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Dilema óptico
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Sabe-se que a expansão das redes de acesso por fibra no Brasil ainda não decolou por conta dos custos elevados. Cerca de 80% dos investimentos de uma operadora em redes fiber-to-the-home (FTTH) se dá na chamada planta externa. Tanto na construção quanto na operação, os desafios de instalar e manter essa rede são gigantescos. A começar pela forma como as fibras são emendadas umas às outras para formar a rede.
Não é à toa que jargões técnicos comuns a engenheiros, como troubleshooting, fator de splicing e conectorização agregada, estão cada vez mais na ponta da língua de executivos do staff, convencidos de que o planejamento e a gestão técnica da rede nunca foram tão estratégicos para o sucesso do negócio. E uma das discussões do momento é o sistema de conectorização, modelo há muito tempo consagrado nas redes FTTH da Europa e dos Estados Unidos. Essa solução só agora começa a avançar rumo à última milha no Brasil, cada vez mais perto do assinante, e promete baratear os custos da rede.
Segundo especialistas, a conectorização da fibra reduz consideravelmente o custo operacional da rede. A proporção dessa economia, dizem eles, é difícil de dimensionar, pois depende de uma série de fatores técnicos. No entanto eles garantem que os ganhos operacionais, como maior flexibilidade e facilidade de manuseio, amortizam o custo 30% superior em relação às soluções de emendas ópticas. “O ponto fundamental não é o custo de aquisição, mas a operação da rede”, diz Renato Veloso Bueno, gerente de marketing estratégico América Latina da Nokia Siemens, que constroi e gerencia as redes internas e externas de algumas das maiores operadoras do País.
O sistema de conectorização, como o próprio nome diz, se utiliza de conectores, ao contrário do modelo de emendas por fusão, em que as fibras são “coladas”. “Estabelece-se um arco voltaico de 1.200º C, que derrete as fibras, e as duas pontas se fundem milimetricamente”, explica Nelson Saito, representante do capítulo latinoamericano do FTTH Council e executivo da Furukawa.
O equipamento utilizado para esse processo é chamado de máquina de fusão óptica, que o técnico tem de levar a campo para a emenda das fibras. E é exatamente aí que reside a primeira vantagem do sistema de conectorização, pois, além de o equipamento custar alguns milhares de reais, requer mais tempo de trabalho para a instalação e manutenção da rede. “No sistema de conectorização, os cabos já vêm pré-conectorizados de fábrica, o que reduz cerca de 50% ou até mais o tempo de instalação”, diz Gustavo Candolo, gerente de vendas da Prysmian. Isso explica o fato de a solução ser 30% mais cara. Segundo ele, esse modelo, que não exige um técnico tão qualificado como o que realiza a fusão em campo, deu tão certo nos Estados Unidos e Europa justamente porque lá a mão de obra é bem mais cara que no Brasil.
A flexibilidade e possibilidade de remanejamentos e expansões, em grandes metrópoles como São Paulo, que crescem desordenadamente, é outra importante vantagem agregada da solu ção de conectorização. “Se você tiver armários já pré-conectorizados, basta abri-lo e alterar o fator de conectorização, de 16 para 32 ou 64 usuários, de acordo com a necessidade. Se futuramente houver mais um prédio na região, bifurca-se a fibra para atendê-lo, de forma muito mais simples”, explica Renato Bueno.
Segundo os cálculos do executivo, as operadoras gastam 5% do total investido na planta externa de FTTH só no planejamento, até porque a instalação da fibra óptica é onerosa e demorada, pois implica interrupção de vias públicas, custo de passagem dos cabos, entre outros fatores. “É preciso dedicar um bom tempo no planejamento dessa rede. Uma vez instalada, modificá-la é muito caro e trabalhoso”, diz o executivo, que lembra que o gasto com os dutos e com a fibra óptica representa cerca de 30% de todo o valor investido na planta externa.
O gerente de produtos para redes de acesso da Alcatel-Lucent, Reinaldo Munhoz, concorda e acrescenta que o sistema de conectorização também leva vantagem no troubleshooting, operação de identificação de falhas em campo. “Se o cordão óptico de repente sofrer uma pane, simplesmente conecta-se outro, num ‘clic’, sem a necessidade de um técnico super treinado em campo com máquina de fusão”, diz. “No sistema de emendas, você teria de abrir o gabinete da rua, quebrar as fibras e refusioná-las”, compara Bueno.
A rápida detecção e resolução da falha técnica em uma rede é um dos principais problemas operacionais das operadoras, que em algumas ofertas de FTTH precisam entregar um nível de serviço de 99,9%, ou seja, no máximo 8 horas de falhas ao ano.
Desvantagens
Mas nem só de vantagens é feito o sistema de conectorização óptica. A solução apresenta uma perda (atenuação) que pode ser até dez vezes supe rior em relação ao modelo de emendas. “No sistema de emenda, as fibras estão ‘coladas’, por isso a atenuação é menor e a possibilidade de entrar pó também”, explica Munhoz. Por esse motivo os especialistas defendem o uso de ambas as soluções em uma rede FTTH ideal. “A emenda óptica sempre existirá em links ponto-a-ponto, e a de conectorização no ponto-multiponto”, resume Bueno. E é justamente aí, na rede de acesso, na última milha, que o sistema de conectorização ainda é pouco utilizado. “No Brasil, 99% da rede FTTH é composta por soluções de emendas, mas isso deve mudar”, diz Candolo.
Para o executivo essa realidade deve mudar porque a Prysmian e outros fabricantes, como a ADC, começam agora a produzir localmente soluções de conectorização. “A importação tem sido o principal motivo do alto custo dessas soluções e um obstáculo para a utilização em massa do sistema de conectorização”, diz Jorge Marcelo Neto, diretor geral da ADC. Em maio deste ano, a ADC anunciou o início da produção, em sua fábrica de Cotia, São Paulo, de conectores ópticos, que até então eram importados do México, Estados Unidos, Europa e Ásia. “Todas as operadoras brasileiras estão realizando testes com o sistema de conectorização e comprovando os benefícios na operação. Com a produção local, nossas expectativas são ambiciosas”, prevê.
Futuro óptico
As operadoras estão buscando construir redes cada vez mais confiáveis, flexíveis e “à prova de futuro”, no jargão do marketing. E que o futuro das redes de comunicação passará pelas fibras ópticas ninguém mais questiona. De acordo com dados do instituto de pesquisas Infonetics, uma residência de classe média no País nos próximos dois ou três anos contará com pelo menos dois canais de IPTV de alta definição (16 a 24 Mbps), três links de Internet banda larga (12 Mbps) e duas linhas de VoIP (50 kbps). São poucos os meios de transmissão, além da fibra óptica e das redes HFC, capazes de prover mais de 36 Mbps por residência em escala comercial. Por esse motivo, as operadoras de telefonia e de TV por assinatura sabem que uma hora a fibra óptica chegará mais perto do assinante, com o chamado fiber-to-the-home (FTTH). É verdade que em um universo de aproximadamente 10 milhões de usuários de banda larga fixa no Brasil, o contingente de 5 mil assinantes de FTTH existente hoje (quase todos da Telefônica) ainda é insignificante, mas alguns projetos já começam a sair do papel e em médio a longo prazo esse número deve crescer exponencialmente.
No entanto, apesar de ser considerado um caminho inexorável de evolução, as operadoras fazem as contas e avaliam com cautela a atuação no mercado de FTTH, que demanda um gasto médio de US$ 1,2 mil por residência coberta no Brasil. “Cerca de 10% desse valor vem das soluções de distribuição das fibras, por isso o sistema de conectorização é tão importante”, diz Bueno, da Nokia-Siemens.
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| Daniel Machado |
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