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  EDIÇÃO #153 - ANO 15 - ABRIL/2012
SERVIÇOS MÓVEIS
M-payment à brasileira

Chegou a hora de adicionar um tempero brasileiro à breve história mundial dos serviços de pagamento móveis. Depois do sucesso de iniciativas em países com realidades sociais e econômicas tão diferentes quanto o Japão e o Quênia, pequenos empreendedores e grandes operadoras celulares brasileiros estão driblando dificuldades técnicas e regulatórias locais para construir um cenário de m-payment nacional. Por aqui, garantem especialistas, há espaço para se desenvolver tanto serviços típicos de países desenvolvidos, como o pagamento via NFC (Near Field Communications, ou comunicação por proximidade), que requer smartphones, até aqueles de transferência financeira via SMS, acessíveis de qualquer celular e que tanto sucesso fazem na África. O Brasil está construindo, portanto, um modelo de m-payment híbrido entre as experiências bem sucedidas internacionais.

O Brasil tem características muito diferentes daquelas de outros mercados onde soluções de m-payment fizeram sucesso. Se, por um lado, é verdade que aqui 40% da população economicamente ativa não têm conta bancária e que a penetração de telefonia celular ultrapassa 100%, por outro, o País tem um setor financeiro reputado como dos mais avançados do mundo em termos de tecnologia da informação, e uma extensa rede de correspondentes bancários, que alcança até os rincões mais distantes. Ao mesmo tempo, uma pujante classe C cresce em quantidade e em poder de compra ano após ano, tornando-se cada vez mais sofisticada em seu consumo, o que inclui a modernização de seus celulares e o acesso a serviços financeiros.

É neste ambiente que duas pequenas empresas de São Paulo, a GoPay e a 2Pay, criaram este ano, quase que simultaneamente, soluções próprias para transformar smartphones em máquinas para leitura de cartões de crédito (POS). Ambas se inspiram em iniciativas internacionais como o Square e o PayPal Here, mas tiveram que fazer adaptações técnicas para atender ao mercado brasileiro. Nos EUA, onde a maioria dos cartões de crédito não possui chip, o acessório distribuído por Square e PayPal Here se acopla à entrada de fone de ouvido do iPhone e é capaz de ler apenas cartões com tarja magnética. No Brasil, mais de 95% dos cartões de crédito possuem chip e a entrada de fone de ouvido não conseguiria transportar os dados para a sua leitura. Por isso, GoPay e 2Pay estão trabalhando com acessórios que se acoplam à entrada de dados do iPhone. Para o consumidor final, basta embutir o cartão no acessório, verificar o valor da compra digitado pelo lojista e então assinar a confirmação com o próprio dedo, na tela do aparelho.

A proposta de ambas é a mesma: atrair pequenos comerciantes e profissionais liberais que hoje não vendem com cartão de crédito porque consideram caras as taxas de aluguel de máquinas de POS cobradas por redes de adquirência como Cielo e Redecard. A GoPay foi a primeira a entrar em operação, cobrando uma taxa de R$ 0,69 por transação, além de 3,99% sobre o valor da venda. Mesmo sem grande divulgação, após lançarem seus respectivos websites para pré-cadastro de parceiros interessados, GoPay e 2Pay somaram em poucas semanas mais de mil comerciantes requisitando seus leitores de cartão. A meta da GoPay é alcançar 30 mil ao fim do ano.

Com o desenvolvimento de uma solução local, essas duas pequenas empresas saem na frente das gigantes internacionais, que ainda não têm previsão de entrada no País. “O mercado brasileiro é muito latente e flutua demais. Acho que vai demorar para Square e iZettle (similar europeu) virem para cá. Quando eles chegarem queremos ter corpo para bater de frente”, diz Marcos Schulz, um dos sócio-fundadores da GoPay. Por via das dúvidas, GoPay e 2Pay sabem que a briga não será fácil e já se preparam para o confronto: ambas estão negociando com diversos investidores, nacionais e estrangeiros, na busca por capital e alianças estratégicas que garantam o seu futuro em um mercado que promete ser cada vez mais competitivo.

No âmbito das redes de adquirência, outra experiência com desenvolvimento nacional é a Paggo. Criada originalmente como uma bandeira de cartão de crédito via celular, a empresa se repaginou nos últimos anos, transformando-se em uma rede de adquirência móvel. Sua solução usa a rede de sinalização das operadoras celulares para o tráfego de dados das transações financeiras, incluindo as senhas dos cartões digitadas pelos consumidores, como se fossem mensagens de texto. “Isso não ocupa a rede de voz e nem de dados das teles. Ou seja: pode-se fazer uma compra com a Paggo durante uma ligação de telemarketing, ou enquanto se navega em um site de e-commerce pelo celular”, explica Massayuki Fujimoto, executivo com larga experiência em serviços financeiros móveis contratado para ser CEO da Paggo nessa nova fase da companhia, cujo controle agora é dividido entre Oi e Cielo.

Um diferencial importante da solução da Paggo para aquelas propostas por GoPay e 2Pay é justamente a sua capacidade de ser usada por qualquer telefone celular e não apenas smartphones. A Paggo está negociando com empresas de venda porta-a-porta para que as vendedoras transformem seus celulares em máquinas de POS. Em vez de acoplarem um leitor portátil de cartão, basta trocar o SIMcard por um da Oi adequado à plataforma da Paggo. “O mercado de porta-a-porta é maior que o de e-commerce no Brasil, movimentando R$ 30 bilhões por ano, sendo quase tudo pago com cheque ou dinheiro”, estima Fujimoto.

Paralelamente, as máquinas da Cielo foram atualizadas para aceitar pagamentos via celular de cartões de crédito compatíveis com a plataforma da Paggo. O primeiro foi um cartão co-branded da Oi e do Banco do Brasil. A expectativa é de que o Banco do Brasil estenda a funcionalidade para todos os demais cartões Ourocard. E um outro banco já assinou contrato com a Paggo, mas o nome ainda é mantido em segredo.

Sobre a concorrência com soluções inovadoras nacionais, como GoPay e 2Pay, Fujimoto considera que há espaço para todo mundo, pois o potencial do mercado brasileiro é enorme. Claudio Dias, outro sócio-fundador da GoPay, aponta um diferencial dos pequenos: “A máquina de POS dá muita receita para a Cielo e a Redecard. A plataforma da Paggo não elimina a máquina. A gente propõe outro mundo: tirar a máquina e botar o telefone”.

Dentro da estratégia da Paggo, está prevista a atração de outras operadoras móveis como sócias, em participações iguais àquela da Oi. O Brasil não seria o primeiro caso do gênero no mundo: nos EUA, as três grandes operadoras celulares fundaram a joint-venture Isis, para a oferta de serviços financeiros via NFC. As negociações por aqui, contudo, são demoradas. “Conversei com algumas teles, mas elas preferem primeiro viver suas próprias experiências. Acho importante para que depois percebam o valor da solução da Paggo, que passa por ajustes finos há seis anos”, avalia Fujimoto.

Teles

As operadoras brasileiras enxergam os serviços financeiros móveis como uma nova e promissora fonte de receita. A prova disso é a criação, de um ano para cá, de diretorias específicas para tratar do tema dentro das teles. “A primeira onda de receita em telefonia celular foi a voz. A segunda foi composta por serviços de valor adicionado (SVAs) e dados. A terceira onda será a de serviços financeiros”, afirma Carlos Roseiro, executivo à frente da diretoria de m-finance da TIM desde dezembro.

Cautelosas, as teles estão começando sua incursão nesse mundo pela oferta de serviços financeiros não necessariamente “móveis”. É o caso, por exemplo, da criação de cartões de crédito co-branded entre bancos e operadoras, como fizeram recentemente Vivo, TIM e Oi (esta última, cabe ressaltar, é uma exceção, por ser a única cujo cartão aceita pagamentos via celular). Na prática, tais cartões funcionam mais como uma ferramenta de fidelização. Outro passo dado por Vivo e TIM foi o lançamento de seguros contra roubo e furto qualificado de smartphones e tablets, em parceria com seguradoras. A TIM prepara como próxima etapa a oferta de microsseguros que poderão ser contratados via SMS. O primeiro será um auxílio funeral em caso de morte por acidentes pessoais.

A grande guinada virá quando forem lançados serviços de transferência financeira entre usuários através de mensagens de texto, inspirados na experiência africana. Oi e TIM falam publicamente sobre esse projeto, que deve nascer até o final do ano. Para atender à regulamentação financeira brasileira, o serviço funcionará como um cartão de débito pré-pago e precisará ter um banco como parceiro, para ser o custodiante do dinheiro. Roseiro, da TIM, garante que a rixa que existia entre os setores bancário e de telecomunicações é “página virada”. O produto da Oi será lançado em parceria com o Banco do Brasil, enquanto a TIM ainda não escolheu seu banco parceiro para o projeto. “Quanto mais serviços de alto valor as teles oferecerem, menor será o churn. As pessoas trocam muito mais de celular do que de conta corrente. No pré-pago a barreira de saída é muito baixa, ainda mais com a portabilidade”, avalia Gabriel Ferreira, diretor de serviços financeiros da Oi.

Existe a expectativa de que tais serviços de transferências financeiras peer-to-peer (P2P) sejam interoperáveis no futuro. Ou seja, o assinante de uma operadora poderá remeter dinheiro para alguém de outra tele, por SMS. Como haverá bancos nas duas pontas, o dinheiro circulará pelo sistema financeiro como se fosse um TED. Se o beneficiado não usar o serviço, receberá uma mensagem informando que aquele valor está disponível em seu nome e pode ser retirado em qualquer agência ou correspondente bancário do banco parceiro da operadora do remetente. Mas isso requer ajustes na regulamentação do sistema financeiro brasileiro, o que já está sendo feito em parceira entre Ministério das Comunicações e Banco Central.

Outro ativo que as operadoras móveis têm em mãos e que pode ser usado para pagamentos são as suas plataformas de billing, capazes de cobrar dezenas de milhões de assinantes tanto de forma pré quanto pós-paga. Alguns integradores de SMS perceberam isso e criaram soluções de m-payment em que usam o chamado “SMS premium” como moeda para a venda de bens virtuais na Internet. Por exemplo: em vez de digitar seu número de cartão de crédito em um game na web para comprar um fertilizante especial ou uma espada mágica, o jogador informa seu número de celular e adquire créditos para a compra desses itens virtuais através de um “SMS premium”, sendo debitado em sua conta telefônica ou diretamente de seu crédito pré-pago. As operadoras, contudo, não se entusiasmam muito, pois receiam ter que dividir uma receita que poderia ser toda delas, com o uso de minutos de voz ou de tráfego de dados. Por isso, seguem exigindo uma participação alta na divisão da receita do SMS premium para venda de bens virtuais, o que dificulta a expansão desse modelo para o mundo físico. “Para bens reais, vendidos por empresas com custo de estoque e de distribuição, fica pesado compartilhar a receita nas proporções praticadas atualmente”, comenta Daniel Kaestli, CCO da Pure Bros, integrador brasileiro que tem o m-payment como uma de suas prioridades este ano, ao lado de mobile marketing.

NFC

Para as camadas sociais mais altas, o sonho é a chegada de serviços financeiros usando NFC com aplicativos móveis de carteira eletrônica (ou m-wallet) atrelados a seus cartões de crédito e de débito, que permitirão o pagamento simplesmente pela aproximação do celular à máquina de POS. É isso que faz sucesso no Japão e começa a deslanchar nos EUA e na Europa. No Brasil, a expectativa é de que o movimento seja liderado pelos bancos, com a emissão de cartões de crédito de plástico capazes de se comunicar via NFC ou qualquer outro protocolo de transmissão de dados por aproximação (como o Mifare, da NXP). Os primeiros cartões com essa tecnologia são esperados para este ano. Paralelamente, as redes de adquirência precisarão trocar suas máquinas de POS por modelos capazes de ler esse protocolo de comunicação por aproximação. Fontes do mercado informam que 40 mil máquinas da Cielo em São Paulo já teriam sido trocadas por modelos habilitados para NFC, enquanto na Redecard o processo ainda não teria sido iniciado.

Quando houver uma quantidade razoável de pontos de venda aceitando esse tipo de transação e as pessoas se acostumarem a simplesmente encostar seus cartões nas máquinas para efetuar uma compra, aí sim chegará a vez de lançar a versão no celular. Para tanto, será preciso que as teles tenham em seu portfólio modelos de aparelhos com NFC (quase todos os fabricantes já oferecem). Uma alternativa para a popularização da tecnologia pode ser uma solução desenvolvida pela brasileira MobilePeople, que agrega uma pequena antena NFC ao SIMcard, o que, na prática, transformaria qualquer telefone em um terminal apto a usar NFC.

Cabe lembrar que para serviços de pagamento as teles precisarão distribuir SIMcards especiais, que incluam o chamado “elemento seguro”, um componente que segue padrões internacionais aceitos por bancos e operadoras para garantir a segurança das transações. Será preciso também contratar TSMs (Trusted Service Managers), figura que goza da confiança de bancos e teles para instalar remotamente, via OTA (over the air), a aplicação de pagamento do banco no SIMcard. Fabricantes de SIMcards, como Gemalto e GD Burti, oferecem essa serviço de TSM. A Gemalto, por exemplo, foi a contratada pela norte-americana Isis para cumprir este papel. É sabido que o Bradesco está conduzindo um processo de contratação de um TSM. E, segundo fontes do mercado, uma nova operadora móvel virtual (MVNO) que atuará no Brasil teria encomendado SIMcards com elemento seguro.

Para o consumidor de alta renda, não é necessário esperar pelo NFC para vivenciar a experiência de um serviço de m-wallet. O PayPal tem um aplicativo móvel para iOS e Android que opera como uma carteira eletrônica e permite o cadastramento de diferentes cartões de crédito, tanto para pagamento quanto para recebimento de valores via e-mail. Por não ter um banco como parceiro, o PayPal não pode permitir a realização de transferências de valores diretamente entre as contas de usuários. Porém, na prática, é possível fazer o pagamento para outra pessoa através do cartão de crédito cadastrado no sistema. O PayPal tem 106 milhões de usuários ativos (que realizaram ao menos uma transação nos últimos 12 meses) no mundo, sendo 3 milhões no Brasil, onde o serviço conta com 3 mil estabelecimentos comerciais cadastrados. Em breve, o PayPal lançará com a Vivo um serviço de pagamentos via SMS.

Outra iniciativa de m-wallet, esta desenvolvida nacionalmente, parte da GoPay, e deve ser lançada em maio. Será um aplicativo para iOS no qual o usuário poderá cadastrar seus cartões de crédito para efetivar compras em estabelecimentos cadastrados, após realizar um “check in”. O comprovante virá por SMS ou email. “Para as gerações mais novas é mais prático pagar com o celular do que levar cartões na carteira”, comenta Dias, da GoPay. A empresa também pretende incorporar NFC em seu app no futuro.
   A transformação do celular em uma carteira eletrônica, substituindo dinheiro, cheque e cartões de crédito, é um caminho sem volta, mas cujo traçado vai variar de país para país, levando em conta as leis e as condições sócio-econômicas de cada um. No Brasil, o cenário parece atraente tanto para inovações locais quanto para a chegada de gigantes internacionais. A mistura promete ser saborosa... e lucrativa.

Quando o comércio eletrônico vira móvel

Enquanto bancos, operadoras de telefonia, fabricantes de handsets e redes de adquirência se aventuram com o lançamento dos primeiros serviços de pagamento móvel no Brasil, o consumidor brasileiro dá sinais de que já entende e demanda tais ferramentas. Isso pode ser notado quando avaliados números de empresas de comércio online, que vêm registrando uma participação cada vez maior do tráfego oriundo de dispositivos móveis.

A Vtex, empresa que fornece a plataforma de e-commerce da Walmart, Nokia, Trip Linhas Aéreas e outras 150 companhias, verificou que, entre o fim de 2010 e o presente momento, a audiência proveniente de celulares e tablets subiu de 1% para 10% a 15% em seus sites de compras. A projeção é atingir 20% em dezembro. E o melhor: o cliente que acessa por um dispositivo móvel gasta em média 30% a mais que os outros. “O consumidor móvel é mais impulsivo e objetivo. O tablet, por exemplo, é um grande gerador de vendas, pois oferece conforto para o comprador”, comenta o presidente da Vtex, Geraldo Thomaz.

Para Massayuki Fujimoto, CEO da Paggo, os serviços de m-payment são apenas “a ponta do iceberg”. Ele acredita que dentro de três anos mais de 60% do comércio eletrônico no Brasil será feito por meio de dispositivos móveis.
A tendência também é observada internacionalmente. O PayPal estima que registrará este ano 7 bilhões de transações originadas de dispositivos móveis, somando aquelas feitas pelo seu app ou por meio do navegador do celular ou tablet no site de um lojista cadastrado, informa Adriana Bello, diretora de produtos e marketing da companhia no Brasil. Em 2011 foram 4 bilhões de transações. E em 2010, 750 milhões.
 

Fernando Paiva
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