Flexibilidade e versatilidade
André Mermelstein e Luiz Moura
As opções que fornecedores e integradoras oferecem para quem quer
entrar no negócio de redes multisserviços públicas e competitivas.
Os grandes fornecedores de equipamentos e as empreiteiras e integradoras
enxergam mais uma grande oportunidade de expansão de negócios com as futuras
instalações das empresas-espelhinho. A estratégia em muitos casos é oferecer
soluções robustas e compactas, restritas a serviços de voz, apropriado para
pequenas localidades. Os equipamentos são, no entanto, prontos para upgrades,
preparados para aplicações como comutação por pacotes e transmissão de dados,
em função da previsão da sofisticação destas redes. Em outros casos, os
fornecedores já fornecem soluções totalmente multisserviços.
Tanto a Lucent quanto a Ericsson admitem ter recebido consultas de diversas
empresas de diferentes origens, desde pequenas empresas locais, sem tradição em
telecomunicações, como grandes corporações ligadas ao setor.
As empresas de TV paga aparecem entre as principais interessadas, dizem eles.
Mas as companhias energéticas não ficam atrás. Para estas últimas, na avaliação
de fontes ligada a indústria de telecomunicações, as espelhinhos devem
representar uma grande oportunidade de agregar ganhos aos seus negócios. Convém
lembrar que além dos backbones, as chamadas utilities (empresas provedoras de
infra-estrutura) também dispõem de outro importante trunfo: os postes, que
facilitam a capilaridade das redes para a entrega de serviços às residências e
negócios.
Equipamentos
A Lucent oferece um produto que diz ser sob medida para as novas empresas
competitivas de telefonia: a central de comutação BZ 5000, desenvolvida a
partir das tecnologias Batik e Zetax, empresas nacionais adquiridas no ano
passado, especialmente para operar em pequenas localidades. Como explica Wagner
Ferreira, diretor comercial da Lucent, o equipamento tem flexibilidade para
atender de 32 a 8,7 mil linhas.
A central pode também ser adaptada para operar transmissão de dados, garante
Ferreira.
O diretor comercial da Lucent diz que a empresa deverá desenvolver para as
espelhinhos um atendimento semelhante ao feito recentemente para a Telemar no
Ceará. Neste caso, em localidades de baixa concentração populacional, a solução
foi aliar centrais BZ 5000 a sistemas DECT de transmissão sem fio, usando o WLL
(Wireless Local Loop).
Ricardo Merzvinkas, gerente comercial da Ericsson, também considera
interessante o potencial de mercado das espelhinhos, mas não espera uma
significativa demanda por alta sofisticação nestas áreas. "Existem grandes
grupos inclinados a investir nestas operações, mas não se pode negar que estas
áreas já foram negligenciadas pelas espelhos. A demanda nestas localidades será
basicamente por serviços de voz", ele diz.
A Ericsson aposta na procura por soluções turnkey tanto para redes wireline
(com cabos) quanto WLL. Entre as soluções sem fio, devem ser adotados em grande
escala sistemas ponto-multiponto na freqüência de 3,5 GHz - que está para
ser licitada pela Anatel, diz Ferreira. O produto no qual a Ericsson mais
aposta para este novo mercado são as plataformas AXE, para comutação de
telefonia fixa, e MSC, para WLL.
A Trópico está trabalhando com o que denominou "Projeto Espelhinho". Segundo o
diretor Luiz Aquino, a solução que a empresa oferece já é toda baseada em IP,
inclusive para voz.
No sistema, desenvolvido em parceria com a Cisco, as localidades são atendidas
por "armários IP". Em outras palavras: as centrais são multisserviços, e destas
caixas IP podem sair tanto conexões de vídeo quanto de dados ou voz. O sistema
faz toda a comutação por pacotes, e cada assinante é conectado, através do
armário, ao VSC (Virtual Switching Control). Cada armário atende até 480
linhas. No caso das TVs a cabo, Aquino afirma que os sistemas atuais podem ser
integrados às novas centrais.
Segundo Aquino, o projeto só se torna economicamente viável se for implantado
em mais de uma localidade. "É preciso ter escala. Não se pode pensar em custos
acima de US$ 500 por assinante", diz o diretor da Trópico. A empresa não faz a
venda diretamente aos operadores, trabalhando apenas com integradoras.
Segundo o diretor geral do Networking Group da Alcatel, Paulo Roberto
Bergamasco, não se pode falar em uma solução única para todas as cidades, pois
as características são muito diferentes. E mais: como muitas das empresas
entrantes neste mercado não têm experiência no setor e muitas vezes sequer
contam com um engenheiro de telecomunicações, a Alcatel entende que deve
oferecer mais que só o equipamento. "Nossa oferta inclui todo o suporte
necessário para a montagem e operação da rede, além do financiamento, que passa
por uma análise do business plan de cada operadora", explica.
Serviço completo
Em relação à tecnologia, a Alcatel vai oferecer desde soluções tradicionais de
voz, com comutação por circuitos, de baixo custo até equipamentos totalmente
IP, frutos da aquisição da Newbridge. Bergamasco adverte porém que, embora as
soluções totalmente IP possam ser atrativas do ponto-de-vista da tecnologia, o
serviços de voz tradicional ainda são mais baratos e eficientes para o
cumprimento das metas. Além disso, as soluções podem passar por futuros
upgrades para terem novos serviços, como ADSL.
Fornecer a solução completa em regime de turnkey também é a meta da Siemens,
segundo seu diretor executivo de vendas Roberto de Lima. "Faremos o projeto
completo, inclusive a análise de mercado e o business plan.Podemos até operar o
sistema", diz de Lima.
A solução da Siemens para as espelhinhos é o Surpass, que permite a
convergência de voz, vídeo e dados. De Lima conta que o sistema é totalmente
configurável para cada necessidade e expansível para novos serviços. Ele
calcula que um valor razoável para a montagem de uma operação média, embora
esta situação possa variar muito de cidade para cidade, seria de US$ 600 a US$
800 por linha, contando aí também a construção de toda a rede. A solução da
Siemens pode ser integrada com sistemas de cabo e MMDS. Para o acesso por
microondas a empresa conta com tecnologia da Floware, empresa adquirida pela
Siemens, cujos sistemas podem vir até a ser fabricados localmente, se a demanda
exigir.
Construção
Já entre as empreiteiras, a Construtel prevê boas chances de atuar no mercado
das espelhinhos graças à sua experiência no fornecimento de turnkeys para
condomínios e pequenas localidades, especialmente em Plantas Comunitárias de
Telecomunicações (PCT - programa que previa a construção de redes privadas para
posterior doação à Telebrás em troca de ações). "Executamos mais de 500
projetos em pequenas localidades e mais de cem em condomínios, para 30 mil
usuários", garante Márcio Araújo de Lacerda, presidente da Construtel.
A empresa está entre as diversas empreiteiras que adquiriram editais da Anatel,
engrossando o grupo predominante entre os interessados nas novas operações. A
procura justifica-se não exatamente por planos de explorar diretamente esta
área, mas de informar-se sobre as necessidades para atender a este novo
mercado.
Lacerda explica que a principal peculiaridade nos projetos das espelhinhos
deverá ser a flexibilidade. "As plataformas deverão ser pequenas e ao mesmo
tempo as mais flexíveis possíveis, de tal forma que seja viável a partir de
pequenos ajustes oferecer diferentes serviços, como transmissão de dados, para
acompanhar o crescimento da demanda", explica ele.
Integradoras como a Furukawa vão aproveitar sua expertise tanto em telefonia
quanto em TV a cabo para montar sistema que integrem ambos os serviços. Segundo
o diretor Foad Shaikhzadeh, a Furukawa quer mostrar aos operadores os
benefícios de escala que ganham com uma rede multisserviços. O investimento nos
equipamentos, explica ele, vai depender da infra-estrutura que a empresa já
tem. Se for uma operadora de TV a cabo com rede em banda larga, certamente terá
uma implantação mais simples que uma que sai do zero. Para o primeiro caso, a
Furukawa pode oferecer uma solução já totalmente IP. "O que importa mesmo", diz
Shaikhzadeh, "é o levantamento mercadológico. A análise tem que ser feita do
ponto-de-vista competitivo, vendo o que as incumbents já oferecem no local e
quais são as necessidades", completa.
Em relação ao mercado, Shaikhzadeh é partidário da idéia de uma espécie de
clusterização, ou seja, a integração de diversas redes locais, com serviços
múltiplos, para ganhar escala. Há também, aponta, um problema com o
financiamento, crítico para este tipo de operação. "Para um projeto muito
pequeno, dificilmente haverá um investidor interessado. Se for muito grande, há
a necessidade de garantias. Os estudos devem ser feitos caso a caso", ele diz.
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