Velocidade basta?
Sandra Regina da Silva
Prestadores consideram que o serviço se vende apenas pela
velocidade, maior que a do dial-up. Mas um desenvolvimento mais rápido da banda
larga só mesmo quando os preços caírem e houver conteúdo.
O acesso à Internet em alta velocidade no Brasil ainda engatinha, mas o setor
espera crescimentos fabulosos no decorrer deste ano. Considerando cable modem
(incluindo aí o cabo e o MMDS) e ADSL, o número de assinantes hoje é inferior a
140 mil. Se as expectativas dos prestadores de serviço se confirmarem, 2001
será o ano do boom de acesso veloz. Para se ter uma idéia, empresas como Globo
Cabo, com o serviço Vírtua, e Brasil Telecom, com o ADSL Turbo, pretendem até o
final do ano ter cada uma números próximos aos atuais 140 mil do mercado total.
As taxas de crescimento esperadas para 2001 vão desde 200% até 1.400%,
considerando apenas os serviços que foram lançados até o fim de 2000.
Há muitas empresas lançando serviços, como é o caso de TV Cidade e W@y Brasil,
além da Telemar, que planeja comercializar o seu em breve. Outras devem surgir
anunciando seus produtos. Em pouco mais de um mês, CTBC Telecom e Horizon
conseguiram conquistar número considerável de assinantes (veja quadro na pág.
8). Tudo isso é uma mostra que há uma grande demanda.
As prestadoras são unânimes em afirmar que todos os que navegam na Internet
desejam um acesso rápido, fato constatado nas pesquisas realizadas por elas.
"Velocidade é o que todos buscam", diz Erik Fonseca, gerente de Internet da W@y
Brasil, operadora de TV a cabo em 33 cidades mineiras e também espelhinho em 11
delas, onde irá lançar serviço de voz e dados simultaneamente. "O acesso
discado não dá qualidade para muito conteúdo disponível para banda estreita",
completa. Eduardo Mendes Aguiar, gerente geral da TVC Marília, operadora de TV
a cabo no interior de São Paulo, concorda: "Na nossa pesquisa, todos reclamaram
da lentidão do sistema de telefonia tradicional. O usuário não consegue
enxergar nem o que já existe hoje".
Eles concordam em outro ponto: o usuário de acesso rápido ainda não sente falta
de conteúdo em banda larga. "Até hoje, ninguém reclamou e isso só iria
encarecer ainda mais o serviço, por exigir mais banda e mais velocidade",
pontua o gerente da TVC Marília.
Outros executivos, no entanto, acreditam que o usuário só terá percepção de
valor e de melhoria quando houver conteúdo em banda larga. "Só velocidade não é
atrativo suficiente. Precisa de conteúdo", opina José Carlos Henrique Alves,
diretor geral de operações do Ajato, o ISP da TVA. Essa conclusão levou o Ajato
a criar um portal contendo alguns provedores de contéudo, como música, jogos na
web etc. Mas a expectativa é que novas aplicações sejam desenvolvidas.
O gerente de produto da Brasil Telecom, Waldir Morgado, conta que a incumbent
fez pesquisa nas primeiras cidades a ter o ADSL Turbo (Brasília/DF e
Curitiba/PR) e concluiu que os pontos mais importantes são a alta velocidade
com acesso até 30 vezes mais rápido que o dial-up, a liberação da linha
telefônica, o valor fixo da mensalidade e a possibilidade de acessar conteúdo
como video-on-demand e streaming de vídeo pela Internet.
Para Ana Maria Rodrigues Fernandes, analista de negócios da área de comunicação
de dados da CTBC Telecom, rapidez é importante. "Depois de ter o ADSL, o
usuário nunca mais volta ao acesso discado." Mas conteúdo e serviços especiais
também têm grande peso, na opinião dela, citando como exemplo video streaming,
videoconferência, disk pizza, disk farmácia etc. "Estamos trabalhando e
negociando com parceiros de conteúdo para oferecer diversidade", conta Ana
Maria, sem entrar em mais detalhes. Daniel Aguirre, diretor da Image Telecom
(operadora de TV a cabo do Grupo Algar, também controlador da CTBC Telecom),
diz que "o verdadeiro conteúdo em banda larga ainda nem começou". E, quando
estiver disponível, será uma grande motivação para o crescimento do mercado.
Vladimir Barbieri, diretor de negócios da Telefônica, acredita que o papel da
prestadora é prover infra-estrutura básica para a utilização do serviço. "Cabe
aos provedores de conteúdo e de aplicações em banda larga o desenvolvimento de
novas ferramentas para públicos que ainda não vêem os benefícios do acesso
rápido".
Mesmo sem muito conteúdo em banda larga, o desenvolvimento do setor esbarra na
questão preço. Para Eduardo Mendes Aguiar, o fator que mais pesa no preço final
é o alto custo de links. A opinião é compartilhada por Aguirre, que diz que é
preciso haver um backbone nacional para concorrer com a Embratel. "Com atuação
em todo o território, não existe opção."
Mesmo considerando os custos de links altos e a pouca variedade de conteúdo, a
TVC Marília é um caso interessante do mercado. Trata-se de uma empresa pequena
se comparada a uma Globo Cabo ou Telefônica e que conseguiu no decorrer de
cinco meses instalar cable modem em quase 10% da sua base. Hoje são 500 acessos
entre os seis mil assinantes. Para isso, ela foi criativa ao fechar uma
parceria com o Terra, pela qual o ISP e a operadora abrem mão dos cinco
primeiros meses de receita para bancar o custo do cable modem (por volta de R$
500). O assinante recebe o cable modem por comodato, sem pagar nada, e ainda
não é cobrada taxa de instalação. Em troca, o usuário assina um contrato de
fidelidade de 12 meses.
De acordo com Aguiar, a TVC Marília tem sido agora procurada por fornecedores
de cable modem, que oferecem parcelamento em cinco vezes em troca de
exclusividade. Essa alternativa está agradando a operadora, pois não será mais
necessário fazer estoque e investir na compra antecipada de equipamentos. As
cinco primeiras mensalidades do usuário podem ser direcionadas para o pagamento
das parcelas do modem. "É uma mudança muito interessante, porque nos permite
trabalhar com estoque bastante reduzido", explica o executivo da operadora de
TV a cabo.
Outras empresas vêm buscando parcerias com fornecedores de microcomputadores,
visando facilitar a captação de usuários em potencial que não têm PC ou que não
tenham a configuração mínima para instalar modems e placas de rede. Um exemplo
é a promoção do Vírtua, Terra e Metron. Ao adquirir um PC da Metron, por R$
1.815, e assinando o Terra, o usuário ganha dois meses do Terra Plus, um
estabilizador, uma webcam e a dispensa da taxa de instalação do Vírtua. Outra
parceria semelhante é para computadores Acer.
A TV Cidade e a W@y Brasil negociavam parcerias com fornecedores de
computadores. "Pretendemos construir alianças estratégicas com fornecedores de
hardware para oferecer alternativas para nossos clientes", informa Paulo
Bretas, diretor de planejamento estratégico da W@y. Marcelo Sobierajski dos
Santos, gerente regional da TV Cidade na Bahia, diz que em Salvador, onde atua
com a bandeira Net, já foram fechadas algumas parcerias e a idéia é seguir a
mesma estratégia nas demais praças onde a operadora oferecer o serviço, como
por exemplo Niterói.
Dificuldades
Todo mundo sabe que são inúmeras as dificuldades encontradas, principalmente no
início da oferta de acesso à Internet em alta velocidade, mas poucos foram os
entrevistados que falaram abertamente sobre isso. A TVA encontrou alguns
problemas com o cable modem interno da 3Com, que não conversava com o Windows
NT, ou então para instalar o Acesso em Alta Velocidade em empresas com PABX
muito pequeno, que não comportava o sistema. "Aos poucos, vamos encontrando
alguns problemas que geralmente não são padrões de mercado", revela José Carlos
Henrique Alves.
Daniel Klinger, diretor da unidade de banda larga Vírtua da Globo Cabo, conta
que estão sendo registrados problemas relacionados à performance do produto em
algumas regiões em que atua. "A maior parte desses problemas vem da pirataria
na nossa rede, que gera fuga de sinal e ruído na rede. Até o final do ano
teremos toda a rede codificada, minimizando para quase zero esse problema."
Na Canbrás, o ponto delicado é relacionado à legislação, que impede o
fornecedor de acesso prover conteúdo e ainda obriga a empresa a disponibilizar
o acesso a todos os provedores que quiserem, acarretando grandes investimentos
em equipamentos. "A Canbrás conseguiu solucionar esse problema através da
aquisição do equipamento Shasta, da Nortel, que possibilita a interligação e o
gerenciamento do tráfego de acesso com os provedores cadastrados", conta
Leopoldo Francisco Inglez, vice-presidente de marketing da Canbrás.
A TV Cidade, por sua vez, previa, antes mesmo do seu lançamento oficial no
final de março, dificuldades na instalação da placa de rede no micro do
usuário, justamente por ter que abrir a CPU, de acordo com Nelson Custódio, da
gerência de tecnologia da operadora.
A Telefônica, segundo Vladimir Barbieri, recebeu algumas reclamações (a
empresa, aliás, é pelo terceiro ano consecutivo a campeã de queixas do
Procon/SP) e destaca como as duas mais freqüentes a disponibilidade do
serviço em algumas regiões e o re-agendamento de instalações. E ele explica
que, no primeiro caso, a Telefônica começou a instalar o Speedy em locais com
maior demanda, enquanto usuários solicitaram o serviço onde ainda não estava
disponível. Em relação à segunda reclamação, "em alguns casos, devido à grande
procura em determinadas regiões, a Telefônica entrou em contato com os clientes
para viabilizar uma nova data para instalação do produto".
A maioria das prestadoras de serviço encontraram - e em muitos casos ainda
encontram - dificuldades mercadológicas, sendo as principais delas para fazer o
cliente entender o custo/benefício do acesso rápido e para treinar mão-de-obra
para instalação dos serviços. Quebrar a barreira de se ter que pagar pelo
acesso e fazer o usuário entender que pelo dial-up ele também paga pulsos para
se conectar à Internet foram as maiores dificuldades da TVA, por exemplo. Para
Inglez, uma dificuldade encontrada é quanto à percepção do assinante em
diferenciar a responsabilidade e o comprometimento da Canbrás em relação à
velocidade oferecida. "A empresa tem o controle do assinante até a Canbrás, mas
daí para frente não podemos nos responsabilizar. Para isso, a Canbrás fez um
trabalho de conscientização dos assinantes", diz o VP de marketing.
Diante disso, há muita estratégia de marketing focada em demonstrações de
produtos em locais públicos, promoções que sorteiam brindes ou que dão desconto
na mensalidade do serviço e até mesmo venda nas redes varejistas. Aos poucos,
essa "cultura" está sendo passada para os consumidores e cada vez mais usuários
poderão ter acesso à Internet veloz com a queda de custos esperada por todo o
setor. E, quanto mais rápido isso acontecer, melhor.
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