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ESPECIAL - Internet em alta velocidade 2001
CONTEÚDO ÍNDICE
 
À procura da killer application

Eduardo Marcondes

Pesquisas indicam o perfil do usuário de Internet veloz e seu hábito diante da tela do computador. Música, games e comunicação através de mensagens instantâneas são os preferidos. Então, qual conteúdo vai alavancar o mercado?

Será que você saberia dizer rapidamente quais as principais vantagens de se instalar um acesso em alta velocidade em uma residência? Foi o que tentou detectar uma pesquisa do Ibope sobre o tema. De acordo com a pesquisa, os atrativos apresentados atualmente interessam principalmente aos internautas aficionados, pessoas que optam por desembolsar entre R$ 100 e R$ 150 mensais para aliviar a conta telefônica de uma média de cinco horas diárias conectadas à Internet.

Desenvolvendo atividades profissionais ou de lazer, o usuário do acesso em alta velocidade aproveita a navegação para consultar informações sobre seu programa de TV favorito, utilizar jogos on line, baixar arquivos ou música em formato MP3 e se comunicar por meio de sistemas de mensagem instantânea, de acordo com dados do Ibope. Repare que não estão entre os campeões de acessos as compras on line, o acesso a notícias, nem o uso de sistemas de home banking. A pesquisa foi apresentada pelo diretor do Ibope Flávio Ferrari, durante o seminário "Internet em alta velocidade", realizado pela Converge Eventos.

Então, qual será o melhor modelo de negócios para esse mercado? Será que os investimentos em conteúdo informativo para atrair um púbico específico vão se perder enquanto os usuários jogam ou ouvem música?

Para se definir qual o futuro da produção de conteúdo na web é preciso analisar outros dados do mesmo instituto. De acordo com a pesquisa, quase 40% dos usuários que têm Internet veloz podem ser considerados pessoas "racionais", que utilizam o recurso como ferramenta de trabalho. Cerca de 30% pertencem à "geração Internet", jovens que já nasceram em um mundo conectado, afeitos às novas tecnologias de rede. Outro grupo é o dos "descuidados" (20%), pessoas que deixam de sair com os amigos nos finais de semana para gastar horas em frente ao computador.

Uma análise cuidadosa do perfil desses usuários permite concluir que, por enquanto, o acesso rápido atrai principalmente as pessoas que entendem do assunto, que gostam de informática, que precisam ou querem estar conectadas. A demanda por banda larga, de acordo com Flávio Ferrari, está diretamente ligada ao estágio do negócio, que tem muito o que crescer. Ainda falta conquistar a atenção de um grande público, o qual não tem interesses específicos, mas que quer acessar a Internet rápida por algum motivo.

Para atraí-los, é preciso encontrar aplicações diferentes, novas. Afinal, qual a killer application da produção de conteúdo deste mercado, aquela aplicação única e exclusiva do novo acesso, capaz de interessar a qualquer tipo de pessoa? Embora exista muita especulação sobre o assunto, a resposta definitiva é que ninguém sabe. Ou se sabe, não diz.

Momento certo

"O broadband está no início do início do início, estamos criando alguma coisa a mais para que a pessoa pague para acessar este conteúdo. Mas tem que ser um conteúdo que faça sentido", admite Rubens Mau, diretor da Abranet (Associação Brasileira de Provedores de Acesso e Serviços de Internet). O momento certo para que a Internet em banda larga se popularize depende desta resposta.

O gerente de estratégia da unidade de comunicações e alta tecnologia da Accenture, Paulos Melo, avisa que o principal por enquanto é que as empresas de produção de conteúdo se concentrem na conquista dos usuários: "É preciso oferecer uma gama de produtos diferentes, direcionados para segmentos específicos do mercado para que se possa cobrar por isso". O executivo explica que até há bem pouco tempo pensava-se que a publicidade poderia proporcionar um modelo de negócios viável, mas isso não aconteceu. Muitas "pontocom" quebraram e hoje as empresas precisam buscar um modelo de negócio que seja auto-sustentável. A solução para evitar o problema é investir em conteúdo: "Quanto mais serviços se tem, seja ele informativo, de e-commerce, comunicação e outros, mais fácil conseguir assumir esse papel de agregador de clientes", define Paulos Melo.

E, ao que tudo indica, a competição no setor vai ser acirrada. O vice-presidente da consultoria Bain & Company, André Castellini, prevê que no futuro próximo muita gente vai estar fazendo conteúdo para a Internet em alta velocidade. Segundo ele, diversos produtores novos vão aproveitar a facilidade de se criar produtos baratos e, em pouco tempo, terão ainda o auxílio das novas tecnologias. "Haverá mais players de fundo de quintal com conteúdo de qualidade." Só para se ter uma idéia, reflete Castellini, o tempo gasto em média para se fazer uma edição de TV por processos digitais já é 50% menor do que os analógicos. O custo para se fazer isso em uma ilha de pós-produção computadorizada, que exige um investimento simples, também é muito menor do que as antigas máquinas de fitas, que precisavam ser acopladas a diversos equipamentos profissionais com alto custo.

O fato é que, além de novos competidores - profissionais ou amadores -, as grandes empresas devem tentar também marcar presença nos diversos tipos de mídia. A idéia de que as provedoras de conteúdo vão desenvolver seus produtos em diversas plataformas, voltadas para a Internet em alta velocidade, a TV interativa ou os aparelhos celulares, por exemplo, é vista com naturalidade por Castellini. Para ele, a iniciativa será tomada não só pelo menor preço, mas também para atender à exigência do mercado.

Marcos Galassi, executivo da Lab One, empresa especializada em inteligência de produção e distribuição de conteúdo, concorda que haverá uma grande transformação na forma como se investe em produção atualmente: "Um determinado provedor vai criar um produto para a televisão, para o rádio, para a Internet, para um pequeno dispositivo como um palm top ou para o telefone celular, tudo simultaneamente". Galassi entende que o mercado de Internet em alta velocidade ainda está na fase da gestação e aconselha aos provedores de conteúdo que conheçam melhor as disponibilidades técnicas para se estabelecerem nas diferentes mídias existentes.

Sem perder o bonde

E as grandes empresas dão o exemplo, mostrando que estão de olhos bem abertos para essas tendências. A idéia é aproveitar a força de suas marcas para continuar tendo sucesso garantido nos diferentes formatos de mídia que surgirão com as transmissões de dados em banda larga.

O diretor comercial da Turner do Brasil, Anthony Doyle, explica que a empresa, que faz parte do grupo AOL Time Warner, aposta nos seus produtos de maior sucesso para fazer uma entrada marcante no mercado de Internet em banda larga. Tanto que o primeiro produto oferecido para que os operadores de TV a cabo enriqueçam seus sites é o material do Cartoon Network. Por isso, jogos, desenhos animados e esquemas de promoções virtuais foram desenvolvidos especificamente para a Internet em alta velocidade, utilizando-se os famosos personagens Johnny Bravo, Meninas Super-Poderosas, Dexter e muitos outros.

A novidade deve estar disponível aos operadores a partir da metade deste ano. Em seguida, serão lançados os produtos do canal CNN para banda larga e, depois, TNT, Boomerang, entre outros. "Nós estamos analisando o mercado para ver o que o consumidor quer. Estamos na fase de desenvolver estes produtos, que já existem em outros países, e temos um interesse muito grande em investir no Brasil. Se formos analisar os números de modo geral, de toda a América Latina, o Brasil tem uma participação de 40% de respostas às promoções do canal TNT, por exemplo. É um país que tem uma participação muito grande em termos de novas tecnologias em relação a toda a América Latina", explica o executivo.

O objetivo principal do projeto da Turner, no momento, não é gerar um bom faturamento, porque os acessos à Internet em banda larga ainda apresentam dificuldades, como define Doyle. "Os operadores estão adorando a idéia, a aceitação tem sido ótima porque o Cartoon Network é uma grande marca. Mas estamos longe de poder avaliar os resultados." De acordo com ele, o principal desafio agora é encontrar o melhor modelo de receita para viabilizar este tipo de conteúdo.

Mas uma coisa é certa: a empresa do grupo AOL Time Warner não perdeu tempo e fez investimentos de valores não revelados para entrar logo na era das conexões em alta velocidade, garantindo a presença da marca na mente dos consumidores.

"A gente está se posicionando não como um fornecedor de conteúdo de TV por assinatura, mas de conteúdo em todas as plataformas, de telefonia, de banda larga, banda estreita e TV."

A iniciativa está sendo seguida por uma série de empresas que lutam para firmar a marca e se estabelecerem fortes no mercado do acesso rápido, esperando pelo grande público consumidor. A habilidade de entrar no momento certo pode determinar quais serão as empresas dominantes. Quem ganha com a busca dos provedores de conteúdo por oferecer sempre o melhor produto é o usuário, ou melhor, o consumidor.

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