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  EDIÇÃO #134 - ANO 13 - JULHO/2010
HANDSETS
Mudança operacional

O mundo dos sistemas operacionais para telefones e dispositivos móveis está em ebulição. Além da enorme competição, com diversos players lutando por uma fatia do mercado, há uma corrida para o lançamento de novas versões que compensem as rápidas desvantagens criadas por inovações em sistemas concorrentes. O iPhone OS e o Android, que hoje são apontados como os preferidos por desenvolvedores e por consumidores, continuam evoluindo e colocando novos padrões de mercado, enquanto os demais correm para não ficar para trás.

O primeiro semestre foi marcado pela entrada da Samsung nessa briga, com o nascimento de seu sistema operacional Bada, e pelo lançamento do iPhone OS 4 e do Brew MP. Para a segunda metade do ano há grande expectativa em torno da chegada do Symbian ^3 e do Windows Phone 7, que podem fazer com que Nokia e Microsoft reconquistem o espaço que perderam nesse segmento nos últimos 12 meses. Ao mesmo tempo, está para sair do forno o Blackberry OS 6.0, da RIM, e a tão esperada versão 3.0 do Android. O sistema operacional é, em tempos de smartphones cada vez mais sofisticados, a alma de um handset. Dominar esse ambiente significa ter poder sobre a experiência do usuário, além de influenciar todo um ecossistema de desenvolvedores de aplicações e, eventualmente, receber royalties dos fabricantes de celulares. A motivação para criar um sistema operacional varia de caso a caso. Google e Microsoft, por exemplo, são gigantes da Internet que criaram plataformas móveis porque sabem que precisam garantir seu espaço no mundo móvel, para onde caminha a Internet. Para elas, quanto mais fabricantes adotarem seus sistemas operacionais, melhor. Seus modelos de negócios, entretanto, são distintos. Enquanto a Microsoft ganha com royalties pela inclusão do Windows Phone, o objetivo da Google com o Android é aumentar a audiência móvel aos seus sites e serviços baseados em cloud computing. A relação de ambas com as operadoras também é distinta: enquanto a loja de aplicativos do Android é completamente independente das teles, a Microsoft procura estar sempre próxima das operadoras e fechar com elas contratos de integração de billing e divisão de receitas.

Modelos fechados

O extremo oposto do Android e do Windows Phone seriam os sistemas proprietários e fechados criados por fabricantes de terminais para uso exclusivo em seus smartphones. É o caso da Apple, com o iPhone OS, e da RIM, com o Blackberry OS. No caso de ambas, o objetivo é integrar melhor hardware e software, oferecendo uma experiência mais controlada e testada para o usuário final, o que pode ser um diferencial competitivo, além de economizarem no pagamento de royalties. Essas podem ter sido as razões que levaram a Samsung a criar o Bada, embora a fabricante não tenha aberto mão de trabalhar com diversos outros sistemas operacionais. Nesses casos, quando o fabricante não vai bem, o sistema operacional afunda junto. Foi o caso da Palm, com seu Palm OS e, mais recentemente, o webOS – que talvez ganhe fôlego após a venda da companhia para a HP.

No meio do caminho encontra-se o sistema operacional Symbian. Embora pertença a uma entidade independente, a Symbian Foundation, a plataforma sempre foi e continua sendo atrelada à imagem da Nokia, que a adotou há alguns anos para uso em seus celulares. Em menor escala, o Symbian também é adotado pela Sony Ericsson e pela Samsung. A liderança da Nokia, que detém quase 40% do mercado global de telefones celulares, faz com que o Symbian seja hoje o sistema operacional mais usado no mundo. Suas vendas continuam altas, como demonstra uma pesquisa da Gartner (veja quadro abaixo). Todavia, desenvolvedores e consumidores não estão satisfeitos com o desempenho do sistema, especialmente quando o comparam com Android e iPhone OS. “Para mim, o Symbian é o mais difícil para se desenvolver. Faltam funções em seu SDK (software development kit) e informações disponíveis na Internet”, critica Rafael Siqueira, CTO da LBS Local, desenvolvedor brasileiro. Em uma recente pesquisa da Appcelerator, realizada com mais de 2 mil desenvolvedores norte-americanos, o Symbian foi citado por apenas 15% dos entrevistados como sendo um sistema no qual eles têm “muito interesse” em trabalhar. Em contrapartida, o iPhone OS e o Android foram mencionados por 90% e 81%, respectivamente.

Vida curta

Ciente de que era preciso reformular completamente o Symbian, a Nokia estimulou a criação do Symbian ^3, cujo lançamento é esperado para este terceiro trimestre no smartphone N8. Do ponto de vista do usuário, o Symbian ^3 terá uma interface similar às versões anteriores, porém, com resposta mais rápida e menos diálogos de confirmação, que por vezes incomodam os usuários. Para os desenvolvedores, será lançado um novo SDK, que roda em Windows, Mac e Linux. E será facilitada a publicação de aplicativos na Ovi Store, com oferta de gratuidade no processo de assinatura digital para os pequenos desenvolvedores. “Acredito que a partir de agora haverá um boom de aplicativos para Symbian”, diz Marcelo Eduardo, gerente de experiência do usuário no Instituto Nokia de Tecnologia (INdT).

Mas há quem diga que o Symbian ^3 terá vida curta. Ele seria apenas um estepe para aperfeiçoar os problemas das versões anteriores enquanto não fica pronto o Symbian ^4, este sim um OS bem mais competitivo, cujo principal diferencial será o QT, uma biblioteca de softwares, para auxiliar os desenvolvedores na programação de aplicativos. A expectativa de analistas é de que o Symbian ^4 fique pronto em meados de 2011. Vale lembrar que a Nokia usa também o Meego, sistema operacional oriundo da fusão do Maemo com o Moblin, da Intel. O Meego tem sido reservado para aparelhos convergentes, como tablets, e aparecerá fora do mundo móvel tradicional, em TVs, painéis de carros etc.

A Microsoft também promete uma reviravolta em sua atuação no mundo móvel. Forte por muitos anos junto ao público corporativo, o sistema operacional Windows Mobile começou a perder share conforme cresceu a popularidade de smartphones voltados ao consumidor final, com interfaces mais amigáveis. A primeira mudança foi feita no próprio nome, trocado para Windows Phone. O próximo passo é lançar a versão 7, que foi reescrita do zero e será apresentada ao mundo em breve. “Reconhecemos que a Apple está na dianteira, mas é cedo para saber quem vai ganhar. A história do mercado de smartphones está apenas começando. É uma área prioritária dentro da Microsoft”, comenta o gerente de mobilidade da companhia, Celso Winik.

O Windows Phone 7 terá um agregador de redes sociais, o que passou a ser requisito básico de qualquer OS depois da chegada do Android, e maior foco na experiência do usuário. Além disso, se integrará a outros dispositivos, como o videogame Xbox, da própria Microsoft, permitindo partidas multiplayer entre console e smartphone. Para os desenvolvedores, a boa notícia é que o Windows Phone 7 será compatível com o Silverlight, tecnologia para desenvolvimento na web, e com XNA, ferramenta de criação de jogos para Xbox. Winik está confiante que o novo sistema atrairá o interesse de muitos desenvolvedores: “A Microsoft tem excelência em desenvolver ecossistemas e queremos fazer o mesmo no mundo móvel”. Para fisgar as operadoras, a empresa oferece a criação de versões de sua loja de aplicativos com a marca das teles, com integração ao billing e acordos de revenue share. Pelo menos oito fabricantes já anunciaram interesse em adotar o Windows Phone 7: LG, Samsung, Dell, HTC, Sony Ericsson, Asus, HP e Toshiba.

Mercado de massa

A mesma transição do segmento corporativo para o mercado de massa que a Microsoft está fazendo a RIM também almeja. Isso já é perceptível no hardware: de um ano para cá, seus modelos de smartphones ganharam design mais atraen- te, telas sensíveis a toque e aplicativos de entretenimento, como MP3 player etc. Essa estratégia será complementada com a chegada do Blackberry OS 6.0, previsto para este tri- mestre. Ele será compatível com interfaces multi-touch, oferecendo uma experiência similar à do iPhone. Os menus também serão reformulados: “Percebemos em pesquisas que as listas dos menus eram grandes. Agora será em um estilo pop-up, com menos opções e sensível ao contexto”, explica Alex Zago, gerente de inteligência de mercado da RIM para América Latina. O novo sistema operacional da RIM terá integração com redes sociais e feeds RSS, além de um espaço na home screen para busca universal, com resultados encontrados tanto na memória do aparelho quanto na Internet. A maior novidade do Blackberry OS 6.0 estará em seu novo browser, que suporta HTML5 e cuja renderização é baseada na tecnologia webKit. Essa renderização especial, aliada às técnicas de compressão de dados características da RIM, promete fazer do novo navegador um dos mais rápidos do mercado. “Vamos manter as qualidades conhecidas do BlackBerry e tirar algumas das desvantagens que tínhamos em relação à concorrência”, resume Zago. Enquanto a maioria dos sistemas operacionais móveis tem como alvo principal celulares top de linha, o recém-lançado Brew MP, da Qualcomm, mira em smartphones baratos. Sua proposição é ser um OS capaz de realizar tarefas básicas que caracterizem um celular como smartphone sem demandar um chipset muito avançado e caro para o fabricante. Além disso, a Qualcomm oferece a interface com o usuário pronta para ser instalada, junto com o OS. HTC e Samsung gostaram da ideia e lançaram os primeiros modelos nos EUA e na Ásia. Na América Latina, as operadoras da América Móvil (Claro, no Brasil) serão as primeiras a ter aparelhos Brew MP em suas prateleiras. Para atrair desenvolvedores, o CEO da Qualcomm, Paul Jacobs, argumentou durante o evento Uplinq, em San Diego, em junho passado: “No Brew MP a oportunidade está na escala. Não estamos falando de dezenas de milhões de terminais, mas de centenas de milhões”. Smartphones baratos são também o alvo da Samsung ao criar o Bada, que opera em processadores de 400 MHz, enquanto Android e Windows Mobile requerem pelo menos 600 MHz. “Nossa ideia com o Bada é popularizar os smartphones, tal como fizemos com os aparelhos full touch screen no ano passado”, explica Diego Andrade, gerente de produtos de telecom da Samsung no Brasil.

iPhone e Android

Enquanto isso, Apple e Google não assistem de braços cruzados à movimentação da concorrência. Em junho, em sua tradicional apresentação anual, a Apple anunciou o iPhone OS 4.0, cuja principal novidade é permitir a execução de múltiplos aplicativos simultaneamente, o que era uma das maiores reclamações de usuários e desenvolvedores. A versão 3.0 do Android, por sua vez, é aguardada para o fim do ano. Os rumores são de que o Google tentará fortalecer a interface do usuário, com o objetivo de desestimular os fabricantes a criarem versões personalizadas, o que estaria causando a fragmentação do sistema e atrapalhando os desenvolvedores. “Vejo o Android como o sistema que está evoluindo mais rapidamente, em pequenos passos ao longo do ano”, comenta Siqueira, da LBS Local. A briga pela preferência de fabricantes, desenvolvedores e consumidores ainda está longe de acabar. Mas uma coisa é certa: dificilmente tantos sistemas operacionais coexistirão por muito tempo. “Vão sobreviver aqueles sistemas que se integrarem com outras plataformas e se massificarem”, resume Winik, da Microsoft.
Fernando Paiva
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