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  EDIÇÃO #127 - ANO 12 - NOVEMBRO/2009
TERMINAIS
Netbooks: marolinha ou tsunami?

Os netbooks estão na moda, disso ninguém duvida. As vendas, segundo pesquisa da ITData, devem atingir um milhão de unidades no Brasil em 2009, contra 150 mil registradas em 2008. “Houve um boom de netbooks este ano. A gente se surpreendeu com a demanda”, confirma o gerente de notebooks e netbooks da LG, Fernando Fraga. Se ano passado havia poucos fabricantes oferecendo o produto no Brasil, hoje há mais de dez. Embora os números demonstrem um crescimento expressivo, talvez o fenômeno “netbooks” não dure muito tempo. Fatores como a indecisão das operadoras celulares em apostar nesse produto, a má comunicação sobre as limitações dos netbooks e a queda de preço dos notebooks podem fazer com que esse segmento permaneça eternamente como um nicho, ou até desapareça. O netbook nasceu há dois anos com o propósito de ser o segundo computador ou segundo laptop dos consumidores. O público alvo originalmente era de consumidores das classes A e B que viajam muito ou trabalham fora do escritório e por isso precisam de um laptop mais leve que o normal apenas para acessar a Internet e realizar tarefas básicas. O netbook é caracterizado por sua tela pequena e por não ter drive óptico para leitura de CDs ou DVDs. A memória costuma ser menor e o processador menos rápido que aqueles de um laptop tradicional. Tudo isso torna o produto mais leve e mais barato.

A primeira geração de netbooks tinha tela de 7 polegadas: era para aproveitar a produção em larga escala de telas para DVDs portáteis. Os primeiros modelos nem sequer tinham disco rígido, a memória RAM era de apenas 512 Mb e o sistema operacional era Linux. O problema é que o consumidor não se acostumou com o tamanho da tela e do teclado, cujas teclas minúsculas dificultavam a digitação. Surgiram então versões com tela de 8,9 polegadas, fazendo com que a demanda pelos modelos com 7 polegadas caísse e sua produção fosse descontinuada pela maioria dos fabricantes.

Aos poucos, os netbooks foram se aproximando dos notebooks: a chamada segunda geração já tem tela de 10 polegadas, HD de 160 Gb, memória RAM de 1 Gb e há vários modelos que saem de fábrica com Windows XP. No roadmap de vários fabricantes está previsto o lançamento de versões com 12 polegadas de tela.

Para o analista sênior do Gartner, Ken Dulaney, o fenômeno de vendas de netbooks, na verdade, demonstra um desejo do consumidor por laptops mais baratos. Ele entende que, no fundo, não existe uma demanda significativa por um produto com as características físicas de um netbook. “O mercado de massa sempre vai preferir telas maiores. Se o preço for o mesmo, o consumidor comprará um notebook, não um netbook”, afirma Dulaney.

No Brasil, os netbooks são vendidos a preços próximos a R$ 1,4 mil. A diferença é grande quando comparado com laptops, que costumam estar acima de R$ 2 mil. A novidade atraiu consumidores que ainda não tinham laptop ou nem tinham um computador pessoal em casa. Para muita gente, o netbook está fazendo o papel de primeiro PC. E aí surge um grande problema: o varejo vende o netbook como se fosse um laptop comum, sem esclarecer suas limitações.

Como consequência, muitos consumidores brasileiros que compraram o produto se frustraram. “O netbook não foi criado para ser o único computador de uma pessoa. Ele é para uso complementar”, explica a gerente de marketing de novos produtos da Positivo Informática, Adriana Flores.

Diversas fontes ouvidas por TELETIME, entre fabricantes, operadoras e analistas, admitiram que existe uma falha na comunicação das características do netbook, especialmente da parte dos varejistas. O resultado negativo pôde ser verificado em uma pesquisa da ITData realizada em julho passado: nada menos que 41% dos brasileiros que compraram netbooks estão insatisfeitos com o produto. Uma das principais razões é terem descoberto tarde demais que não há drive para DVD, por exemplo.

Em razão dessa frustração inicial dos consumidores e também da canibalização das vendas de notebooks e desktops, alguns fabricantes estariam pensando em reduzir a produção de netbooks, relatam fontes. “O ano de 2010 é uma incógnita para o mercado de netbooks. Não me arrisco a fazer uma previsão de vendas. Será que esse produto vai vingar com o consumidor e com a indústria em si?”, pergunta o diretor de pesquisas da ITData, Ivair Rodrigues.

Se, por um lado, os netbooks canibalizam as vendas de notebooks, estes últimos também contra-atacam. O diretor comercial da MSI, Marcelo Martins, reclama que há fabricantes despejando notebooks obsoletos a preços de netbooks no mercado brasileiro, o que freia o crescimento do novo produto. “São notebooks de quatro anos atrás”, afirma o executivo, sem citar os nomes dos fabricantes que adotam tal prática.

Operadoras

Na opinião de especialistas, contudo, o mercado de netbooks pode deslanchar no Brasil se o produto cair nas graças das operadoras celulares, como acontece na Europa. Lá, o netbook é vendido a preços subsidiados, desde que o consumidor assine um plano de banda larga 3G com um longo prazo de fidelidade, que pode chegar até a 36 meses. No Brasil, a regulamentação não permite que os contratos exijam fideli¬dade superior a 12 meses. Isso é um dos limitadores ao interesse das teles nacionais pelos netbooks, mas não o único.

A maioria das operadoras brasilei¬ras demonstra certa indecisão quanto à aposta nesse produto. Todas dizem estar estudando o mercado. Algumas já têm um ou outro modelo em seu portfó¬lio, como é o caso da Vivo e da TIM. A Claro, por sua vez, estuda lançar seu primeiro netbook no Natal. Em todas as opera¬doras a abordagem ainda é um tanto tímida, com subsídio pequeno e pouca investimento em mídia para divulgação. “Estamos à procura de um parceiro e de um produto ideais para fazer uma primeira grande campanha de marketing para venda de netbooks. Ainda não sei quando isso acontecerá”, explica Rafael Marquez, gerente de terminais da TIM.

Alguns fabricantes relatam terem procurado as teles para a venda de netbooks, mas foram aconselhados a conversar diretamente com o varejo. “Talvez o melhor caminho seja a distribuição triangular: o fabricante vende ao varejista, que, por sua vez, recebe uma bonificação da operadora se conseguir incluir um plano 3G na venda ao consumidor”, relata uma fonte de um fabricante.

Uma das preocupações das operadoras é que os vendedores de suas lojas não estariam preparados para trabalhar com produtos de informática. “Vender um netbook não é trivial. O consumidor vai sabatinar o lojista sobre a configuração do aparelho.

É preciso treinar os vendedores, ter modelos para degustação, arrumar os produtos em um espaço diferente dentro da loja etc”, elenca Fiamma Zarife, diretora de serviços de valor adicionado e roaming da Claro. É preciso também convencer o consumidor: “o cliente não está acostumado a comprar um computador na loja de uma operadora móvel”, lembra Marquez, da TIM.

A indecisão das operadoras se reflete na configuração dos netbooks: o modem 3G é um opcional presente em poucos modelos, enquanto a recepção WiFi é item de série nos netbooks de todos os fabricantes. No portfólio da MSI, por exemplo, apenas dois dentre dez modelos vêm com modem 3G embutido. A questão é que a inclusão do modem 3G encarece o preço do netbook em cerca de R$ 300. Ao mesmo tempo, as operadoras estão com grandes estoques de modems USB, oferecidos a preços baixos, junto com a assinatura de planos de banda larga. Como se não bastasse, há a dúvida do próprio consumidor: nem todos estão decididos a assinar um plano de banda larga móvel no ato da compra de um netbook ou laptop.

Convergência

O segmento de netbooks, como o de smartphones, promete ser um campo de batalha entre fabricantes de informática e de telefonia móvel. Se, por um lado, empresas que produzem notebooks como Acer e Dell estão entrando no segmento de smartphones, por outro, LG e Nokia atacam no campo dos netbooks. A Nokia, hoje a maior fabricante de telefones móveis do mundo, apresentou em setembro seu primeiro netbook, batizado de Nokia Booklet 3G. Segundo alguns especialistas, sua decisão teria acontecido por demanda das operadoras móveis europeias. É difícil prever quem dominará o mercado de netbooks. Os fabricantes de informática saíram na frente, lançando os primeiros modelos. Mas empresas como Nokia e LG têm a seu favor marcas fortes e um bom relacionamento com as teles. “Os fabricantes de celular entendem a língua da operadora. A negociação é mais fácil com eles”, diz Fiamma, da Claro. O gerente de marketing da Asus, Marcel Campos, contrapõe: “Os fabricantes de celulares têm um contato mais próximo com os consumidores, no entanto, ainda têm um longo caminho a percorrer em termos de arquitetura e engenharia de produtos de informática”.

É possível que haja espaço para todos, desde que o produto seja devidamente posicionado em termos de preço e tenha suas características descritas corretamente, de maneira a não ser confundido com um notebook.

Smartbook, o irmão caçula dos netbooks

Apesar da evidente crise de identidade vivida pelos netbooks, há quem veja espaço para apostar em mais um sub-segmento de produto: os “smartbooks”. Eles são mais leves que os netbooks, pesando cerca de 600 gramas, e também mais baratos, na faixa de R$ 800. A tela continua sendo de 10 polegadas, mas o smartbook não tem HD e usa um sistema operacional proprietário do fabricante. A duração da bateria seria maior, podendo chegar a 72 horas de utilização. “É um cruzamento entre smartphone e netbook. Estamos desenvolvendo um modelo de smartbook”, conta Marcelo Martins, diretor comercial da MSI. A ideia é ser um produto ultra portátil, talvez um netbook aperfeiçoado para esse fim. O segredo do smartbook é o processador, igual ao do smartphone, o que permite, em tese, computadores com sistemas operacionais iguais ao do celular. Nem todo mundo acredita no sucesso desse novo produto. “Smartbook é um nome novo para uma coisa velha. É o ultra mobile PC. Isso existe desde 2006 e não deu certo porque não conseguiu se definir direito”, critica o gerente de marketing da Asus, Marcel Campos. Só o futuro dirá se há espaço para um irmão caçula do netbook.
Fernando Paiva
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