Onde o turnkey não acaba
Fábio Koleski
A privatização trouxe mudanças na construção de redes, mas os
grandes backbones continuam na mão de integradoras.
Dois anos depois da privatização das operadoras brasileiras de telecomunicações,
poderia se imaginar que as empresas de construção e manutenção de redes já
teriam passado por todas as mudanças necessárias para viverem em um clima de
tranqüilidade. Não é isso, porém, o que vem ocorrendo. Por um lado, as
empresas que sempre trabalharam com redes locais estão em um clima de incerteza
e desafio devido às novas formas de remuneração e contratação. Por outro, a
grande expansão dos backbones das teles foi feita com base em contratos que
exigem alto nível de financiamento, fazendo com que eles optassem pela fórmula
do turnkey. O que também não é interessante para os construtores de menor
porte.
"A construção dos backbones exige três insumos básicos: cabos ópticos,
equipamentos e mão-de-obra, em contratos milionários. A exigência de
financiamento é muito alta e quem pegar a obra deve conseguir recursos a um
custo baixo, o que só acontece no mercado internacional. E quem tem capacidade
para buscar estes recursos são os grandes fornecedores internacionais de cabos
ou equipamentos", diz Henrique Furtado, diretor executivo da Tele Redes. "Com
isso, estes fornecedores assumem o turnkey e subcontratam os construtores. O
resultado é que estes acabam perdendo muito de sua margem de lucro", completa.
Segundo Marcelo Rocha, presidente da entidade que agrega os fornecedores de
serviços de redes, a Abercortel, a longa distância é a maior responsável pela
movimentação das empresas construtoras de rede. Embora não tenha os números por
segmento, garante que os maiores clientes são as carriers, incluindo aí não
apenas a Embratel e a Intelig, mas também as autorizatárias que estão formando
suas próprias redes, como Pégasus, MetroRED, as empresas de energia e até mesmo
a Petrobrás, que está construindo uma rede sobre seus gasodutos. Em seguida,
pelo volume de contratação, vêm as operadoras locais provenientes do sistema
Telebrás e pelas as empresas-espelho locais. O resultado é um grande aumento no
faturamento do setor. Ele movimentava, antes da privatização, entre R$ 2
bilhões e R$ 3 bilhões por ano, segundo Marcelo Rocha. Hoje, este número está
na casa dos R$ 4 bilhões. Cifra que deve se manter em crescimento até o
cumprimento das metas da Anatel, em 2002.
Superação
A entrada de grandes fornecedores como integradores dos backbones era prevista
e até mesmo considerada inevitável por muitos construtores brasileiros. Mas,
logo após a privatização, seus temores mudaram para outro ponto: a entrada no
Brasil de construtores estrangeiros, que, com relações bem-estabelecidas com as
holdings que passaram a controlar as teles brasileiras, poderiam ser
contratados de forma preferencial. "No início de 1999, chegamos a ir à Justiça
contra a Telefônica, por dar preferência a empresas de construção de origem
espanhola, que já tinham relacionamento com a holding. De fato, estas empresas
pegaram vários contratos, mas depois as teles verificaram que os brasileiros
tinham boas soluções também. Continuamos acompanhando de perto este assunto,
mas a situação melhorou muito depois de maio do ano passado, quando a
Telefônica passou a fazer concorrências para escolha dos fornecedores. E, com a
publicação do regulamento de compras da Anatel, em agosto do ano passado, as
operadoras ficaram obrigadas a não dar este tipo de preferência", diz Marcelo
Rocha.
Outro ponto que preocupou o mercado, a falta de mão-de-obra qualificada, também
acabou sendo resolvido em pouco tempo. Técnicos em rede eram um recurso escasso
depois de um período de anos sem grandes obras de expansão da planta brasileira
e foi preciso um esforço conjunto de entidades sindicais, operadoras e empresas
de construção para a formação de novos profissionais. A falta de técnicos de
telefonia chegou a um ponto tão dramático que no início de 1999 a Telefônica se
queixava que, ao aumentar o volume de contratos com um fornecedor, este
"roubava" funcionários de outro fornecedor também contratado por ela,
atrasando, de qualquer modo, o cumprimento das tarefas.
"Chegou a haver, sim, este tipo de canibalização e todos compreenderam que era
necessário aumentar rapidamente o número de profissionais. Para tanto, as
operadoras colaboraram com o fornecimento de know-how e laboratórios. Já os
fornecedores treinaram mão-de-obra em conjunto com o Senai e os sindicatos.
Hoje o problema não mais existe e temos 100 mil profissionais neste setor",
explica Rocha.
Problemas locais
Se na longa distância as mudanças se deram a partir da demanda por
financiamentos maiores, nas redes locais a relação entre operadoras e
construtoras foi totalmente alterada, com a introdução de novas formas de
remuneração. Antes, as operadoras contratavam, separadamente, várias empresas
de construção e manutenção de redes para cuidarem de sua planta. A remuneração
era por número de terminais reparados ou implantados. Hoje, as operadoras fazem
contratos mais amplos: os fornecedores não só constroem e fazem a manutenção
das redes como passam a ser os responsáveis por setores das plantas. Tornam-se,
enfim, "mini-operadores", gerenciando a infra-estrutura das teles. E são
remunerados de acordo com o desempenho destas redes, sendo obrigados a cumprir
os índices de qualidade da Anatel (número de reparos, prazos de atendimento
etc.) sob pena de receberem uma remuneração menor.
"O problema é que a nova forma de contratação e remuneração que as operadoras
vêm adotando não tem precedentes no Brasil. Não sabemos até que ponto isto pode
dar certo. Por ser inédito, nem as próprias teles têm referências anteriores de
como remunerar. Muitos fornecedores de serviços desistiram de entrar neste
modelo. Nós, por enquanto, estamos trabalhando no vermelho em todos os
contratos, apostando que o lucro virá no futuro. É um pouco de vôo cego", diz
Kalil Cury, presidente da Mastec-Inepar.
Mas nem tudo neste novo sistema traz problemas para os fornecedores. Entre as
vantagens está a possibilidade de ter uma visão de maior prazo e poder mostrar
melhor o seu serviço. "Os fornecedores precisam ser maiores para conseguir
contratos deste tipo, pois precisam bancar os financiamentos pedidos. Mas,
principalmente, precisam ter boa performance e isso acaba fazendo uma seleção
entre as empresas, fazendo com que só as melhores continuem. O que é bom para
todos", diz Cury.
Concentração
Um dos primeiros efeitos da privatização para os fornecedores foi a
concentração dos contratos. Um marco importante ocorreu com a Telefônica, em
meados de 1999, quando ela não só reduziu drasticamente o número de empresas
contratadas como limitou a subcontratação de mão-de-obra a um máximo de 20% do
efetivo de pessoal. As outras teles usaram o mesmo modelo, porém sem impor
tantos limites à subcontratação. "Não sei dizer o número de empresas que
acabaram fechando ou saindo do setor por causa disso. Mas, antes da
privatização, 250 fornecedores tinham contratos com as teles. Hoje, este número
está em cerca de 70 ou 80", diz Marcelo Rocha, da Abecortel. "Acontece que
muitas empresas passaram a prestar serviços apenas como subcontratadas. O que
as teles fizeram foi racionalizar a administração dos fornecedores", completa
ele.
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