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ESPECIAL - Corporate broadband
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Na rota do amadurecimento

Eduardo Marcondes *

Tudo indica que, em breve, a oferta de infra-estrutura e de serviços será muito grande com a queda no preço, mas será que a demanda virá na mesma velocidade?

O mercado de banda larga corporativa está prestes a chegar à maturidade, mas ainda passa pela indefinição da adolescência.

Para saber quais dentre os novos e antigos provedores de serviços estão realmente trabalhando com a chamada banda larga corporativa, é preciso entender qual mercado estão atendendo. Há acessos rápidos à Internet sendo vendidos como broadband, quando na verdade não são, pelo menos segundo parte dos consultores e especialistas. A maioria não hesita em dizer: banda larga começa mesmo a partir dos 2 Mbps.

Mas o fato é que cada vez mais empresas buscam atender o consumidor corporativo, com acessos mais rápidos e principalmente com banda larga.

Para se ter uma idéia, somente a Associação Brasileira das Empresas Prestadoras de Serviços Especializados de Telecomunicações (Telcomp) já reúne 27 players do mercado. E uma rápida consulta ao site da Anatel revela que pelo menos 120 empresas têm autorização para prestar Serviços de Rede e Circuito Especializados, totalizando 222 licenças até o fechamento desta edição. O número de licenças não pára de crescer, mas a questão é quantas empresas estão atuando efetivamente. E isso é um indício de que a oferta de comunicação em banda larga será muito grande, na expectativa de um mercado consumidor ainda maior. Atualmente, os maiores usuários dos serviços de banda larga são as instituições financeiras, os ISPs (provedores de acesso), as próprias teles e construtoras que investem em grandes empreendimentos imobiliários e prédios inteligentes. Especialistas do setor são unânimes em dizer que o mercado está em expansão. "A demanda, desde a privatização da Telebrás, tem tido um aumento anual de 70% de capacidade transportada requerida. Não há outros mercados no mundo que cresçam neste ritmo, a não ser os Estados Unidos. É um crescimento muito grande", define Ernesto Flores, sócio da consultoria McKinsey. De acordo com ele, o que atrai os grandes investimentos no Brasil é a perspectiva de que, durante os próximos três ou quatro anos, o aumento da demanda vai continuar ocorrendo com essa velocidade. E, na avaliação de Flores, o ritmo pode até aumentar. "O crescimento da economia associado com a queda de preços pode impulsionar o setor, num efeito muito grande. Os cálculos indicam que a cada ponto percentual de queda no preço, há uma aumento médio de três pontos percentuais na demanda. Ou seja, se os valores caem 20%, a demanda por banda cresce 60%."

Saúde - Caso Fleury
O Laboratório Fleury, em conjunto com a Vicom, investiu US$ 1,2 milhão para interligar cerca de mil médicos conveniados. O agendamento de consultas e o encaminhamento de diagnósticos ou resultados são os primeiros benefícios percebidos, além da possibilidade de se realizar videoconferências entre os médicos ou treinamentos através de streaming de vídeo, no futuro. Utilizando a banda larga, os médicos recebem imagens em alta resolução e poderão, com a ampliação do projeto, acompanhar ao vivo os exames de ressonância magnética ou ultra-som de seus pacientes, além de visualizar imagens dinâmicas. Calcula-se hoje que cerca de 30% dos dois mil pacientes diários do Fleury utilizem a Internet para pegar o resultado dos exames.

Saúde - Caso Albert Einstein
O Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, encontrou boas aplicações para a banda larga. Através de uma parceria com o provedor Ajato, da TVA, 50 apartamentos da nova ala do hospital e os consultórios médicos credenciados serão conectados por meio da rede, em um investimento de R$ 1 milhão. O sistema permitirá que os médicos tenham acesso às informações do paciente hospitalizado de onde estiverem. Será possível conversar com quem estiver internado por meio de videoconferência e, se o doutor quiser ouvir a opinião de um segundo especialista, só precisa localizar outro médico conectado.

Efeito da queda de preços

Isto significa que quem investiu na prestação de serviços em banda larga descobriu a galinha dos ovos de ouro? Flores acha que não. "Um ano atrás o broadband parecia bem promissor, mas hoje em dia sabe-se que não é bem assim, porque cresce a demanda de banda, mas não o faturamento. Transportar um bit tinha um valor há um ano e meio, hoje, custa 20% menos."

E os custos vêm caindo, confirma Álvaro Marques, presidente da Telcomp. Representam hoje menos da metade dos praticados na época do monopólio da Telebrás. O reflexo desta redução vai permitir que empresas de menor porte tenham mais acesso aos serviços corporativos em banda larga.

É certo, no entanto, que os provedores terão que se dedicar bastante para atrair esses clientes, porque, ao contrário das grandes corporações, as pequenas empresas não têm executivos ou especialistas que saibam identificar o custo/benefício da banda larga.

"Há bastante espaço para crescer", afirma Mauro Teixeira, diretor da unidade de negócios para o mercado corporativo da Intelig. Para ele, hoje somente as grandes empresas estão comprando banda larga, mas, com a queda de preços, novas aplicações exigindo mais banda se viabilizarão e o mercado tende a crescer muito.

O diretor administrativo e financeiro do provedor de serviços Matrix, Walter Maia, admite que o preço da banda larga e do acesso rápido para as microempresas ainda é muito alto. "Tome por exemplo o acesso garantido. Um link de 64 kbps custa em média R$ 1,1 mil mensais. Para uma empresa com faturamento anual de até R$ 120 mil ainda é um custo elevado."

O gerente de produtos broadband da Telemar, Murilo Brasil, enxerga no mercado SoHo, de micro e pequenas empresas, um grande desafio. Ele diz que o setor de telecomunicações está na fase vivida dez anos atrás pelos bancos, muitos deles voltados naquela época somente para grandes clientes. Como a característica desses grandes clientes é deter um forte poder de barganha, a lucratividade acabava prejudicada. Abrindo sua atuação para os menores, as instituições financeiras alavancaram sua receita.

Transportes aéreos- Caso TAM

O Projeto Delta, desenvolvido pela TAM, é um exemplo de como a instalação da banda larga pode permitir múltiplas aplicações, segundo o gerente de teleprocessamento da empresa, Sérgio Astro. "O projeto tem a concepção de resolver um problema de volume de dados e de performance." Como a empresa tem um crescimento de 30% ao ano, terá um problema de gargalo até o final deste ano em 192 kbps, caso não amplie a estrutura que utiliza, uma rede baseada em satélites. A equipe decidiu substituir a estrutura de satélite por uma rede de fibras ópticas com backbone próprio, além de procurar parcerias com outras empresas para o last mile. Os investimentos da ordem de US$ 1,5 milhão tiveram como foco principal a ampliação do tráfego de dados. "São informações sobre check in, consolidação de venda de bilhetes, informações de carga, corporativas, de vôos e aeronaves, enfim, tudo o que precisamos saber para operar os nossos aviões", explica Astro. Mas o executivo já tem em mente outras possibilidades de utilização da rede.

"Nós podemos refazer o nosso sistema de 0800 para que as ligações sejam recebidas localmente e transferidas para o call center em São Paulo através do IP, diminuindo os custos de operações." Outra idéia é aproveitar os horários em que a estrutura esteja ociosa para desenvolver outras atividades. "De 60% a 70% do nosso tráfego ocorre em horário comercial; existe um período noturno ocioso que poderíamos utilizar para fazer o treinamento de nossos agentes remotamente nas pontas, utilizando multimídia."

Prevendo o futuro

O diretor de engenharia da Diveo, Carlos Alberto Fróes Lima, aposta que a diminuição no valor cobrado pelo serviço não terá reflexo negativo no faturamento da empresa. "As empresas do mercado apostam nos clientes que têm em mãos, oferecendo bons serviços e boas soluções. Quando eu diminuo o custo da banda de 64 kbps, significa que eu também diminuí o custo da banda de 2 Mbps. O cliente salta para uma largura de banda maior, resultando em maior volume."

Percebe-se claramente que ainda haverá uma acomodação das diversas empresas que estão - e outras que ainda vão entrar - no mercado antes que a banda larga corporativa complete a maioridade. Pelas estimativas de Ernesto Flores, a partir de um determinado momento, sobrarão apenas três ou quatro empresas muito grandes, com amplitude nacional, prestando múltiplos serviços. A Anatel, por seu lado, quer que o País tenha muitos provedores de serviço. "As vias são públicas, como as estradas. Queremos que as telecomunicações sejam da mesma forma", disse Jarbas José Valente, durante o seminário Corporate Broadband, realizado pela Converge Eventos, em fevereiro último em São Paulo.

Marques, da Telcomp, concorda com Flores sobre a tendência de que apenas algumas realmente grandes se firmem no mercado, algo semelhante ao que ocorreu na Europa ou nos Estados Unidos. Mas ainda haverá espaço para inúmeros competidores.

"Com certeza haverá uma infinidade de provedores de diversos portes em todos os nichos. Quando a largura de banda deixar de ser um bem caro e passar a ser uma commodity, vai estar disponível para novas aplicações. A partir daí, se diferenciará quem for criativo", prevê Marques.

É por isso que a maioria das empresas faz um marketing de soluções customizadas, desenvolvidas a partir da necessidade de cada cliente, principalmente em se tratando de grandes corporações. São pacotes feitos sob medida, formatados a partir do portfólio de produtos da operadora de banda larga.

Serviço - Caso Kodak

A Kodak investiu US$ 120 milhões para criar o serviço que torna possível revelar uma foto em São Paulo e tirar cópias delas para a família que está no Rio de Janeiro, por exemplo, em apenas alguns minutos. A empresa fez uma parceria com a Vicom, para interligar suas 1,6 mil lojas Kodak Express em todo o Brasil. Além do envio de fotos para qualquer parte do País e até do mundo, será possível utilizar os arquivos digitais para compartilhar as imagens pela Internet ou fazer a manipulação digital.


Governo eletrônico

O governo federal vem desenvolvendo serviços que simplesmente não poderiam ser oferecidos sem a utilização do broadband. É o que garante o chefe do Departamento de Gestão Tecnológica de Rede do Serpro, Nauro Luiz Scheufler.

"Antes da banda larga, os principais serviços eram baseados em aplicações em mainframes com formatação de textos. Hoje com a Internet isso não é mais suficiente. Requisitos adicionais como segurança com certificação digital, criptografia e outros exigem maiores bandas de transmissão." Ele explica que a rede nacional forma uma intranet com acesso à Internet através de um complexo sistema de segurança. Os principais serviços são as aplicações corporativas em IP e ainda o que restou do SNA (a antiga arquitetura de rede), encapsulado em IP, além de voz e videoconferência.

A estrutura, que consome anualmente R$ 60 milhões, é utilizada também no atendimento ao público, com serviços disponibilizados pela Internet, como as declarações de IR pela rede. Além disso, existe o site Rede Governo (www.redegoverno.gov.br), portal que reúne mais de 3,7 mil serviços.

Em breve, o Serpro vai disponibilizar um gateway para permitir que usuários paguem tributos e taxas federais via rede, o que certamente vai exigir maior largura de banda.

Vantagens adicionais

Álvaro Marques acredita que a redução dos custos seja mesmo uma das principais razões que levam os empresários a investir em banda larga, além da possibilidade de alavancar negócios com um serviço diferenciado. Mas vários especialistas ouvidos por TELETIME concordam que a maioria dos usuários de corporate broadband ainda não se deu conta do potencial da ferramenta que tem em mãos, priorizando apenas a economia de custos internos.

Por enquanto, as principais aplicações da banda larga têm sido a interligação de sedes remotas das empresas (como matriz e filiais), a comunicação corporativa, a transferência de grandes volumes de dados e o acesso rápido à Internet. No futuro, o grande filão deverá estar concentrado em interatividade e imagem, ou seja, videoconferência em primeiro lugar, seguida de streaming de vídeo. Com tantas possibilidades, muitas vezes o investimento voltado a um tipo de benefício específico pode oferecer vantagens que não estavam incluídas no plano original (veja no quadro o projeto da TAM).

Varejo - Caso Magazine Luiza

A rede varejista Magazine Luiza, composta por 95 lojas, foi interligada a 43 fornecedores como Arno, Brastemp, Panasonic, Siemens, Sony e Tramontina entre outros, em uma parceria com a integradora de sistemas NeoGrid. O projeto utiliza backbones da CTBC Telecom (para Internet) e da Embratel (dados e voz) e, desde sua implantação, fez os pedidos de compra triplicarem. Os prazos de entrega foram reduzidos de dez dias para uma semana, e o número de pedidos em atraso apresentou queda em torno de 60%.

O esquema funciona assim: quando uma filial está com um estoque de determinado item abaixo do ideal, o sistema faz a sugestão da compra e, se aprovado, o pedido é automaticamente publicado na rede. Através de um circuito de mensagens eletrônicas, o fornecedor acessa a informação e confirma o recebimento da requisição, informando a quantidade e a data de entrega. Ao mesmo tempo que o fornecedor efetua o faturamento, o Centro de Distribuição é avisado da remessa e prepara o recebimento.

Sinergia

Aliás, o valor a ser pago pela entrada no sistema de banda larga e desenvolvimento de aplicações ainda é muito elevado e pode ser desfavorável ao se decidir pelo broadband. Por isso, o consultor da McKinsey Ernesto Flores avisa que é preciso haver sinergia entre os envolvidos para que ocorra o crescimento do mercado. "O broadband não está se dando tão bem quanto poderia porque não tem conteúdo, e não tem conteúdo porque ainda não tem muitos usuários. É preciso saber o momento certo de investir em novos produtos."

A questão é saber quem veio primeiro, o ovo ou a galinha. Afinal, enquanto o custo do serviço é alto, perde-se uma boa base de clientes, mas estes preços poderiam baixar justamente se houvesse mais demanda, que por sua vez também ocorre quando há consumo maior. O circuito para que isso aconteça já começou, mas ainda precisa de algum impulso.

Mas de uma coisa ninguém duvida: o broadband veio para ficar e vai revolucionar a maneira como as pessoas interagem. Depois do telégrafo, do telefone e da Internet, a banda larga vem mudar conceitos e vai significar uma mudança na maneira como as empresas fazem seus negócios. Alguém duvida? Os provedores que investiram alto para oferecer banda larga já fizeram suas apostas.

* Colaborou Sandra Regina da Silva

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