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  EDIÇÃO #112 - ANO 11 - JULHO/2008
ENTREVISTA
Aposta em várias frentes

O presidente da Alcatel-Lucent no Brasil, Jonio Foigel, considera que a empresa está bem posicionada no País. A aposta na tecnologia 3G deve dar frutos em futuras licitações e o mercado de WiMAX deve crescer nos próximos semestres, quando a empresa terá produtos maduros para o segmento. O executivo defende incentivos para empresas que desenvolvam tecnologia e fabriquem localmente, independentemente da nacionalidade, e aponta que o futuro está no desenvolvimento de aplicações. A separação das redes de Serviço de Comunicação Multimídia (SCM) e de Telefonia Fixa Comutada (STFC) proposta pela Anatel, pode atrapalhar a convergência de serviços e encarecer ao invés de baratear serviços, opina ele.

A área de manutenção remota passou a ser a mais nova aposta da companhia ao adquirir a Motive, que oferece sistemas nessa área. Com isto, a empresa espera atacar o mercado de TV por assinatura e aumentar sua presença entre as teles.



TELETIME: Qual a sua opinião sobre as mudanças, colocadas em consulta pública pela Anatel sobre o Plano Geral de Outorgas?



FOIGEL: Acho excelente incentivar empresas locais, principalmente na área de software, aplicativos e produtos específicos, que querem ampliar investimentos no Brasil. Mas criar uma nova reserva de mercado e repetir a Lei de Informática que trouxe um grande atraso para o Brasil durante dez anos, não tem sentido. Não vamos repetir o que não deu certo. Temos que criar incentivos fiscais, financiamentos e redução de encargos sociais de empresas que atuam em pesquisa e desenvolvimento. Temos problema de câmbio macroeconômico que tira nossa competição lá fora e de produtos locais.



Qual seria o melhor modelo?



Acho que o modelo de fabricação está esgotado. Com raras exceções, toda a fabricação é terceirizada. Com a automação, o emprego de mão-de-obra é bem pequeno. Hoje, o que faz a diferença em empregos são os serviços, engenharia, software, integração, comissionamento e suporte pós-venda. A partir do diferencial de serviços, temos que criar formas de incentivo para que possamos desenvolver empresas locais que façam aplicações, desenvolvimento tecnológico, entrem em nichos de mercado e possam complementar a tecnologia de grandes grupos como o nosso e outros, e com isto possam atuar não só no mercado interno, mas também exportar.



Como o sr. vê a separação do STFC e SCM, conforme está sendo estudado pela Anatel?



É loucura. Já passou o timing de fazer o unbundling, como foi feito em vários países da Europa. Não é possível separar voz de dados quando estamos indo para convergência tecnológica, onde voz cada vez mais vai virar VoIP sem valor agregado limitado. A receita caindo cada vez mais, com o início da oferta de soluções de vídeo e outros serviços. Falar de separar voz de dados, como se fosse há dez anos, é totalmente fora de propósito. Hoje, as empresas de telefonia fixa estão brigando com as de cabo, que oferecem também serviços de internet. A Embratel tem sua solução com a Net; a Telefônica com a TVA, e eles vão oferecer sua solução por cobre, seja pela rede de cabos coaxiais ou ópticos que vêm com a TV a cabo. No mercado americano, a briga é com a TV a cabo. Nós já temos esta briga. A voz fixa está gradativamente perdendo seu espaço. Cada vez mais a mobilidade está ganhando espaço com voz, e temos a VoIP que passa a ser o elemento complementar ao pacote que oferece acesso de dados e de internet. A concorrência virá naturalmente. Temos três grupos que estarão em todos os mercados. O que estão esperando com isto? Aparecerão outros players neste mercado oferecendo acesso em banda larga fixa? É um jogo político complexo. A Anatel levou um tempo para tirar alguma coisa. Temos que trabalhar um pouco mais e não tentarmos represar a tecnologia. Isto pode inviabilizar a operação Oi-Brasil Telecom. E o pior é que afeta a Telefônica também. Tem, sim, que incentivar a convergência tecnológica e que as empresas ofereçam novos serviços e com isto criar competição entre elas que barateará naturalmente os serviços que queremos para a população.



A Alcatel-Lucent firmou um contrato com a BrT em fevereiro. Espera estendê-lo também com a Oi? Existe preocupação com sobreposição de contratos?



Ainda não. Até por regras e leis do mercado, a Oi só poderá conversar formalmente com a BrT depois que tiver algumas autorizações. Nós conhecemos bem isso porque vivemos um processo de fusão com a Lucent. Existem regras de fusões a serem respeitadas. Essa preocupação de sobreposição de contratos é muito secundária. A Oi tem muito a fazer e planos estratégicos a seguir para a incorporação das operações. Elas estão em regiões diferentes e se completam em mercados corporativos. Depois da compra unificada, os vendedores estarão vendendo para uma só empresa, não importa para qual região. Não vejo problemas em curto prazo. A Oi tem que fazer seu deployment de 2G e 3G em São Paulo, o que já é uma preocupação enorme.



Qual é a posição da empresa sobre o desenvolvimento da tecnologia WiMAX e 3G, já que tem um pé em cada padrão?



Decidimos participar dos dois mundos. A 3G é uma evolução natural da tecnologia GSM. Acabamos por deter três tecnologias: a própria, da Alcatel, a da ex-Lucent e a da Nortel. Fechamos um contrato de US$ 1 bilhão com a China Mobile, o que consolida tudo que a Alcatel-Lucent vem fazendo em termos de convergência tecnológica. Em 3G, somos player importante. Infelizmente, no Brasil tivemos um timing difícil, porque estávamos consolidando as tecnologias, quando as licitações saíram. Não estamos participando de rede 3G no Brasil, mas sim do que está por trás dela, como a transmissão, rede IP, o suporte. Fazemos o pacote inteiro, exceto a parte de CPE, que é o equipamento do usuário, porque a empresa não é especializada nisto. O mesmo acontece com 3G, para a qual não fornecemos o handset, mas sim toda a infra-estrutura. No WiMAX somos uma empresa importante, suportando o desenvolvimento da tecnologia junto com Intel, Sprint, Motorola, Samsung. Vemos um nicho muito claro, complementar à 3G, para atuar no mercado de acesso a dados, à internet e mobilidade. Decidimos apostar nos dois mundos porque achamos que convergirão para LTE (Long Term Evolution), que é uma evolução natural do mundo CDMA.



Quais as oportunidades para os fornecedores com WiMAX no Brasil?



Quando operadoras tiverem suas redes WiMAX prontas neste ano, a Alcatel-Lucent estará pronta para atendê-las com os aplicativos; os de base já estão disponíveis com a infra-estrutura NGN e novos produtos virão de acordo com a orientação de cada cliente. No segundo semestre já teremos produtos bastante maduros para o segmento. Em infra-estrutura de rede temos como cliente a Brasil Telecom. Não vencemos a primeira fase da licitação da Embratel, mas ela vai começar a montar sua rede e pretendemos participar das novas fases. Acredito que a disponibilidade de freqüências do leilão de 3,5 GHz, que está parado, e uma parte de 2,5 GHz, que hoje está nas mãos de empresas de TV a cabo, fará aparecer novos operadores além dos atuais, impulsionando este mercado.



Recentemente, a Alcatel-Lucent anunciou a aquisição da Motive, uma empresa provedora de serviços de gerenciamento de software para banda larga e serviços de dados móveis. Quais os impactos dessa aquisição no País?



É uma empresa que cuida dos equipamentos que estão na casa do cliente, realizando manutenção remota. A pessoa pode ligar e receber orientação, reconfigurar à distância, corrigir defeitos, programar, relançar, instalar modem, ADLS, IPTV etc. Hoje, existe esse tipo de serviço, porém é mais voltado à TV a cabo. A idéia é ter tudo isto em telecomunicação e em televisão via cobre. Isto reduz o custo para quem compra, porque não tem que pagar instalador. E para quem vende, porque não precisa enviar funcionário qualificado. Tanto faz que o cliente seja corporativo ou residencial. No Brasil, já existem produtos da Motive instalados na Telefônica e Oi através da parceria Alcatel-Lucent. O que muda é que vamos otimizar, pois estamos investindo forte em home care.
Ivone Santana
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