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  EDIÇÃO #128 - ANO 12 - DEZEMBRO/2009
ENTREVISTA
FTTH elétrico

A Copel, distribuidora de energia do estado do Paraná, tem há muito tempo uma relação estreita com o setor de telecomunicações. Ela é uma das controladoras da Sercomtel, tem uma rede de fibra óptica com 13 mil km de extensão e foi uma das pioneiras no Brasil em testes com a tecnologia de PowerLine Communications (PLC). Agora, a Copel quer aprofundar ainda mais a sua atuação em telecomunicações com a construção de uma rede de fibra óptica até a casa dos clientes (FTTH). O plano é ousado, já que até mesmo as concessionárias brasileiras de telefonia ainda estão engatinhando na adoção de FTTH. A ideia da Copel é criar uma rede aberta e neutra, a ser disponibilizada para quaisquer provedores de serviço que tenham interesse. Em 2010, a primeira rede será instalada em Curitiba. Nesta entrevista para TELETIME, o superintendente de telecomunicações da utility, Carlos Eduardo Moscalewsky, revela mais detalhes sobre o projeto. O executivo informa também quais são os primeiros passos da Copel rumo à smart grid e praticamente descarta o PLC como tecnologia para oferta de banda larga comercial.

Teletime - Há muitos anos se fala sobre a possibilidade de as distribuidoras de energia entrarem no mercado de telecomunicações com ofertas de serviços para o consumidor final. Por questões técnicas e regulatórias isso não aconteceu ainda. Qual é a sua avaliação do papel desempenhado pelas empresas de energia elétrica no setor de telecom brasileiro?

Carlos Eduardo Moscalewsky - Temos no Brasil um problema de modelo. Eu defendo a segregação entre a rede e o prestador do serviço para o cliente final. E entendo que as empresas de energia elétrica estão bem preparadas para assumir esse papel de fornecedor de infraestrutura. São empresas acostumadas a investir a longo prazo com taxas de retorno baixas. E, afinal de contas, distribuir rede é o serviço de uma distribuidora de energia. A segregação entre rede e serviço seria extremamente importante para o desenvolvimento das telecomunicações no Brasil. Seria uma rede de alta capacidade, IP, multisserviço, com fibra óptica até o cliente final, aberta a todos os provedores de serviço e neutra para qualquer tipo de serviço que possa trafegar nela.

Teletime - Já conversaram com outras distribuidoras de energia sobre essa ideia?

C.E.M. - Existe o interesse de qualquer companhia distribuidora de energia por um modelo desse tipo, porque elas já têm os direitos de passagem e as equipes que trabalham em suas redes. Seria um segundo serviço vendido para os mesmos clientes que elas já têm. E isso ajudaria a melhorar a própria distribuição de energia elétrica, pois estando conectada a rede seria mais eficiente. O que falta é um modelo de negócios para seguir. Quando em algum lugar – e espero que seja o Paraná – um modelo começar a funcionar em larga escala, ele será disseminado para outros estados.

Teletime - O senhor defende uma mudança regulatória que exija do lado das incumbents a segregação entre infraestrutura e serviços?

C.E.M. - Nos primeiros países que privatizaram suas redes de telecomunicações foi concluído que as coisas só funcionariam adequadamente e de forma mais isenta se a infraestrutura fosse separada do serviço de telecom. Contudo, não sou tão otimista para imaginar que exista espaço ou força dentro da Anatel para alterar o modelo dessa forma. O que propomos e pretendemos fazer é, dentro da licença de SCM e com parcerias com provedores que não têm rede, passar a oferecer uma alternativa em telecomunicações, o que trará concorrência e oportunidade de escolha para o cliente final. Esse caminho vai ao encontro do desejo dos usuários. Só espero que o órgão regulador não atrapalhe.

Teletime - Que tecnologia será usada nessa rede?

C.E.M. - A rede do futuro é com fibra óptica. E é assim que pretendemos fazer. Eventualmente poderíamos usar outras tecnologias em um determinado período para um atendimento mais rápido, desde que essas tecnologias sejam suficientemente robustas para fornecer um serviço estável. O modelo de rede aberta que eu prego é para uma rede de fibra óptica.

Teletime - Mas a última milha será com fibra também?

C.E.M. - Sim, eu falo de uma rede com fibra até o cliente final. Mas claro que se trata de um projeto de longo prazo. A rede é um monopólio natural. Ela tem um custo elevado e retorno a longo prazo. Ela precisa de múltiplos serviços para se pagar.

Teletime - Quando espera fechar uma primeira parceria nesse modelo de FTTH?

C.E.M. - Já em 2010. Estamos conversando com várias operadoras. Mas não quero fechar com uma operadora só. Quero fechar com tantas quantas queiram oferecer serviços de telecom para os clientes da nossa região.

Teletime - A Copel já definiu onde começará a construir uma rede FTTH ou isso vai depender da demanda das operadoras parceiras?

C.E.M. - A Copel tem hoje 13 mil km de fibra óptica instalados. Desse total, 4,5 mil km atendem a 215 cidades no Paraná, o que representa 90% da população do estado. Mas temos redes primárias também em um grande número de cidades. E chego com fibra ponto a ponto em alguns clientes corporativos. Pretendemos em 2010 construir uma rede GPON no centro de Curitiba, onde há um grande número de clientes corporativos, escritórios, hotéis, escolas. E depois estenderemos esse mesmo tipo de rede para outras cidades grandes do Paraná onde haja demanda, incluindo o mercado SoHo.

Teletime - Por que não fazer essa oferta ao consumidor final através de sua subsidiária Copel Telecom, em vez de alugar para terceiros prestarem o serviço?

C.E.M. - Nossa ideia é oferecer o serviço de Internet com a marca Copel Telecom e permitir que parceiros complementem com outros serviços, como telefonia fixa, TV etc. Entendemos a Internet como um meio através do qual outros serviços serão prestados. Há, na verdade, duas opções de modelos. Uma seria vendermos o serviço de rede separado para operadoras que precisem de infraestrutura de acesso e queiram atender seus clientes com a sua marca, da forma como acontece na Inglaterra. A segunda opção é criarmos uma plataforma de software sobre a rede que permita que diversos provedores ofereçam serviços através de um portal na Internet. O cliente final escolheria livremente o combo que desejaria montar. Isso já existe em algumas cidades da Suécia em cima de redes de fibra lançadas por empresas de distribuição de energia.

Teletime - Quando vocês devem começar a oferta SoHo?

C.E.M. - Assim que a rede GPON estiver instalada vamos começar. Isso acontecerá provavelmente na metade de 2010.

Teletime - Depois de Curitiba, para qual cidade expandirão a rede óptica?

C.E.M. - Vai depender da demanda dos parceiros. Maringá e Londrina são algumas possibilidades.

Teletime - A Copel é uma das principais acionistas da Sercomtel. No começo deste ano a Sercomtel obteve a licença de STFC da Anatel para operar em todo o estado do Paraná e para isso contava com a rede de fibra óptica da Copel. Em que estágio se encontra essa parceria hoje?

C.E.M. - A Sercomtel será certamente uma das parceiras da Copel para serviços de telecom. Estamos discutindo esse contrato. Mas é bom reforçar que Copel Telecomunicações e Sercomtel são empresas separadas. O meu modelo é de uma rede aberta e neutra. A Sercomtel pode fornecer serviços através da nossa rede, assim como qualquer outra empresa que queira atuar no Paraná.

Teletime - A Copel foi uma das pioneiras em testes com PLC no Brasil. Poderia descrever em que estágio estão esses testes e quais foram as conclusões da empresa?

C.E.M. - No nosso teste usamos PLC como tecnologia de última milha. Chegamos com fibra até a rede secundária, acoplamos o modem master e na casa do cliente botamos um CPE. Teoricamente você teria sinal em todas as tomadas naquele circuito elétrico. Temos um teste em Santo Antônio da Platina, que é uma cidade de médio porte no interior do Paraná. Notamos que, em primeiro lugar, é preciso investir na rede externa para corrigir certos problemas para que o sinal chegue até o medidor com qualidade. Isso não é complicado e tem um efeito benéfico para a própria rede e para o serviço de distribuição de energia. Temos conseguido chegar ao medidor com velocidades de 5 a 20 Mbps, dependendo da distância do modem. Em cerca de 35% dos casos no universo testado o sinal chegou com boa qualidade, após pequenas correções na rede. O problema é a instalação elétrica interna das residências, que é feita pelo próprio cliente e muitas vezes não segue as normas previstas. É uma confusão danada. É difícil às vezes saber o que está interferindo ou bloqueando o sinal. Esse é um grande problema que não sabemos exatamente como resolver, pelo menos com os equipamentos que utilizamos nesses testes. Em alguns lugares funciona, em outros não. Se for para mexer muito na instalação elétrica da residência desaparece o benefício principal do PLC, que era usar a instalação existente. Temos dez circuitos secundários ligados com PLC em Santo Antônio da Platina. Dos 470 clientes potenciais, 90 estão usando PLC e encontram-se satisfeitos com o serviço. Nos outros enfrentamos dificuldades para a instalação. Então resolvemos parar um pouco e desenvolver soluções em laboratório para contornar os problemas que identificamos. Não está sendo fácil. Estamos buscando outros fornecedores para fazer testes. O fato é que o serviço não se mostrou suficientemente estável para ser fornecido comercialmente para o consumidor final.

Teletime - E há também a barreira regulatória...

C.E.M. - A regulação exige que a empresa de energia faça uma licitação (para que terceiros explorem sua rede na oferta de banda larga via PLC). Isso é de um desconhecimento total da tecnologia! Não se trata de pendurar alguma coisa no poste. Trata-se de meter a mão na rede elétrica ligada! Nenhuma empresa responsável de distribuição de energia fará essa licitação porque vai esculhambar com a sua rede! A única possibilidade para que essa tecnologia viesse a funcionar seria se a empresa de distribuição de energia pudesse vender o serviço através de uma companhia coligada, que estivesse acostumada a trabalhar no ambiente de energia. Da forma como está a regulamentação, as elétricas não têm nenhum interesse e nenhum incentivo para oferta de PLC, muito pelo contrário. Acho isso um limitador mortal para o desenvolvimento de PLC no Brasil.

Teletime - Está portanto descartada a hipótese de a Copel realizar essa licitação para exploração de sua rede via PLC?

C.E.M. - Não respondo por isso, mas não imagino que a Copel Distribuição tenha algum interesse em fazer uma licitação de serviços de PLC. Sabe lá quem iria fornecer esse serviço e em que condições iria trabalhar na rede? Não acredito que, nessas condições, o PLC venha a vingar no Brasil.

Teletime - A limitação de potência para o PLC determinada pela regulamentação tornará necessária a instalação de muitos repetidores. Há quem diga até que faltariam postes para tantos repetidores. O que o senhor acha disso?

C.E.M. - De fato temos usado mais repetidores do que imaginávamos em nossos testes. E se a instalação se tornar muito cara o PLC não faz sentido. Só funciona se for barato, fácil de operar e atenda as demandas de inclusão digital para o pessoal de menor poder aquisitivo.

Teletime - A Copel usa PLC para telemetria?

C.E.M. - Esse é o lado positivo da nossa experiência em Santo Antônio da Platina. Como foi simples ajustar a rede elétrica externa para chegar com 5 Mbps até o medidor, o PLC não teria dificuldade de funcionar para telemetria. Seria uma tecnologia possível de se utilizar para o smart grid.

Teletime - Em que estágio se encontra a Copel hoje na evolução para smart grid?

C.E.M. - Smart grid é a palavra da moda na energia elétrica. Fala-se muito dos seus benefícios, mas pouco se discute qual seria a solução de telecomunicações a ser utilizada. PLC pode ser uma das tecnologias a atender essa conectividade, desde que seja barato. A fibra óptica é outra alternativa, principalmente se você agregar a venda de serviços de telecom. Outra opção seria o GPRS: mas a que preço? Você vai medir uma vez por mês, por semana ou a cada 15 minutos? O preço aumenta quanto mais vezes você utiliza. Como o medidor eletrônico estará online, com medição o tempo inteiro, não sei se vale a pena conectar via GPRS. E quanto essa rede celular suporta? O espectro é limitado. Na Copel, vamos ligar nossos clientes de alta tensão com medidores eletrônicos através de fibra óptica. Os primeiros mil clientes de alta tensão serão ligados no ano que vem.

Teletime - Que funcionalidades esse medidor eletrônico terá?

C.E.M. - A questão não é quais funções o medidor terá, mas quais funções serão permitidas que o medidor faça. Poderemos criar, por exemplo, novas formas de tarifar energia, em horários diferentes, fora da ponta, mais baratos. Há quem diga que no futuro haverá geração distribuída: o cliente poderá fornecer energia pra o sistema. Não sei se o medidor fará isso tudo de início. Mas trará grande vantagem no que diz respeito à redução de perda de energia, combate à fraude etc.

Teletime - De quanto será o investimento da Copel em telecom em 2010?

C.E.M. - Foram R$ 50 milhões em 2009 e serão R$ 60 milhões em 2010.

Teletime - E qual será o destino desse investimento?

C.E.M. - A expansão do backbone de fibra para outras cidades consumirá boa parte desse investimento. Redes de acesso para atendimento dos clientes corporativos também consumirão um volume elevado. Além disso, substituiremos os roteadores IP e MPLS. E vamos fazer upgrade dos switches: são de 1 Gbps e passarão para 10 Gbps. E no anel central da rede, que tem 10 Gbps, e que já está quase todo ocupado, faremos uma licitação para adotar um sistema DWDM para expandir essa capacidade. Com DWDM dá para ter 40 canais de 10 Gbps. Inicialmente iremos equipar oito. Ou seja, aumentaremos a capacidade para 80 Gbps.

Teletime - Com a expansão, quantas cidades estarão conectadas ao backbone da Copel no fim de 2010?

C.E.M. - Serão 240 cidades. É um número aproximado. Porque às vezes aproveitamos a passagem da fibra e conectamos alguma outra cidade próxima em razão de demanda.

Teletime - Como você espera que seja a atuação da Copel em telecomunicações daqui a cinco anos?

C.E.M. - Daqui a cinco anos a ficha terá caído e o pessoal vai descobrir que a rede da Copel será a rede do Paraná. Não fará sentido para um prestador de serviços construir uma rede própria. Esperamos que o nosso modelo cresça, que tenhamos essa rede no maior número de locais possível. Com certeza não teremos universalizado o acesso no Paraná. Para isso são necessários de 15 a 20 anos. Mas já teremos fechado parcerias e demonstrado a viabilidade do modelo.
Fernando Paiva
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