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  EDIÇÃO #134 - ANO 13 - JULHO/2010
BANDA LARGA
Metas ficam para trás

Operadoras móveis cumpriram com folga os dois primeiros anos das metas de cobertura que a Anatel introduziu no leilão das faixas de terceira geração. A demanda foi tão grande que as operadoras superaram as metas de atendimento das capitais e das cidades com até 500 mil habitantes e pelo menos Claro e Vivo estão adiantadas com a cobertura das cidades com mais de 100 mil habitantes. Ao que tudo indica, algumas operadoras cuja estratégia está mais apoiada nos serviços de dados devam superar também as metas para levarem o 3G às cidades com menos de 30 mil habitantes, que começam a partir de 2013. Os dados mostram que o trabalho mais difícil já foi feito: levar a infraestrutura de 2G a essas localidades. Para o 3G, a grande dificuldade são as redes de transmissão, ou backhaul.

A Vivo surpreendeu o mercado em junho ao anunciar o plano de levar o 3G a 2.832 cidades até o fim de 2011. Para cumprir a meta, a operadora deverá ativar a rede em quatro municípios por dia, a maioria com menos de 100 mil habitantes, de acordo com o presidente da operadora, Roberto Lima. Ele garante que todos esses municípios são atendidos por backhaul capaz de suportar o tráfego de terceira geração. Inevitavelmente, o anúncio do plano da Vivo chama a atenção para as metas de cobertura do leilão de terceira geração. Até o momento, mesmo as operadoras que tiveram outras prioridades até aqui cumprem com folga as metas da Anatel. Em 30 de abril de 2010 venceram as metas de atendimento com 2G das cidades que não tinham cobertura celular e o atendimento com 3G de 100% das capitais e das cidades com mais de 500 mil habitantes. Para as operadoras com cobertura nacional, essa primeira meta do 3G significou o atendimento de 44 cidades. “Hoje temos mais de 400 cidades com 3G. Acredito que todas as operadoras atenderam mais que 44 cidades com o 3G”, diz Christian Wichert, diretor de planejamento corporativo da Claro.

A Vivo também cumpre com folga as metas da Anatel. De acordo com Leonardo Capdeville, diretor de planejamento da operadora, a companhia já cumpriu o atendimento das cidades entre 30 mil e 100 habitantes, cujas metas vencem apenas em 2013, o quinto ano das metas. 2013, aliás, é o ano que começam as metas mais espinhosas para as companhias: o atendimento com 3G dos municípios com menos de 30 mil habitantes. Existem hoje 4.497 municípios nessa categoria no Brasil, dos quais apenas 190 têm, hoje, redes 3G. Essa cobertura precisará chegar a nada menos do que 674 municípios em 2013 e 2.698 municípios até 2016. Será um esforço imenso, com pouca atratividade econômica, já que nos 60% de municípios pequenos mais ricos estão apenas 14% do potencial de consumo nacional, segundo dados do Atlas Brasileiro de Telecomunicações 2010, editado por TELETIME.

A Vivo não divulgou os municípios que estão dentro do seu plano de expansão, de modo que não é possível saber exatamente quão adiantada estará a operadora ao fim de 2011. Leonardo Capdeville, diretor de planejamento da operadora, informa, entretanto, que as metas da Anatel para a Vivo são de levar o 3G a 1.329 cidades. É possível, esclarece ele, que haja cidades a serem atendidas pelas metas, especialmente aquelas com menos de 30 mil habitantes, que não foram contempladas no plano de expansão. Mas, garante ele, todos os municípios das metas da Anatel serão atendidos no prazo. De qualquer maneira, percebe-se até aqui que as metas impostas pela Anatel estão sendo superadas pelas empresas e há chances de que mesmo quando começar a obrigatoriedade do atendimento das cidades com menos de 30 mil habitantes o mercado seja mais promissor do que a Anatel poderia imaginar em 2007, quando as licenças foram leiloadas. “Trata-se de um ambiente competitivo e isso faz toda a diferença. Acredito que as operadoras devem antecipar as metas mesmo nas cidades com menos de 30 mil habitantes”, afirma Wichert, da Claro.

Modelo de negócio

Executivos da Vivo reconhecem que, ao analisar as localidades individualmente, o projeto não é viável do ponto de vista comercial em todas elas. Mas a aposta é que ao disponibilizar a infraestrutura, a operadora possa atender uma demanda que não é atendida pela banda larga fixa. A Vivo apega-se também ao ganho social que a cobertura destas localidades pode trazer, e faz disso ferramenta de valorização institucional da companhia. Vale lembrar que quando as operadoras móveis lançaram o 3G - em meados de 2008 - houve uma intensa procura, não apenas de consumidores que precisavam de mobilidade, mas também por aqueles que não tinham uma alternativa fixa. A procura foi tão grande que a banda larga móvel sobrecarregou a rede das operadoras e gerou uma profunda insatisfação nos clientes. O resultado é que as empresas suspenderam as propagandas do serviço na época e, até hoje, nunca mais voltaram a anunciá-lo da mesma forma. Revisaram também seus planos de oferta, como o fim dos pacotes ilimitados, e passaram a ser mais cuidadosos nas informações passadas aos clientes, para não criar falsas expectativas.

A impressão que se tem é que as empresas tiraram importantes lições do susto que tomaram com a explosão da banda larga móvel. Primeiro, foi o início de investimentos maciços em backbone e backhaul, com consideráveis investimentos conjuntos, algo inédito no setor. A Vivo, por exemplo tem 16,8 mil km de backbones compartilhados com outras teles (Claro, TIM e GVT). Outra lição aprendida foi tirar o foco de substituição da banda larga fixa: Oi e TIM procuram incentivar o uso da banda larga no smartphone, embora também tenham ofertas de modems. Já a Claro e a Vivo mantiveram suas apostas na banda larga móvel para notebooks.

Aposta no fixo

Na visão da Oi, a única operadora móvel de abrangência nacional que também tem uma operação fixa, a tecnologia mais apropriada para levar a banda larga para as cidades remotas é o ADSL. A companhia está adicionando mais 4 milhões de portas ADSL nos próximos três anos. Uma parte desta ampliação vai para oferecer o Velox nas cidades que venham a ser atendidas com a expansão de backhaul; outra é destinada ao upgrade da tecnologia ADSL para ADSL 2 nas localidades que exigem mais capacidade, e uma terceira parte visa atender a demanda por mais clientes em determinadas localidades. “Nosso objetivo é dobrar a base nesses três anos. Queremos que todo o cliente de telefonia fixa tenha também a banda larga”, afirma Flávia Bittencourt, diretora de marketing da Oi. O plano da companhia é levar o Velox de 3,8 mil para 4,8 mil municípios até o final do ano, o que significa a cobertura de todos os municípios da sua área de atuação, as regiões I e II.

A aposta da Oi é claramente na banda larga fixa, e por este motivo não deverá antecipar as metas de atendimento das cidades pequenas. “Devemos cobrir dentro do prazo. Não há motivos para chegar antes”, diz a executiva. “O que a Vivo está fazendo não é antecipar metas, é atender uma demanda reprimida, o mesmo que vamos fazer com o ADSL até o fim do ano”, completa ela. A principal dificuldade para levar o 3G a essas cidades pequenas e, muitas vezes, distantes dos grandes centros é a transmissão, na opinião de Wichert, da Claro. “Nos grande centros eu vou alugar EILD (Exploração Industrial de Linha Dedicada) de alguém. Nas cidades pequenas e remotas, as concessionárias não oferecem EILD, ou é muito demorado”, afirma ele. Desafio semelhante foi enfrentado pelas empresas ao levarem a rede celular às cidades não atendidas. “As metas dos dois primeiros anos foram muito agressivas. Foram dificílimas. Todas as operadoras tiveram que correr muito”, diz. A Claro afirma que 80% das novas cidades foram atendidas com transmissão construída pela própria operadora. O executivo conta ainda que houve cidades em que o equipamento teve de chegar de helicóptero. “Para 3G precisamos de transmissão robusta. E aí as fixas têm um papel extremamente relevante”, opina.

A transmissão é também, para a TIM, o ponto crucial para o aumento da cobertura de 3G. “Temos um projeto mais programado de evolução da cobertura de 3G, ligado à estratégia para o backhaul”, diz Janilson Bezerra, gerente sênior de inovação tecnológica da empresa. Hoje a TIM é a operadora com cobertura nacional que tem a menor cobertura em 3G, cerca de 140 cidades. A cobertura da operadora deve voltar a crescer no segundo semestre de 2010.

O executivo da Claro diz que as cidades pequenas têm sim um mercado interessante, desde que as operadoras não tenham que fazer investimentos vultosos em sistemas de transmissão, uma vez que a oferta de dados depende muito, segundo ele, da renda do consumidor e dos impostos que incidem sobre os serviços. Para ele, o modelo de negócio que vai viabilizar a banda larga em cidades de baixa renda é o pré-pago. “Vai ser como no início do celular. Começou com o pós e hoje a maioria da base é pré. Quando a banda larga pós-paga começar a mostrar alguma redução no ritmo de crescimento, os consumidores vão olhar para o pré-pago”, acredita. TIM e Oi, por outro lado, não entram no mérito da questão, já que apostam no uso da rede 3G através do handset. “Antes estávamos trabalhando no 3G com capacidade maior de transmissão no minimodem. Agora percebemos que não precisamos ter tanta capacidade, mas sim capilaridade”, afirma Flávia Bittencourt, da Oi.

Espectro

Outro ponto frequentemente apontado como um dificultador para a expansão do 3G é o limite de 80 MHz de espectro que existe para cada uma das operadoras do SMP. Por este motivo, inclusive, as teles não podem participar do leilão da banda H, de terceira geração, uma vez que ao adquirir a faixa, dividida em 10 MHz, elas ultrapassariam este limite. As atuais operadoras poderão participar da disputa pela banda H apenas se não houver interessados. Neste caso a Anatel dividirá a faixa em 5 MHz + 5 MHz. A limitação foi um instrumento encontrado pela agência para impedir a concentração de espectro, quando foram leiloadas as primeiras faixas de frequência depois da privatização. Mas hoje, com a introdução da banda larga nessas redes, cada vez mais as operadoras querem novas faixas e, para isso, desejam que a Anatel aumente esse cap. O assunto foi debatido no 3º Seminário Wireless Broadband, organizado por TELETIME em julho. Na ocasião, Bruno Ramos, gerente de regulamentação da superintendência de serviços privados da Anatel, lembrou que o limite existe apenas para as faixas de 800 MHz, 1.900 MHz e 1.800 MHz.

Hoje, a Vivo é a operadora que tem menos espectro. Com exceção de Minas Gerais, em nenhum outro lugar a empresa tem mais que 55 MHz. O diretor de planejamento da Vivo, Leonardo Capdeville, explica que com menos espectro a operadora precisa adensar os sites, o que significa mais custo para as operadoras e, consequentemente, para os clientes. “Custa acreditar que onde as empresas têm mais de 130 MHz não haja competição”, afirma, em referência a mercados como o francês, onde o teto de frequências é muito maior que o brasileiro. Outra solução que a Vivo tem buscado para driblar o limite tem sido o reaproveitamento de frequências. Com a desativação da rede EVDO e com a progressiva diminuição do número de clientes na rede CDMA (o desligamento total da tecnologia está previsto para 2011) foi possível, por exemplo, implantar a tecnologia HSPA+ na faixa de 850 MHz.

Segundo Capdeville, a má qualidade do serviço muitas vezes é causada pela pouca disponibilidade de espectro. O executivo ainda lembra que existem algumas prefeituras com regulamentações restritivas para a instalação de antenas, o que dificulta ainda mais a vida das empresas. Bruno Ramos explicou que a agência não pensa a eficiência espectral apenas do ponto de vista técnico, mas considera ainda a variável social e a concorrencial ao tomar as suas decisões.



As metas da banda larga móvel

Operadoras chegaram, até abril de 2010, a todos os municípios que não tinham celular. No mesmo período levaram o 3G a todas as capitais e cidades com mais de 500 mil habitantes, mais o Distrito Federal.

Até abril de 2013, operadoras deverão levar o 3G a 50% dos municípios entre 30 mil e 100 mil habitantes.

Até abril de 2012 operadoras devem atender todos os municípios com mais de 200 mil habitantes.

50% dos municípios que tenham entre 30 mil e 100 mil habitantes precisam ser atendidos com redes 3G até 2013.

100% dos municípios com mais de 100 mil habitantes precisam ser atendidos com redes 3G até abril de 2014.

60% dos municípios com menos de 30 mil habitantes deverão estar atendidos com redes 3G até abril de 2016, e as obrigações de atendimento começam a partir de 2013.

Fonte: Anatel
Helton Posseti
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