doméstico paga muito mais pela última milha, principalmente se for cliente de incumbent, diz o diretor de marketing estratégico e comunicações da Level 3. E (para cada assinante de 1 Mbps) as operadoras não reservam 1 mega. Elas compram isso para dividir entre três assinantes, por isso esse gasto internacional é diluído, não representa tanto”, acrescenta.
Segundo o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, o custo aproximado do projeto de integração de infraestrutura será de US$ 100 milhões e o prazo de conclusão é de dois anos. Este número, entretanto, representa apenas uma fração do montante total do plano, que inclui também cabos submarinos que ligarão a costa brasileira aos EUA, Europa e África. Bernardo defende que o projeto seja estabelecido como uma prioridade entre os países do continente e seja incluído no Plano de Ação Estratégico 2012-2022 do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (Cosiplan).
O presidente da Telebras, Caio Bonilha, revelou que há uma negociação da estatal com a Odebrecht Defesa, que participaria da construção do trecho que ligará a América do Sul aos EUA e à Europa. Porém, declarou que tudo não passa de conversas preliminares. Por ser um projeto comercial, não há restrição à entrada de sócios no projeto e a Telebras estuda propostas de outras empresas. Na ponta africana, por outro lado, já existem compromissos firmados com empresas como a Angola Telecom para a construção do cabo. Segundo Bonilha, o que não falta ao projeto são empresas interessadas em entrar na joint-venture. Ele explica que a Telebras deve ser minoritária na joint-venture, mas será a maior acionista individual, e terá o controle das operações em Fortaleza e nos EUA .

Novo gigante
Do lado privado, o mercado não foi menos agitado. A Level 3 concluiu a aquisição da Global Crossing e, com isso, é agora uma das maiores provedoras de infraestrutura de comunicações do mundo, com receita de US$ 6,2 bilhões, 56 mil quilômetros de redes submarinas, 160 mil quilômetros de rotas terrestres e 48 mil quilômetros de redes metropolitanas. “Ganhamos força nas Américas e agora somos o único provedor com acesso a todos os continentes, presente em 70 países e mais de 700 cidades”, comemora Neves. “Em 2011 estudamos a entrada em outros países. Provavelmente teremos novidades em 2012”, acrescenta.
Não só o crescimento da capilaridade está em curso, mas um aumento da capacidade dos cabos do SAC (link submarino herdado da Global Crossing). “No segundo trimestre de 2012 ampliaremos a capacidade de lambda de 40 Gbps para 100 Gbps, crescimento de duas vezes e meia”, antecipa.
Além de conectividade, as empresas do setor procuram oferecer serviços de valor adicionado. Em 2009, a Global Crossing lançou um serviço chamado Ethesphere. O produto é uma espécie de Metro Ethernet internacional, porque liga diversas filiais ao redor do mundo por meio de uma simples conexão Ethernet. A Level 3 manterá e ampliará o serviço. E tem fortes motivos para isso. “Desde que começou, nos últimos três anos o crescimento anual desse serviço tem sido de 35%”, relata Yuri Menck.
A companhia está recebendo da Global Crossing um bom legado no segmento corporativo, que representa 60% do negócio da empresa no Brasil. Os outros 40% vêm do provimento de conectividade para operadoras.

TIWS
A Level 3 tem como concorrentes na região diversos outros players de peso, como a Embratel (Atlantis 2, Americas 2 e Unisur); Oi (Globenet); LANautilus (Telecom Italia); e TIWS (SAM-1). Esta última acredita que o fato de ser o único provedor que não dispõe de uma operadora de telecom no varejo pesa significativamente contra a Level 3. “Cerca de 99% do tráfego doméstico das operadoras com provedores internacionais, como Oi, TIM e Telefônica, saem e entram do País por esses links próprios. E estamos muito à frente, pois temos operações domésticas em vários países”, diz Mitsuo Shibata, diretor geral da TIWS, subsidiária do grupo Telefónica.
Ao contrário da Level 3, a atuação da TIWS se restringe ao mercado de wholesale, ou seja, venda de dados e voz no atacado. “Não pode haver conflito de interesses: mercado corporativo é com a Telefônica Empresas, que é um dos nossos principais clientes”, explica. “A voz, mesmo ocupando uma banda pequena, ainda gera um tráfego e uma receita associada importante. Cerca de 60% da nossa receita vem da telefonia internacional. Só o grupo Telefónica trafega no mundo 20 bilhões de minutos por ano”, diz o executivo, que destaca também o recente lançamento de um serviço de atendimento ao cliente para as carriers. “Temos atendido a Vivo na expansão que ela necessita nas regiões da Amazônia e no Nordeste, inclusive via satélite”.

Gargalo
Para Shibata, o problema nas telecomunicações não se encontra no mar, mas sim na terra. “O gargalo não está nas operações internacionais, mas nas domésticas. Esse é o desafio para todas as operadoras. Dependemos muito dos backbones terrestres para ampliar ainda mais nossa capacidade. De nada adianta construir uma auto-estrada se no final haverá várias ‘ruazinhas’”, compara. “Um lambda de 100 Gbps chegar ao País e não conseguir trafegar, caindo para 10 Gbps, gera perda de eficiência”, acrescenta.
Segundo o executivo da TIWS, o SAM-1 foi instalado há dez anos e teve sua capacidade nominal multiplicada por dez desde então. “Não preciso mexer em absolutamente nada da parte molhada do cabo. Faço isso remotamente. Operar um cabo submarino é totalmente diferente de operar um cabo terrestre. É necessário haver um alinhamento com as redes terrestres”. Esse alinhamento, revela, está ocorrendo no grupo Telefónica. “Com a compra da Vivo, TVA, as futuras redes LTE, estamos trabalhando em um plano estratégico de arquitetura de redes”.
Shibata revela que a TIWS continua investindo em aumento de capacidade, apostando também em cashing local. “Onde conseguíamos passar um lambda de 10 Gbps no mesmo espectro, hoje passamos 40 Gbps. E já estamos em testes avançados para transmitir, em um só cabo, 100 Gbps. Ou seja, nossa capacidade total é de 1,9 Tbps, mas pode chegar a 19 Tbps”, explica.

Vendors
Com a capacidade das redes submarinas dobrando, em média, a cada 24 meses, os vendors ampliam seus negócios. Alcatel-Lucent, Nokia Siemens Networks, Huawei e outras grandes fabricantes de equipamentos de transmissão apostam algumas fichas no mercado de links internacionais.
Desde que desembolsou US$ 2 bilhões, no primeiro trimestre de 2010, e comprou a divisão de redes Metro da Nortel, a Ciena, nome mais novo nesse setor, não para de crescer. “Cerca de 25% dos 2 Tbps dos dados que circularam nos cabos submarinos em 2011 no Brasil foram roteados por equipamentos da Ciena. E acreditamos que entre 2011 e 2017 o crescimento da demanda será de 45% a 50%”, diz Marcos Garcia Villas-Bôas, diretor regional e gerente geral da Ciena Brasil, que acredita que em 2018 o tráfego anual no Brasil atinja 18 Tbps. “Vídeos de alta definição, 3D, proliferação de smartphones, tablets, Copa do Mundo, Olimpíadas, temos boas razões para estar otimistas.”

Nau óptica
Quando o assunto é cabos submarinos, muito pouco se fala a respeito daqueles que têm a árdua tarefa de atravessar os mares instalando e fazendo manutenção nos cabos ópticos. Na verdade, são poucas as empresas que realizam o serviço de ponta a ponta. Elas cabem nos dedos de uma mão. Primeiro porque custa caro e requer alto nível de especialização. “Já instalamos cabos ópticos em pontos no mar com uma profundidade maior do que a altura da Cordilheira do Himalaia”, diz Vincent Chevalier, vice-presidente das Américas da Alcatel Lucent Submarine Network. A Cordilheira do Himalaia é a cadeia montanhosa mais alta do mundo e tem mais de 100 picos que excedem os 7,2 mil metros do chão. “É um investimento elevado; além do que, é preciso muita experiência e tripulação especializada nos barcos que instalam os cabos, construídos especialmente para esse fim”. A Alcatel Lucent tem mais de 50 anos de experiência em instalação de links internacionais, uma base de aproximadamente 510 mil quilômetros de redes submarinas implantadas e uma frota de seis navios “offshore” – como são chamados. Parece pouco, mas cada embarcação desse tipo custa, em média, US$ 120 milhões. “A frota mundial de navios offshore é de 40 embarcações, das quais oito são nossas”, diz Courtney McDaniel, diretor da TE SubCom, empresa do Grupo TE também com mais de 50 anos de experiência no setor e 490 mil quilômetros de sistemas ópticos instalados. “Recentemente, concluímos um projeto que exigiu seis navios, com várias centenas de pessoas envolvidas”, diz McDaniel, que afirma que a TE SubCom é a única empresa que terá uma embarcação especializada de plantão no norte da América do Sul para a manutenção e reparação de prováveis rupturas. No Brasil e América do Sul, aliás, a TE SubCom construiu e atualizou os sistemas submarinos Americas, Americas 2, SAM1 e Columbus, além de projetos offshore para a Petrobras.

Daniel Machado
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