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ESPECIAL - Backbones
TECNOLOGIA ÍNDICE
 
A multiplicação das fibras

Walter de Sousa

Fabricantes de fibras ópticas estão confiantes no crescimento do setor e acreditam que o boom ainda vai acontecer. Por isso, não perdem tempo em trazer as novidades tecnológicas para o Brasil.

O mercado de fibras ópticas está mais aquecido do que nunca. Com um crescimento médio de 40% ao ano no mundo, os fabricantes de fibras, cabos e equipamentos correm atrás dessa demanda explosiva. Se nos EUA a febre de interconexão ultrapassa de longe as projeções do passado, com as empresas pedindo prazo de 72 semanas para a entrega das encomendas, no Brasil ela deverá alcançar ápice similar, na opinião dos próprios fabricantes, nos próximos três ou quatro anos. Segundo dados da Ciena, que constituiu uma subsidiária no Brasil em abril deste ano, o mercado brasileiro de telecomunicação, estimado em US$ 18 bilhões, deverá saltar para US$ 45 bilhões em 2003, ampliando os serviços de dados em 300%.

"O desenho das redes brasileiras se manteve estável durante a primeira metade da década de 90, mudando com a desregulamentação entre 1998 e 1999", analisa Foad Shaikhzadeh, diretor da Furukawa. Para ele, o mercado começa a mudar para valer em 2002. Tecnologias de ponta estão disponíveis no mercado mundial e brasileiro quase simultaneamente. Falta, no entanto, um trabalho de aculturação do mercado de redes. "Existem alguns mitos como o de que fibra óptica é somente para telefonia", exemplifica Cláudio Mazzali, especialista da Divisão de Produtos para Telecomunicações da Corning, empresa que tem a patente da fibra óptica, inventada em 1970.

As expectativas positivas se apoiam especialmente no crescimento, à velocidade da luz, dos novos serviços ligados às telecomunicações como o e-commerce, a Internet a cabo, videoconferência, comunicação online etc. Todas elas exigem banda passante mais larga. As redes, por sua vez, precisam ser estruturadas de modo a propiciar um maior espectro de banda, para contemplar um planejamento de médio prazo com vistas a tecnologias vindouras. É aí, então, que o usuário se depara com uma verdadeira torre de babel.

Esperanto óptico

A exigência de maior banda acontece em paralelo à exigência de maior capacidade de dados dos sistemas de telecomunicação. No entanto, o usuário que teve sua rede estável durante a última década, ao decidir atualizá-la encontrará no mercado uma grande variedade de opções tecnológicas.

"Apesar das tecnologias competirem entre si, não existe uma solução universal; todas são complementares", afirma Shaikhzadeh, da Furukawa. No caso das fibras ópticas, o que impera ainda é o modelo standard monomodo, convencional. "A vantagem dessa fibra em comparação a uma Leaf, por exemplo, que permite a tecnologia DWDM, é que esta última custa três vezes mais que as monomodo", diz Celso Arantes Simões, gerente de marketing da Xtal, empresa que dispõe somente das fibras standard. A Leaf é a fibra da Corning que permite o DWDM, uma solução tecnológica que aproveita melhor o espectro de luz preenchendo-o com feixes de laser de diferentes comprimentos de onda. A partir dessa tecnologia os cabos são desenvolvidos para impedir efeitos não-lineares dos feixes de luz, o que causaria a dispersão dos dados. No caso da própria Corning, sua solução é o cabo Leaf NZD (Non Zero Dispersion).

"O que estamos repetindo nos nossos seminários e minicursos é a idéia de que vale a pena investir mais inicialmente e ter uma grande economia daqui a cinco anos, quando a demanda for bem maior que a atual", avalia Mazzali. A tecnologia DWDM também exige equipamentos capazes de comutar ondas de 16 lambdas de comprimento, por exemplo. Como cada lambda equivale a 2,5 Gb, a capacidade de transmissão é alta demais para os equipamentos que trabalham com as fibras convencionais.

Por outro lado, existem tecnologias, como o DWDM, que ampliam o potencial das redes convencionais. "Não podemos dizer que a Leaf vai substituir de vez a monomodo, pois a capacidade desta última nunca foi levada ao limite", rebate Simões, da Xtal.

Empresas como a Lucent, que introduziu o DWDM no mercado em 1995, falam até em soluções ópticas que dispensam o meio físico. "Podemos ter um sistema semelhante ao wireless, mas transmitindo luz em vez de rádio, sem a necessidade da fibra óptica", afirma Rodrigo Garcia, gerente de tecnologia da Lucent. O sistema terá vantagens como a não-necessidade de licença da Anatel para uso no mercado; dispensará a análise de espectro, pois ao trocar o rádio pela luz não haverá interferências, o que permitirá, ainda, a sobreposição de redes. A solução poderá ser usada em redes de até cinco quilômetros, pois terá comprimento de ondas de cinco lambdas. "Ela só estará disponível daqui a dois anos", avisa Garcia.

No mercado de cabos ópticos desde 1993, a Alcatel tem produtos para banda passante alta, como a fibra Gigalight e os cabos Adventum, por exemplo. "A Alcatel participa de todos os comitês de normalização e tem cinco propostas de protocolos", conta Eduardo Miqueleti, gerente de vendas e de marketing da Alcatel Data Cable.

A empresa está lançando a tecnologia Netclear, uma solução de cabeamento estruturado que aumenta o desempenho dinâmico das redes, ajustando a relação sinal/ruído, indicada tanto para produtos horizontais quanto para backbones. A Netclear está presente no cabo LANmark 1000. Aliás, foi com a mesma marca, versão 350, que a Alcatel entrou no mercado.

Quanto ao futuro das redes metálicas, apesar da grande demanda que ainda apresentam no país, há um prazo tecnológico para que acabem. "E deve ser entre dois ou três anos, com um pequeno consumo residual posterior", arrisca Shaikhzadeh, da Furukawa. Já o gerente de vendas da Corning, Carlos Bilharinho, revela onde se encontra a sobrevida dessa tecnologia: "Hoje a fibra óptica já é mais barata que o cobre, os equipamentos é que ainda não viabilizaram a nova tecnologia".

Equipamentos de ponta

A tecnologia de ponta da Lucent é o Nexabit, equipamento capaz de efetivar a comutação de milhões de pacotes de luz a uma altíssima velocidade. O equipamento estará no mercado no final do ano.

No segmento de backbones, a Ciena dispõe de uma larga paleta de opções em equipamentos para redes ópticas que garantem comutação inteligente e provisionamento em tempo real. Para Arely Castellon, vice-presidente para a América Latina da Ciena, a adoção do DWDM no País o coloca numa posição invejável, pois a tecnologia lhe dá oportunidade de modernizar imensamente sua rede de backbones. A subsidiária brasileira já dispõe de produtos para o transporte em DWDM nos anéis metropolitanos, para redes inteligentes e para o transporte óptico de até 2 Tbps de voz, vídeo ou dados.

Diante da gama de tecnologias de fibras, cabos e equipamentos, como fica o desenho das novas redes? Se não existe solução universal, como comutar as várias línguas da babel óptica? "O segredo para nós, fornecedores de infra-estrutura de rede, é não ter nenhum preconceito", defende Shaikhzadeh, da Furukawa. Para ele a combinação de tecnologias, desde que permitam soluções para um futuro de médio prazo, são justificáveis. Aí entram as redes mistas de fibras ópticas e coaxiais e tecnologias que colocam DWDM em fibras convencionais.

"Há um fator determinante nesse planejamento que é a relação custo/benefício", lembra Bilharinho, da Corning. Apesar da rápida ascensão da fibra óptica ainda não é comum o chamado fiber to the desk, ou seja, a extensão da fibra até a mesa do usuário. O único país que dispõe dessa estrutura hoje é a Alemanha. "A tendência fica com as fibras dedicadas", afirma Mazzali, especialista da Corning. Isso quer dizer fibras específicas para backbones, anéis regionais, anéis metropolitanos, redes de acesso e redes internas. Esse sistema híbrido leva a uma outra questão, a de que não basta estar up-to-date com as tecnologias norte-americanas, por exemplo, pois o Brasil apresenta economia e realidade diferentes.

Mesmo nas redes globais a mistura prevalece. "Projetos de longa distância costumam combinar no mesmo cabo fibras Leaf e standard, ou seja, de 96 fibras, entre 12 e 24 são Leaf", afirma Simões, da Xtal. A rede da Petrobrás paralela ao gasoduto Bolívia-Campinas usa cabo misto conforme as regiões que atravessa. No Pantanal mato-grossense, opta-se pelo link longo, substituído pelos cabos tributários quando a região exige capilaridade da rede.

"A instalação de uma rede exige do operador um profundo estudo de caso; há um leque de opções e cada região requer soluções particulares", diz Garcia, da Lucent. Todas essas soluções, evidentemente, devem se basear na perspectiva de uma rede com folga para futuras demandas de banda. "Há tendências como a migração dos serviços para aplicações wireless, o que vai exigir mais banda; agora, a exigência também muda de região para região", explica o gerente de tecnologia da Lucent.

Como a tecnologia funciona a partir de um irônico moto contínuo - criam-se soluções para problemas antigos ao passo que novos problemas são criados -, as tecnologias envolvidas nessa ampliação de banda confrontam novo desafio. "Se você tem hoje banda em excesso, certamente surgirão rapidamente tecnologias que vão arrumar uma forma de ocupá-la", avalia Mazzali, da Corning. Nessa corrida quântica entre tempo e espaço, a indústria de tecnologia segue em ritmo febril.

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