Não adianta mais chorar. As metas de qualidade para a banda larga fixa e móvel foram aprovadas pela Anatel e agora as empresas começam a estudar o que fazer para atender às novas regras. A parte mais complicada do regulamento que foi aprovado pela agência – aquela que estabelece as metas de velocidades instantânea e média – entra em vigor um ano após a publicação, ou seja, em outubro de 2012. As empresas, portanto, ainda têm um bom tempo para se adaptar.
Uma coisa é certa: as operadoras terão que fazer investimentos tanto na rede móvel quanto na fixa. No caso da rede fixa, a situação talvez seja ainda mais complexa, já que as incumbents têm uma extensa malha de rede legada de cobre. A situação é especialmente mais complicada para a Oi, já que ela tem o serviço de banda larga por xDSL (que usa a rede de cobre) na maior parte dos mais de 5 mil municípios brasileiros, muitos deles com baixo poder aquisitivo e, portanto, retorno de novos investimentos mais lento.
A operadora fez intensa oposição ao texto durante todo o período de consulta pública, e agora sustenta que é impossível cumprir as metas aprovadas. “É impossível cumprir as metas da Anatel. A tendência é que a agência perceba que fez um regulamento sem eficácia”, afirma Paulo Mattos, diretor de regulamentação da operadora.
A Oi ainda não tem uma resposta concreta sobre como pretende tornar sua rede capaz de entregar uma banda larga com a qualidade definida pela Anatel. “Estamos estudando a melhor forma de resolver o problema que o regulador criou sem resolver o problema do consumidor. A Anatel criou regras estáticas para um mundo que é dinâmico”, critica Mattos.
Se as previsões do executivo se confirmarão ou não, só o tempo dirá. O fato é que outras empresas já estão estudando quais serão os investimentos necessários para que a rede esteja apta a entregar as velocidades exigidas pela Anatel (veja quadro). A Telefônica/Vivo, por exemplo, por meio de sua assessoria de imprensa, informa que foi formado um grupo técnico de trabalho para estudar o assunto.
Alguns fornecedores acreditam, entretanto, que as novas regras farão com que as empresas sejam obrigadas a diminuir o número de assinantes que compartilham a mesma rede. Para os mais pessimistas, as operadoras poderão até discutir no âmbito da sua associação – a Telebrasil – uma diminuição coordenada da velocidade dos planos ofertados. Ou ofertarem apenas planos de velocidades baixas nas localidades mais remotas e com baixo poder aquisitivo. O fato é que, segundo os especialistas, nenhuma empresa está preparada hoje para entregar até 80% da velocidade média contratada ao final de três anos e 20% da velocidade instantânea, como determina a norma. Lembrando que no primeiro ano, a meta de velocidade média já é de 60%, também considerada pelas operadoras fora da realidade.
Software
A pequena Sercomtel, concessionária do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC) em Londrina e Tamarana, no interior do Paraná, saiu na frente das concorrentes ao adotar o software desenvolvido pelo Comitê Gestor de Internet (CGI.br) para a medição da velocidade. Assim, a concessionária se antecipa à obrigação colocada pelo novo regulamento de qualidade do Serviço de Comunicação Multimídia (SCM) e do Serviço Móvel Pessoal (SMP).
De acordo com os novos regulamentos, entretanto, as empresas deverão contratar uma entidade – a Entidade Aferidora de Qualidade – que deverá desenvolver o software, cujas medições não serão usadas no cálculo dos indicadores de rede. Essa é a principal razão para que a operadora não faça uma divulgação sobre a existência do link para o SIMET (sistema de medição criado pelo CGI.br) na página na Internet.
O diretor de engenharia e operações da Sercomtel, Hans Muller, explica que a divulgação ainda não foi feita porque as discussões sobre o assunto no Grupo de Implantação de Processos de Aferição da Qualidade (GIPAQ) poderá levar ao uso de um outro software.
Apesar da pouca divulgação, a adoção do SIMET tem trazido benefícios para a Sercomtel. Isso porque, em caso de reclamação, os técnicos da companhia podem provar ao cliente que o problema não é na rede da Sercomtel, quando for o caso. Segundo o executivo, muitas vezes o problema está na rede interna, que pode estar velha ou deteriorada pela umidade, por exemplo. Os técnicos podem fazer a medição isolando a rede interna. Outra gargalo comum é o uso de roteadores Wi-Fi que, de acordo com as suas especificações técnicas, podem atuar como um estrangulador de banda.
Investimento
Müller explica que para atender aos novos parâmetros da Anatel é preciso fazer investimentos na última milha, no core de rede e na saída de tráfego internacional. “Estamos com investimentos contratados para essas três áreas”, afirma ele. Mesmo sendo uma operadora regional, a Sercomtel está conectada aos Pontos de Troca de Tráfego (PTT) de São Paulo, Curitiba e Londrina. Com a conexão aos PTTs, é como se a Sercomtel trouxesse para dentro da sua rede todos os conteúdos que também estão conectados a eles, explica o executivo. Para a última milha, a estratégia é encurtar a rede de cobre, levando o centro de fios – onde ficam os DSLAMs – para mais perto dos clientes.
Para o diretor de marketing e produtos da Huawei, Marcelo Motta, haverá uma onda de substituição dos DSLAMs ATMs para os modelos IP e upgrade no backhaul e backbone. “Hoje as redes estão preparadas para entregar 10% da velocidade contratada. Subir para 60% (e depois para 80%) significa um investimento cavalar em transmissão”, afirma ele. O executivo explica que a garantia de banda varia de acordo com o tipo de conteúdo que o usuário demanda. No caso de vídeo, que é o tipo de conteúdo que mais cresce, é impossível a operadora compartilhar a mesma informação com outros clientes, como ela faz com outros conteúdos. “Esse fator de compartilhamento não vai ser mais o mesmo”, afirma. Outra consequência será o aumento da adoção das plataformas de Content Delivery Network (CDN), que permitem à operadora armazenar em servidores mais próximos do usuário aqueles conteúdos mais acessados.
À primeira vista, o cenário pode levar a um aumento no nível de investimentos das operadoras, mas a Huawei não acredita que isso vai acontecer. Motta afirma que normalmente o investimento das teles segue um percentual do faturamento líquido. E, nesse caso, as novas metas de qualidade não vão levar as empresas a faturar mais.
O diretor regulatório da Huawei, Eugênio Vasconcelos, acrescenta que as empresas poderão adotar uma política de não oferecer velocidades altas em cidades afastadas dos grandes centros, onde a infraestrutura de rede é mais deficiente. Assim, com velocidades mais baixas, seria mais fácil cumprir as metas da Anatel. Vasconcelos especula que as teles poderiam até combinar entre elas de não elevar as velocidades dos seus atuais planos de serviço. Para a banda larga móvel, Motta afirma que o regulamento “não faz sentido”. Isso porque hoje as empresas não comercializam planos por velocidade, mas sim por capacidade.
O diretor de tecnologia da Nokia-Siemens, Wilson Cardoso, explica que quanto mais longe o assinante está da central telefônica, maior é a interferência entre os pares de cobre – fenômeno chamado de diafonia – e, portanto, mais difícil será garantir elevados percentuais de velocidade contratada. “Isso é um grande problema para a Oi por causa da distância (da última milha) e pela rede antiga”, afirma ele. Segundo Cardoso, para a banda larga móvel a situação é ainda mais difícil, já que os usuários nunca estão sempre no mesmo lugar. A mesma opinião é compartilhada pelo diretor da Oi, Paulo Mattos.
O vice-presidente de estratégia e marketing para América Latina e Caribe da Ericsson, Lourenço Coelho, acrescenta que além dos investimentos em acesso, backhaul e backbone, as empresas precisarão investir também em serviços de otimização de rede.
Olhando para o futuro, o executivo afirma que é provável que as ampliações de rede das empresas aconteçam através da rede móvel. Isso porque a instalação da rede fixa exige as mais diversas autorizações municipais para a passagem dos cabos pelas ruas. Além disso, é muito mais cara a instalação de uma rede fixa, que exige uma quantidade muito maior de obras civis do que a instalação de uma antena em uma torre que provavelmente já existe. “Se essas operadoras precisarem crescer, elas vão para a banda larga móvel, porque não precisa arrebentar rua, passar cabo nem tirar licença na prefeitura”, afirma ele. Além disso, Lourenço destaca que com o LTE as operadoras poderão atender às exigências da Anatel com um custo menor.
CGI.br, o candidato natural
O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) parece ser o candidato natural a ser escolhido pelas empresas para ser a Entidade Aferidora da Qualidade exigida na regulamentação de banda larga. Isso porque o CGI é a única instituição que tem alguma experiência com teste de velocidade da banda larga no País. O órgão fez uma medição em três capitais em parceria com o Inmetro, divulgada em junho. O método usado pelo CGI – que prevê um equipamento dedicado na casa do assinante - acabou sendo o adotado pela Anatel nos novos regulamentos.
Além da experiência prévia, a escolha da entidade conta com o apoio declarado da Oi. “A Oi, se tiver que contratar, vai contratar o CGI, porque não há um órgão tecnicamente tão habilitado quanto ele”, afirma Paulo Mattos, diretor de regulamentação da operadora.
O diretor de projetos do Nic.Br, braço técnico do CGI, Milton Kaoru, afirma que está sendo desenvolvido um equipamento que elimina das medições o período em que o usuário usa o computador, o que dá mais precisão aos testes. O novo equipamento já será usado na pesquisa TIC Domicílios do ano que vem, mas não exclusivamente. Alguns domicílios terão a medição feita por software. Isso porque, segundo ele, é grande a resistência das pessoas em relação à instalação de outro equipamento em suas residências. “Esse tipo de know how só quem tem se mete a fazer. Na teoria muita coisa funciona, mas na prática é diferente”, afirma.