Fabricantes abrem os cofres para ganhar
clientes
Lúcia Domingues
Importante peça no tabuleiro dos investimentos, os fornecedores
deverão desembolsar bilhões para financiar os equipamentos às operadoras.
As futuras operadoras das bandas C, D e E deverão investir cerca de US$ 10
bilhões ao longo dos próximos anos somente para construir serviços e
infra-estrutura para o SMP. O valor não inclui o (alto) preço que será pago
pelas licenças. O volume de recursos é robusto, porém inferior ao investido nas
bandas A e B, que foi de respectivamente US$ 13 bilhões e US$ 11 bilhões.
"O investimento será menor, porque muito da infra-estrutura, como a instalação
de torres, será compartilhado pelas empresas do SMP", diz Marcelo Moutinho,
analista da consultoria americana Yankee Group.
Fornecedoras como as norte-americanas Lucent e Motorola, a finlandesa Nokia, a
alemã Siemens, a canadense Nortel, a francesa Alcatel e a sueca Ericsson já
estão preparadas para atender tamanha demanda. Essas empresas são uma peça
importantíssima no tabuleiro dos investimentos. Na maior parte das vezes, elas
tomam o lugar dos bancos e financiam as compras de equipamentos e serviços. "Na
instalação de uma rede, praticamente 100% dos equipamentos são financiados",
diz Alexandre Gartner, analista do banco Santander.
Financiar é um verbo mágico, porque as operadoras terão que fazer investimentos
pesados para implantar o GSM, uma tecnologia inexistente no Brasil, no menor
tempo possível. Para as operadoras, é um ótimo negócio, porque não terão que
levantar capital próprio para comprar equipamentos.
Os fornecedores também não saem perdendo. Eles fecham contratos de
exclusividade, garantem uma fonte de receita segura e, com isto, podem planejar
com antecedência o funcionamento da fábrica e a estratégia da companhia.
Os contratos, como se pode imaginar, são milionários. A Lucent, por exemplo,
financiou vendas de U$ 2 bilhões desde 1998. Por isso, a estratégia de cada
fornecedor é mantida em sigilo. "Financiamento às operadoras é um assunto
estratégico. Não divulgamos valores", diz Virgílio Martins, diretor de relações
públicas da Lucent. Mas não é difícil medir o apetite da empresa, maior
fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo. Há seis meses, a
Lucent está treinando funcionários para operar e vender novos sistemas para as
bandas C, D e E.
A Motorola do Brasil tinha anunciado, em outubro de 2000, que dispunha de uma
linha de financiamento de US$ 2 bilhões para as vencedoras dos leilões. Logo em
seguida, a informação foi desmentida pela matriz em Illinois, nos Estados
Unidos. Hoje, a posição oficial da companhia é de que os números são
estratégicos e sequer foram definidos. A Nortel e a Ericsson informam que
também não definiram seus pacotes. A Siemens, por sua vez, havia anunciado no
ano passado que dispunha de US$ 500 milhões. A empresa alemã quer ter 25% do
mercado de equipamentos e redes GSM até 2003.
Pacotes atraentes
O montante a ser oferecido não é fácil de ser definido, porque os fornecedores
trabalham com muitas hipóteses. Se uma operadora como a Telefônica Celular, que
opera no Rio de Janeiro, arrematar uma licença, o volume a ser emprestado tende
a ser menor. Afinal, a Telefônica já tem uma infra-estrutura montada no Brasil.
Caso a Vodafone vença, há dois quadros possíveis. A companhia pode trazer
dinheiro do exterior para comprar os equipamentos ou financiá-los localmente.
Quem optar por financiar vai encontrar prazos que variam, em média, de três a
cinco anos.
Os pacotes de financiamento dos fornecedores prometem ser atraentes. Os juros
devem ser menores do que aqueles oferecidos por bancos privados ou até mesmo
pelo BNDES. "Os fabricantes seguramente oferecerão taxas mais competitivas que
as existentes no mercado interno", acredita Geraldo Lúcio Marques,
vice-presidente da área de telecomunicações e mídia da consultoria Ernst &
Young.
Essa é uma equação fácil de ser entendida. Os fornecedores, todos estrangeiros,
devem captar o dinheiro no exterior por meio de suas matrizes. "A Ericsson, por
exemplo, poderá ter uma ajuda do banco de desenvolvimento da Suécia, que
emprestaria o dinheiro a um custo baixíssimo. O mesmo ocorreria com a Nec, que
teria um auxílio do banco do Japão", explica Marques. O risco dos contratos
pode ser administrado pela própria indústria, dividido com um banco ou 100%
terceirizado para uma instituição financeira.
Hoje, as taxas são menores que as praticadas em 1998, pós-crise da Ásia e crise
da Rússia, dois eventos que sacudiram o mercado financeiro mundial. Na época, a
captação do dinheiro no exterior custava a Libor (taxa interbancária utilizada
nos negócios internacionais) acrescida de juros de 6%. Hoje, o custo é muito
menor, de Libor mais algo entre 2% e 3%, praticamente a metade. Mesmo os juros
internos tiveram uma queda drástica. As taxas brasileiras, que eram de 45% ao
ano, hoje são de 15,75%.
|