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ESPECIAL - SMP 2001
FINANCIAMENTO ÍNDICE
 
Fabricantes abrem os cofres para ganhar clientes

Lúcia Domingues

Importante peça no tabuleiro dos investimentos, os fornecedores deverão desembolsar bilhões para financiar os equipamentos às operadoras.

As futuras operadoras das bandas C, D e E deverão investir cerca de US$ 10 bilhões ao longo dos próximos anos somente para construir serviços e infra-estrutura para o SMP. O valor não inclui o (alto) preço que será pago pelas licenças. O volume de recursos é robusto, porém inferior ao investido nas bandas A e B, que foi de respectivamente US$ 13 bilhões e US$ 11 bilhões.

"O investimento será menor, porque muito da infra-estrutura, como a instalação de torres, será compartilhado pelas empresas do SMP", diz Marcelo Moutinho, analista da consultoria americana Yankee Group.

Fornecedoras como as norte-americanas Lucent e Motorola, a finlandesa Nokia, a alemã Siemens, a canadense Nortel, a francesa Alcatel e a sueca Ericsson já estão preparadas para atender tamanha demanda. Essas empresas são uma peça importantíssima no tabuleiro dos investimentos. Na maior parte das vezes, elas tomam o lugar dos bancos e financiam as compras de equipamentos e serviços. "Na instalação de uma rede, praticamente 100% dos equipamentos são financiados", diz Alexandre Gartner, analista do banco Santander.

Financiar é um verbo mágico, porque as operadoras terão que fazer investimentos pesados para implantar o GSM, uma tecnologia inexistente no Brasil, no menor tempo possível. Para as operadoras, é um ótimo negócio, porque não terão que levantar capital próprio para comprar equipamentos.

Os fornecedores também não saem perdendo. Eles fecham contratos de exclusividade, garantem uma fonte de receita segura e, com isto, podem planejar com antecedência o funcionamento da fábrica e a estratégia da companhia.

Os contratos, como se pode imaginar, são milionários. A Lucent, por exemplo, financiou vendas de U$ 2 bilhões desde 1998. Por isso, a estratégia de cada fornecedor é mantida em sigilo. "Financiamento às operadoras é um assunto estratégico. Não divulgamos valores", diz Virgílio Martins, diretor de relações públicas da Lucent. Mas não é difícil medir o apetite da empresa, maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo. Há seis meses, a Lucent está treinando funcionários para operar e vender novos sistemas para as bandas C, D e E.

A Motorola do Brasil tinha anunciado, em outubro de 2000, que dispunha de uma linha de financiamento de US$ 2 bilhões para as vencedoras dos leilões. Logo em seguida, a informação foi desmentida pela matriz em Illinois, nos Estados Unidos. Hoje, a posição oficial da companhia é de que os números são estratégicos e sequer foram definidos. A Nortel e a Ericsson informam que também não definiram seus pacotes. A Siemens, por sua vez, havia anunciado no ano passado que dispunha de US$ 500 milhões. A empresa alemã quer ter 25% do mercado de equipamentos e redes GSM até 2003.

Oferta de capital varia com a época

A demanda e as condições dos financiamentos para a construção de redes variou bastante nos diversos períodos da história recente. Durante muito tempo, por exemplo, a Telebrás se autofinanciava. A holding estatal tinha dinheiro em caixa e chegava a ser mais limitada em investimentos pelas decisões governamentais que pela falta de capital. Além disso, o FNT (Fundo Nacional de Telecomunicações), posteriormente extinto por Sérgio Motta, garantia a verba para a expansão.

Como lembra Victor Kenski, diretor geral da Radiotrônica, foi com a entrada do celular que as necessidades de capital intensivo tornaram-se maiores, pois a rede não podia ser construída aos poucos. Criavam-se, recorda, até algumas distorções na licitação de equipamentos, pois quem tinha melhor financiamento levava vantagem sobre quem oferecia o melhor preço, quando se traziam os números a valor presente. Ainda assim, os financiamentos de fornecedores limitavam-se à compra dos equipamentos.

Durante um breve período, do final dos anos 80 até o início da preparação para a privatização, em meados da década de 90, os PCTs (Programas Comunitários de Telecomunicações) usavam um sistema de autofinanciamento, quando a construção era bancada pelas empresas privadas em algumas comunidades, sob supervisão da tele estatal. A empresa depois vendia as linhas e explorava o serviço.

Com a privatização, a demanda por capital aumentou, por causa das metas agressivas da Anatel e da competição. Os fornecedores, explica Kenski, vieram com sede ao pote, pois precisavam estabelecer suas plataformas no novo mercado. E com os preços dos equipamentos em baixa, passaram a oferecer o pacote completo de serviços, em regime de turnkey, para otimizar a lucratividade do financiamento.

Em seguida, com as crises russa e asiática e a alta dos juros internacionais, e com as plataformas já instaladas, passou a ser mais interessante voltar a financiar só a compra de equipamentos. Com a chegada do SMP porém, e a entrada do GSM, devemos ver uma nova batalha por market share, e os fornecedores ficam mais "generosos".

André Mermelstein

Pacotes atraentes

O montante a ser oferecido não é fácil de ser definido, porque os fornecedores trabalham com muitas hipóteses. Se uma operadora como a Telefônica Celular, que opera no Rio de Janeiro, arrematar uma licença, o volume a ser emprestado tende a ser menor. Afinal, a Telefônica já tem uma infra-estrutura montada no Brasil. Caso a Vodafone vença, há dois quadros possíveis. A companhia pode trazer dinheiro do exterior para comprar os equipamentos ou financiá-los localmente. Quem optar por financiar vai encontrar prazos que variam, em média, de três a cinco anos.

Os pacotes de financiamento dos fornecedores prometem ser atraentes. Os juros devem ser menores do que aqueles oferecidos por bancos privados ou até mesmo pelo BNDES. "Os fabricantes seguramente oferecerão taxas mais competitivas que as existentes no mercado interno", acredita Geraldo Lúcio Marques, vice-presidente da área de telecomunicações e mídia da consultoria Ernst & Young.

Essa é uma equação fácil de ser entendida. Os fornecedores, todos estrangeiros, devem captar o dinheiro no exterior por meio de suas matrizes. "A Ericsson, por exemplo, poderá ter uma ajuda do banco de desenvolvimento da Suécia, que emprestaria o dinheiro a um custo baixíssimo. O mesmo ocorreria com a Nec, que teria um auxílio do banco do Japão", explica Marques. O risco dos contratos pode ser administrado pela própria indústria, dividido com um banco ou 100% terceirizado para uma instituição financeira.

Hoje, as taxas são menores que as praticadas em 1998, pós-crise da Ásia e crise da Rússia, dois eventos que sacudiram o mercado financeiro mundial. Na época, a captação do dinheiro no exterior custava a Libor (taxa interbancária utilizada nos negócios internacionais) acrescida de juros de 6%. Hoje, o custo é muito menor, de Libor mais algo entre 2% e 3%, praticamente a metade. Mesmo os juros internos tiveram uma queda drástica. As taxas brasileiras, que eram de 45% ao ano, hoje são de 15,75%.

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