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O dragão não é de papel
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Há menos de dez anos no Brasil, mas com sua tecnologia de terceira geração implantada em quase todo o território nacional, exceto no Estado de São Paulo, a Huawei tem despertado a rivalidade de outros competidores, inclusive chineses. Chegou ao Brasil várias décadas depois que outros fabricantes de telecomunicação aqui se instalaram, perdeu muitas oportunidades de investimento feito pelas operadoras, mas em poucos anos impôs sua presença e elevou gradativamente seu volume de vendas. Saiu do zero para US$ 600 milhões em 2007, o dobro do ano anterior. O número atual de 550 funcionários deverá passar para 960 até o final do ano – mundialmente são quase 70 mil trabalhadores. O que está por trás desse rápido crescimento? As instalações gigantescas e automatizadas da companhia em Shenzhen, a organização sócio-econômica nos grandes centros e a cultura do país dão uma pista sobre a tática chinesa.
Tudo parece muito organizado em grandes cidades como Shenzhen e Pequim. Os canteiros das vias públicas são impecavelmente floridos, não há lixo espalhado pelas ruas e mesmo os pequenos boxes de outlets no comércio são bem distribuídos. O caos fica por conta mesmo da poluição ambiental e visual onde há concentração de comércio. O cenário negativo fica escondido.
O último grande terremoto com epicentro em Wenchuan que abalou a China e destruiu toda a infra-estrutura de comunicações em maio passado mostrou como os chineses são determinados em torno de um objetivo: Em apenas três dias restabeleceram os sistemas e instalaram novas comunicações de emergência. Trabalharam junto o exército, com mais de 20 mil soldados, voluntários de todos os segmentos da sociedade, operadoras de telecomunicações e fabricantes. Foi um trabalho organizado, silencioso e acelerado.
Levantamentos preliminares indicavam prejuízo em torno de US$ 1 bilhão só com a destruição da infra-estrutura das empresas de telecomunicação. Mas fora do epicentro não havia sinais de qualquer tragédia, a não ser pela programação repetitiva dos canais de televisão estatais.
“O chinês trabalha muito rápido e com eficiência. Em Xangai sobem um prédio de um dia para outro. É muita gente”, explica o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Tang. A celeridade do povo aliada à necessidade de reconstrução de parte do país elevou as ações das fábricas de cimento em Xangai. Tragédia para uns, lucro para outros. Os papéis das empresas de telecomunicação também foram valorizados. Não é o caso da Huawei, que não é listada em bolsa. Cerca de 20 mil funcionários, em sua maioria ocupantes de cargos gerenciais, são acionistas, com o teto máximo de 2% de papéis da companhia cada um. No próximo ano, 20 mil funcionários se tornarão sócios, disse o porta-voz da empresa, Ross Gan. Decidida a construir seu business localmente, a direção não pensa em fazer uma oferta pública de ações (IPO) num horizonte visível.
Para um país com mais de 1,3 bilhão de habitantes (dados de julho/2007) e renda per capita de US$ 5.300 por pessoa/ano, comparado a US$ 8.020 no Brasil e US$ 329.710 nos EUA, entrar numa companhia assim é um sonho. Muitos trabalhadores migram do interior e de cidades menores para os grandes centros em busca de oportunidades. Na Huawei a proporção é de 100 candidatos para cada vaga.
A principal fábrica situa-se a 40 minutos de Shenzhen, o maior centro produtivo do país. As instalações ocupam espaço equivalente ao do aeroporto internacional de Pequim. O condomínio com 3 mil apartamentos para alugar aos empregados é alvo de uma longa fila de espera, que pode demorar anos. Os imóveis têm 23 metros quadrados, custam US$ 120/mês e são projetados em sua maioria para duas pessoas, informa o gerente de contas da empresa, Wu Wen Xin. São dez prédios com sete andares cada, numa área arborizada e com um centro de lazer. Durante o horário comercial, naturalmente, piscinas e quadras estavam vazios, mas à noite os grupos de jovens se reúnem – a idade média na companhia é 29 anos.
Sala de guerra
Os escritórios da companhia no Brasil são conectados via link direto com os EUA e de lá com a matriz em Shenzhen. Uma ampla sala de reunião na fábrica tem visão total para o call center situado num piso pouco abaixo, com engenheiros nos postos de atendimento. É desse centro de comando que saem as soluções para problemas enfrentados pelos clientes em qualquer parte do globo e que os engenheiros e executivos da Huawei locais não conseguem resolver. Com grandes painéis computadorizados que mostram o que está sendo estudado por cada funcionário, os executivos podem analisar tudo do centro de comando. E se ocorrer uma situação emergencial, um mecanismo escurece o vidro, como uma cortina, dando total privacidade aos executivos para que se reúnam.
A visita ao armazém de produtos de transmissão óptica também é à distância, do alto e através de uma parede de vidro, pela qual se lê uma curiosa placa: “Não é permitida a entrada de pessoas.” Em seu interior, 20 robôs movimentam o estoque em gigantescas prateleiras verticais e horizontais, sem interferência humana. Produzidos pela Siemens e Huawei, os robôs suportam 250 kg. Cada um trabalha em um corredor a uma velocidade de 160 metros/minuto de percurso. Do outro lado do vidro, onde ficam os trabalhadores humanos, todo o ambiente é de sala limpa e só pode ser percorrido com calçados especiais fornecidos pela empresa. Com 11 mil metros quadrados de área construída, o armazém recebeu investimentos de US$ 9 milhões. O número de funcionários no setor caiu de mais de 200 em 2001 para 35 atualmente.
Abertura gradual
A China vem passando gradualmente de um país política e economicamente fechado para uma potência aberta que negocia com praticamente todo o mundo. Seu PIB foi de US$ 7 trilhões em 2007, o que o coloca como a segunda maior economia mundial, atrás apenas dos EUA. A marcha dos chineses em direção à internacionalização é aberta, embora às vezes desajeitada.
Dos US$ 16 bilhões em contratos de vendas firmados em 2007 pela empresa, 72% foram gerados no mercado internacional. Em 2006 foram US$ 11 bilhões em contratos, dos quais US$ 7,2 bilhões fora da China. Segundo o porta-voz, a Ásia e Pacífico respondem por 44% da receita; América Latina, 10%; América do Norte, 1%; e EMEA, 45% (Europa, Oriente Médio e África). Para o Brasil, Gan disse que as maiores oportunidades estão nas novas tecnologias e upgrade das redes instaladas em segunda e terceira geração.
Circularam rumores no mercado, há alguns meses, de que na luta para se tornar cada vez mais uma empresa global, a Huawei estaria negociando a compra da 3COM, o que lhe daria melhor posição nos EUA. Houve inclusive uma reação contrária entre os norte-americanos, que não queriam a companhia sob controle estrangeiro. Mas Gan lembrou que existe uma antiga joint-venture entre as duas companhias e negou a intenção de aquisição, que classificou como um mal-entendido do mercado. O interesse da chinesa seria no potencial da parceria para o mercado chinês, e não para o norte-americano. A estrutura da Huawei nos EUA conta com 200 funcionários em P&D e clientes das áreas fixa e wireless, disse ele. A estratégia para aquele mercado é de cautela, passo por passo.
O caminho para parcerias
Enquanto caminha para o crescimento no mercado internacional, a China se prepara também para a entrada crescente de estrangeiros em seu território, mas a comunicação ainda não é fácil. Empresas de todos os portes e de diversas áreas procuram parceiros chineses que produzam para elas ou façam uma associação com este objetivo, de olho no baixo custo. A grande maioria das multinacionais tem plataforma de produção naquele país. Em 25 anos, a China atraiu US$ 1 trilhão em investimento direto, de risco, disse o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Tang. No ano passado foram US$ 82 bilhões.
A CCIBC está fazendo nove joint-ventures entre empresas brasileiras e chinesas de diversas áreas, mas nenhuma de telecomunicação. Segundo Tang, os que criticavam o processo industrial do país, que consideram uma ameaça, agora enxergam oportunidades.
Entretanto, aconselha os interessados a não se aventurarem em busca de parceiros sem o respaldo de alguém que conheça o mercado. Disse que muitas empresas brasileiras compram material da China pela internet e depois procuram a CCIBC para ajudá-los a resolver os problemas criados. O órgão está preparado para auxiliar os empreendedores passo a passo em projetos que envolvem alianças.
São necessárias várias viagens para fazer contatos com potenciais parceiros pelo país, e há vários obstáculos. A grande maioria da população fala mandarim, entre outros dialetos. O inglês é pouco falado, mesmo em grandes hotéis, restaurantes e no comércio em geral. Outros idiomas são mais raros ainda.
Nas praças e parques as pessoas são alegres e descontraídas e se comunicam mais facilmente com os estrangeiros. Mas aqueles que estão trabalhando são discretos e tímidos, de uma forma geral, recusando-se, até mesmo, a informar o próprio nome dentro ou fora do ambiente de trabalho - herança das repressões políticas.
O que reduz os custos
Afinal, o que torna o custo de mão-de-obra e produção tão baratos na China? “A pergunta é: como conseguem produzir tão caro no Brasil?”, reage o presidente da CCIBC. Ele enumera alguns itens divergentes em relação aos dois mercados. A carga tributária brasileira chega a mais de 40% do PIB nacional; na China é 17,5%. Os encargos trabalhistas atingem 127% aqui e 60% na China. Os juros brasileiros estão entre os mais altos do mundo, enquanto os chineses estão até negativos por causa da inflação e tradicionalmente situam-se em 2,5% ao ano. Para salário mínimo de US$ 145/mês, por exemplo, o custo é quatro vezes menor na China do que no Brasil, compara Tang.
O presidente da CCIBC nega também que o governo subsidia as empresas, promovendo uma concorrência considerada injusta. Tang afirma que o governo retirou a devolução fiscal para exportação porque quer reduzir o elevado superávit. Aumentou a taxa de juros em cinco a seis vezes, tirou a liquidez e valorizou o yuan (a moeda chinesa). Além disto, está taxando a exportação de aço, cimento e outros produtos que poluem e usam energia elétrica. Telecomunicação foi afetada com a redução da devolução fiscal. A taxa de crescimento que ficou em 11,4% em 2007 deve cair para 9% este ano, com 2,4% menos de emprego, prevê Tang.
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| Ivone Santana |
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