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O tabuleiro está montado
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A determinação com que a Telefónica tenta comprar o controle integral da operadora brasileira Vivo diz muito sobre o novo tempo do mercado de telecomunicações em todo o mundo. Para entender esse intrincado jogo de interesses, que envolve até os governos de Brasil e Portugal, é preciso ter em mente que o mercado de telecom passou por profundas mudanças desde a privatização. O sucesso das teles depende da habilidade com que elas desenhem pacotes combinados de serviço, com telefonia fixa móvel e TV por assinatura, mas também é importante observar o papel que o Brasil e seu crescente peso econômico tem nas estratégias dos conglomerados mundiais de telecomunicações.
Uma das características do mercado nos últimos dez anos foi um movimento lento, mas constante, de transferência de tráfego da rede fixa para a rede móvel (ver gráfico). Consumidores brasileiros utilizam cada vez menos o telefone fixo, que embora tenha tido avanços no modelo de cobrança, ainda carrega a pecha da onerosidade da assinatura básica. Outra mudança grande foi a importância dos pacotes combinados como fator de fidelização dos clientes, o que deu origem ao mantra que não sai da boca dos executivos do setor: o triple play. Soma-se a isso a geopolítica da América Latina, em que espanhóis e mexicanos brigam palmo a palmo pela dominância do mercado.
A Telefônica está longe de estar em uma posição confortável no País. A companhia sofre uma dura competição da Net Serviços (controlada pela Embratel/Telmex) – que, com seu pacote triple play vem conquistando clientes fixos em telefonia, banda larga e TV por assinatura. E com a consolidação da Embratel com a Claro, é possível que logo esse competidor agressivo adicione a mobilidade como mais um elemento dos seus pacotes combinados.
O mexicano Carlos Slim começou a simplificar a estrutura acionária das suas empresas no México e pretende fechar o capital da holding Carso e da Telmex Internacional - que controla a Embratel no Brasil. Telmex (a única empresa do grupo que permaneceria com capital fechado) e Telmex Internacional serão controladas pela America Móvil, atual controladora da Claro. Mais cedo ou mais tarde, essa simplificação societária chega ao Brasil, e aí Carlos Slim poderá integrar em uma mesma empresa Claro, Embratel e Net. A reestruturação no México é tida como uma espécie de preparação para a integração das operações fixas e móveis em outros países. “Não há nenhum grande empecilho para juntar (Claro e Embratel). Eu tenho para mim que a unificação lá fora cria uma tendência de consolidação no Brasil”, afirma Eduardo Roche, analista de telecom do Banco Modal. No caso da Net, a consolidação ainda passa pela aprovação do PLC 116/2010 no Senado. Trata-se do antigo PL 29, que cria novas regras no mercado de TV por assinatura e acaba com o limite de capital estrangeiro no setor de cabo.
Hoje a Net é formalmente controlada pela Globo Participações, já que de acordo com a Lei do Cabo uma empresa de TV a cabo não pode ser controlada por estrangeiros. E há um acordo entre os sócios no sentido de que assim que a legislação permitir, a Globo passará o controle da Net para a Embratel.
Além de todos esses fatores nunca é demais lembrar que o Brasil tem sido um grande contribuinte para a receita da Telefónica no mundo, e o mercado de telefonia móvel não dá sinais de desaquecimento, embora já tenha chegado a mais de 185 milhões de acessos. Na estratégia da Telefónica, o Brasil é prioridade. De acordo com Julio Pushel, analista de telecom da Informa Telecom & Media, dos sete maiores mercados da Telefónica, o Brasil é o único onde a empresa não tem uma operação móvel. “Apesar do fixo ter muito tempo de existência, a mobilidade é o futuro das telecomunicações”, diz ele. Não custa lembrar que a Telefónica está mudando seu nome fantasia para Movistar – o nome da operação móvel – em todo o mundo, exceto no Brasil, onde até agora a operadora não controla integralmente uma operação móvel.
Telmex se destaca
Júlio Pushel explica que a Telmex tem crescido na América Latina comprando operadoras de cabo, assim como fez no Brasil com a Net. Os concorrentes tiveram que reagir. A Telefônica comprou a TVA e lançou seu serviço de TV por assinatura por DTH (este sim, liberado para empresas estrangeiras), enquanto a Oi comprou a operadora mineira de cabo Way TV e também tem uma oferta de TV por DTH. “A empresa que conseguir juntar melhor esses quatro serviços é a que tem mais chance de crescimento”, diz o analista João Paulo Bruder, da IDC.
Em linhas gerais esse é o pano de fundo que move o gigante grupo espanhol a uma investida mais agressiva pela Vivo. Até então, inúmeros boatos já surgiram sobre a vontade de ficar com o controle total da operadora brasileira, mas uma oferta concreta só apareceu recentemente – coincidentemente depois que Carlos Slim iniciou seu processo de consolidação. Ainda assim, o caminho da Telefônica está sendo tortuoso, como mostraram os vários enfrentamentos públicos entre os executivos da PT e da tele espanhola, culminando com o veto do governo português ao negócio a despeito da vontade dos acionistas. Para piorar, quando parecia que as duas partes haviam retomado a conversa, a Telefônica suspendeu a oferta, cumprindo um deadline que foi anunciado no calor da discussão.
A percepção dos analistas brasileiros sobre o assunto é que, apesar de todos os percalços, a Telefónica conseguirá comprar a Vivo. A questão é o timing. Para Jacqueline Lison, analista da Fator Corretora, os caminhos mais rápidos são a impugnação do veto do governo português e a obtenção de pareceres favoráveis à venda pela PT. O caminho mais longo seria a resolução do conflito na Justiça. A Vivo é controlada pela holding Brasilcel, sediada na Holanda. Chegaram a circular até mesmo boatos na imprensa europeia de que a Telefónica poderia pedir as dissolução da Brasilcel na Justiça holandesa ou recorrer a arbitragem no mesmo país.
“Hoje não existe mais empresa pura de telefonia fixa, móvel ou banda larga. São grandes conglomerados de comunicação. Esse grupo (que controla a Vivo) não tem os interesses alinhados há muito tempo. O ideal para o grupo é ter um único controlador”, observa Jacqueline Lison. A Telefónica estima que as sinergias obtidas com o controle integral da Vivo seriam da ordem de 2,8 bilhões de euros ao ano. Entretanto, a analista acrescenta que o negócio seria bom também para a Vivo, que hoje está fora do mercado de telefonia fixa, explorado pela TIM com o TIM Fixo, e de longa distância, também explorado pela TIM depois da compra da Intelig.
E a Portugal Telecom?
Se a presença no Brasil é importante para a Telefónica também o é para a PT.
Circularam boatos de que o grupo português estaria negociando uma participação na Oi, nunca confirmados pelas companhias, como alternativa para a PT permanecer no País. Os analistas no Brasil dividem-se em relação à chance de sucesso deste negócio. Para uns, embora este acordo faça sentido para a PT, o discurso nacionalista que apoiou a criação da nova Oi (com a compra da Brasil Telecom) e uma eventual dificuldade de acomodar o novo sócio no bloco de controle torna a operação improvável de ser executada. Para outros, entretanto, todas as dificuldades podem ser superadas se os governos do Brasil e de Portugal chegarem a um acordo. “Vai depender muito do acordo político. Há diversos argumentos para trazer a PT para dentro. Depende dos interesses de Andrade Gutierrez, La Fonte e do governo”, diz um analista que prefere não se identificar. O analista explica que como 52% das ações ordinárias da Telemar pertencem aos controladores, a PT não pode fazer parte do controle comprando ações no mercado nem as ações do governo. Por isso, o analista entende que qualquer negociação entre as duas empresas necessariamente deve passar pela aprovação do presidente Lula. “Se o presidente da República deu apoio para fazer a fusão, qualquer outro movimento societário tem que passar por ele”, diz o analista. “É algo que envolve duas soberanias. Se os governos português e brasileiro quiserem fechar essa operação amanhã, eles fecham. Depende do preço e da estrutura da operação”, diz.
Já o analista Eduardo Roche, do Banco Modal, tem uma opinião mais cética em relação ao sucesso de alguma negociação entre Oi e PT. “Teoricamente faz sentido, na medida em que a PT precisa ter uma operação no Brasil. Eles conhecem o mercado, têm a mesma língua etc, mas até que ponto os controladores já amortizaram seus investimentos? Acho que a conta não fecha. Não há ambição da PT em ser mero acionista fora do grupo de controle”, analista ele.
Outro observador que vê como improvável a entrada da PT na Oi é João Paulo Bruder, analista de telecom da IDC. “A Oi é uma empresa de capital nacional e foi criada com esse forte discurso nacionalista. Eles não iam fazer todo esse esforço para depois vender uma participação para um grupo estrangeiro”, diz ele. “Acho mais fácil os portugueses tentarem comprar uma participação na TIM”, completa, adicionando outra variável à equação.
Reforçando essa linha há um fato no mínimo intrigante. A Ongoing uma das controladoras da PT que investe no Brasil na área de mídia escolheu como seu CEO no Brasil um importante executivo da Telecom Italia, Carmelo Furci, que conhece profudamente a TIM há mais de dez anos e ocupava até pouco tempo atrás a presidência da Telecom Italia Latin America.
A TIM é uma parte importante do jogo, pois é uma grande operadora de celular que está isolada entre Telefónica, Telmex e Oi. Além disso, é uma operação cuja controladora, Telecom Italia, precisa mais de recursos para resolver sua dívida do que de uma presença estratégica no Brasil. Já a Portugal Telecom precisa e quer manter um pé no País. Caso venda sua parte na Vivo pelos 7,15 bilhões de euros proposto pela Telefónica, teria condições de adquirir o controle da TIM. Mas continuaria o problema do isolamento da TIM, que não tem operação fixa significativa. Uma aproximação da Oi seria natural, em uma operação em que Oi se fundiria com a TIM e a Portugal Telecom se tornaria sócia minoritária, mas com presença importante, da Oi. E eventualmente a própria Oi poderia ter uma presença minoritária da Portugal Telecom. Essa é uma hipótese considerada pelo próprio governo, dentro da visão estratégica de que o Brasil precisa ter três operadoras grandes, sendo uma nacional.
Competição
A mudança do controle da Vivo não deve gerar alteração substancial em termos de competição no Brasil, já que não significa a entrada de um novo competidor em nenhum mercado específico, mas sim o fortalecimento de dois deles. Embora a Vivo seja a líder no setor e venha sucessivamente apresentando bom resultado financeiro, o desempenho da TIM no último ano tem chamado a atenção de analistas. Depois de passar por momentos de dificuldade – em que perdeu a segunda colocação em market share para a Claro, por exemplo – a companhia passou por um “relançamento” que a colocou de volta nos trilhos.
O “renascimento” da TIM chamou a atenção do Bernstein Research. Para a consultoria, embora a receita de todas as operadora móveis do Brasil deva continuar crescendo este ano, a TIM e, em menor medida a Vivo, devem ter uma performance superior à do mercado em 2010 em termos de receita e lucratividade. “Acreditamos que a TIM Brasil crescerá pelo resultado do seu plano único de chamadas nacionais, enquanto a Vivo deve obter participação relevante nos consumidores de dados de alto valor”, diz a consultoria em relatório.
No caso da Vivo, a consultoria reconhece que a operadora “premium” do País fez um bom trabalho na rede, mas ainda não chegou a preços que se igualem às competitivas ofertas dos concorrentes. A consultoria destaca o plano da TIM de oferecer chamadas de longa distância (de TIM para TIM) a preço de ligação local. Para o Bernstein Research, as outras operadoras móveis, que são controladas ou coligadas a empresas de telefonia fixa, não podem fazer esse tipo de oferta sob pena de canibalizar o negócio dos seus donos. “Com a expansão da rede 3G este ano e o foco na transmissão de dados pelo handset, esperamos que a TIM recupere sua posição no mercado nos próximo dois anos”, diz o relatório.
Analistas no Brasil concordam que a operadora vem fazendo um bom trabalho ao explorar a demanda reprimida por voz. O analista que prefere se manter anônimo, ressalta, entretanto, que outras operadoras podem fazer o mesmo, mas não o fizeram porque pode não ser o foco da companhia ou pelo risco de ter que sustentar a oferta no futuro. “Você pode acostumar o cliente e depois pode ficar difícil de mudar”, explica. “Cada operadora dá para o cliente aquilo que julga ser melhor para ele. A Vivo oferece qualidade de rede, a Claro dá aparelho (embora dê menos hoje que no passado) e a Oi da alternativas para o cliente gastar o dinheiro. A TIM está capitalizando a migração fixo-móvel”, explica o analista. O analista Eduardo Roche, do Banco Modal, por outro lado, discorda da análise do Bernstein Research. “A Vivo está acima das suas concorrentes. É difícil falar que a TIM vai superar a Vivo, embora a expectativa seja que a TIM se fortaleça em 2010 e 2011”, afirma.
Futuro
Para o futuro, o cenário competitivo ainda será impactado por pelo menos três “novidades”: o leilão da banda H da terceira geração, a regulamentação das MVNOs (operadoras virtuais) e a redução da VU-M – a interconexão paga para terminar ligações na rede móvel. O grande candidato é a Nextel, que disputou a primeira licitação e não esconde que irá participar dessa vez. E embora a GVT tenha declarado que não irá participar da disputa pela banda H, alguns analistas apostam que a declaração pode ser um blefe da companhia. “A Vivendi comprou uma mega empresa de conectividade terrestre e depois vai estruturar operação móvel com MVNO? Eu não me assustaria se eles disputassem a banda H”, diz Bruder, da IDC.
Também se especula no mercado a possibilidade de uma jogada combinada entre as duas. Ou seja, poderia haver um acordo para que uma delas comprasse a licença e depois seja adquirida pela outra. “Eu, se fosse uma operadora móvel, faria de tudo para me qualificar considerando a participação das duas. Se apenas uma entrar, não descarto a possibilidade de ser laranja da outra”, afirma o analista que prefere não se identificar. A licitação da banda H está prevista para meados do segundo semestre. Vale lembrar que no México a NII Holding vendeu uma participação de 30% da Nextel México para a Televisa, gigante de mídia e controladora da Sky naquele país, por US$ 1,44 bilhão em dinheiro. A participação pode aumentar para 37,5% caso seja exercida uma opção de compra condicionada à aquisição de novas licenças para banda larga móvel. Portanto, não seria nenhuma novidade se alguma nova reorganização societária acontecesse também no Brasil e também um alinhamento com um operador fixo.
A redução da VU-M, que deve acontecer a partir do ano que vem, e a chegada das MVNOs prometem apimentar ainda mais a competição no País. A primeira porque deve diminuir a receita que as operadoras móveis têm hoje. A segunda porque ainda não é claro como as operadoras virtuais poderão não canibalizar a receita das operadoras reais. Ao que tudo indica, os próximos lances serão conhecidos ainda este ano.
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| Helton Posseti |
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