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ESPECIAL - SMP 2001
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Entrada do GSM cria pressões tecnológicas para operadoras

Vanderlei Campos

Novo serviço traz mudanças nas plataformas de serviços como roaming e billing e abre o debate sobre a evolução brasileira à 3G.

Nunca fornecedores e operadoras assinaram tantos acordos de confidencialidade quanto neste processo de entrada do SMP. Entretanto, mesmo com documentos e funcionários trancados a sete chaves, as tecnologias e as experiências internacionais já fornecem indicações razoavelmente claras sobre a correlação de forças entre as operadoras.

Para Mário Cosentino, diretor de estratégias de evolução de redes móveis da Ericsson, o maior impacto da introdução do GSM está associado à disseminação de Internet móvel e outros serviços de dados. "Se a mudança fosse apenas a entrada do GSM, as necessidades de adequação (do ponto de vista técnico) das operadoras de banda A e B ficariam restritas à escolha de carrier de longa distância e outras imposições da Anatel. Nesse caso, as novas operadoras viriam com GSM e competiriam no mercado de telefonia com as operadoras de CDMA e TDMA, que não precisariam alterar muito suas plataformas. A questão é que a banda C vem com serviços avançados e uma clara perspectiva de evolução. As operadoras de banda A e B têm, então, que se preparar para competir em novas frentes", observa.

As operadoras de CDMA, segundo Cosentino, contam com um cronograma de evolução que permitirá serviços equivalentes ao GPRS, do mundo GSM. Mesmo assim, ele constata que a definição da faixa de 1,8 GHz coloca os provedores de tecnologia GSM em posição de vantagem. "O GSM é hoje um padrão mundial e quem estiver fora terá problemas de escala e preços", afirma. Nas redes TDMA, o aumento da largura de banda passaria por uma reformulação na utilização do espectro, que implicaria mudanças nas ERBs, além de um novo plano de freqüências.

A Ericsson já anunciou o lançamento de um gatephone - um terminal GSM/TDMA - que permitiria, por exemplo, que uma operadora de TDMA migrasse seus assinantes de maior tráfego para GSM, dispondo assim de opção de roaming em GSM ou TDMA. O produto, entretanto, está previsto para meados de 2002.

Yollande Pineda, gerente de marketing da Nokia, lembra no entanto que as atuais operadoras de banda A e B contam com a vantagem de já terem amortizado os investimentos. As operadoras de TDMA, segundo Pineda, têm um caminho de evolução gradual por meio da tecnologia Edge. "É necessário alterar as centrais e a parte de rádio, mas aproveita-se a infra-estrutura de ERBs e os sites", explica. Ela afirma que as operadoras de CDMA também poderiam optar pela migração para GSM, com o objetivo de obter benefícios de volume e disponibilidade industrial de novas tecnologias. "Isso envolve troca de equipamentos, mas a carrier aproveita os sites instalados", enfatiza.

Jonio Foigel, presidente da Alcatel, avalia que o TDMA está com sua continuidade definitivamente comprometida, com a consolidação dos padrões WCDMA e GPRS como evolução para a terceira geração.

"Os operadores de redes TDMA vão ter que migrar rapidamente. Essa encruzilhada ficou ainda mais próxima com a decisão da AT&T Wireless, que está implantando o GSM em cima de sua rede TDMA. O CDMA tem uma perspectiva de longevidade maior, mas muitos países também estão migrando para GSM, como foi o caso da Coréia", argumenta.

Segundo Foigel, no que depender da oferta da Alcatel, as operadoras de GSM poderão iniciar brevemente seus serviços GPRS.

"Em meados deste ano, os terminais estarão disponíveis. É claro que essa operação pressupõe investimentos em um backbone para tratar pacotes de dados", pondera.

Ele admite que a migração da base de usuários envolve estratégias complexas e provavelmente passa pela coexistência de tecnologias distintas. "A idéia de distribuir terminais dual mode não é realista. O aparelho acaba ficando maior, mais caro, além de consumir mais bateria. Isso levaria a um mercado muito restrito", afirma.

Fernanda Saraiva, gerente de marketing da Motorola, informa que praticamente todos os RFPs (solicitações de proposta) das operadoras de GSM pediam dimensionamento da rede para GPRS. "Já estão planejando a infra-estrutura para serviços diferenciados.

Todavia, essas aplicações são novas em todo o mundo e não se têm métricas para precisar qual seria o tráfego gerado, nem a demanda pelo público", explica.

Roaming

Yollande Pineda avalia que as operadoras com tecnologia GSM e CDMA podem ter defasagens momentâneas, mas devem manter uma competição equilibrada. "Havia propostas para comunicação de dados em TDMA. Mas posições como a da AT&T Wireless, de migrar para o GSM, comprometem os investimentos dos fornecedores no TDMA", analisa. Embora os fabricantes já tenham anunciado planos de lançamento de terminais GSM/TDMA, os usuários de aparelhos CDMA continuariam a recorrer à conexão analógica para o roaming, da mesma forma que os assinantes de operadoras TDMA que não dispuserem de terminais dual mode. "A parcela que utiliza mais o roaming é relativamente pequena e o maior crescimento das operadoras tem sido entre o público que está adquirindo seu primeiro celular e precisa basicamente de cobertura local", pondera.

O problema do roaming não está apenas no terminal. Também o padrão de bilhetagem dentro do sistema GSM é diferente do usado no TDMA. As redes GSM adotam o TAP3, que incorpora serviços como a cobrança de serviços de Internet, roaming pré-pago, diferenciação de cobrança pessoal ou comercial e um sistema próprio de detecção de fraude.

Para viabilizar a utilização de roaming em redes com tecnologia distinta daquela da operadora de origem do assinante, a Lógica está oferecendo uma plataforma que permite a troca provisória de terminal, principalmente para o público que viaja a negócios. A proposta é que o usuário vá a um posto autorizado, que transfere as informações do thin card de seu terminal para outro aparelho. José Roberto Gonçalves, diretor comercial da Lógica, menciona que essa solução também poderá auxiliar as operadoras a promover uma migração gradual de tecnologia. Os usuários passam a contar ainda com a possibilidade de escolha da operadora de roaming, independente da tecnologia.

"O roaming é uma facilidade fundamental para uma parcela do público, mas não é um recurso utilizado em grande escala", pondera Cézar Taurion, diretor da Running Consulting e editor do site 3gmaster.com.br. Ele observa também que os serviços diferenciados não devem ter um grande impacto imediato para a maioria da base de celulares, que se concentra na modalidade de pré-pago. "Embora o número de assinantes tenda a crescer, as estratégias de serviços mais avançados são traçadas para disputar o mercado de pós-pagos, cujos usuários devem querer, pelo menos, dispor de e-mail. O GSM está preparado para as inovações, mas ainda levará um tempo para acertarem aplicações e modelos de negócios rentáveis", avalia.

Outra dificuldade previsível para as novas operadoras é a própria conjuntura da capitalização dessas empresas, em nível mundial. "As ações das carriers na Europa despencaram por causa dos altos investimentos nos leilões para as licenças de terceira geração. Portanto, há menos recursos para investir em outras regiões. Em contrapartida, os melhores clientes, no Brasil, já estão atendidos e seria necessário postergar parte da rentabilidade para atraí-los", lembra. "Uma migração de tecnologia envolve troca de terminais e isso exigiria subsídios para convencer alguém a comprar um novo aparelho", exemplifica. "É uma equação financeira complicada", constata.

Novas regras requerem adaptação

As mudanças regulatórias que chegam com o SMP que devem causar maior impacto inicial são a alteração das áreas de tarifação (ou Áreas de Registro, no novo jargão da Anatel) e a escolha da carrier de longa distância. Todavia, a perspectiva de disseminar outras aplicações implica uma diversificação nos critérios e métodos de cobrança dos serviços.

"Há uma certa preocupação com a mudança nas áreas de registro. Além de mexer nos sistemas de tarifação, isso muda até o esquema de reconhecimento dos terminais. Com a escolha da operadora de DDD, as centrais terão que ser reprogramadas e terá que ser feito um trabalho para ampliar os entroncamentos entre as carriers", conta Renata Gomes, engenheira da Siemens. Ela observa que um dos pontos mais críticos da proposta durante a consulta pública (e que depois foi retirado) era a obrigação de dar ao usuário final a escolha da operadora de terminação das chamadas, nos casos de roaming. "Isso não existe em nenhuma rede GSM no mundo e seria um problema de grande complexidade técnica", afirma.

Ela adverte que a escolha da operadora de DDD deve ser tratada com cuidado.

"Do ponto de vista do usuário, a primeira alteração é a reprogramação dos números de longa distância que estão armazenados no terminal. Também não será mais possível a rediscagem automática a partir da identificação do chamador, pois terão que ser acrescentados os dígitos referentes à transportadora de DDD e DDI", observa Fernanda Saraiva, gerente de marketing da Motorola.

"A maioria das operadoras vai ter que expandir seus sistemas. Mais pontos de interconexão têm que ser implementados e também há uma diversificação no esquema de repartição de receita, já que caberá ao usuário a escolha da carrier de longa distância", avalia Sérgio Coelho, gerente de suporte da Amdocs, desenvolvedora de sistemas de tarifação. Ele explica que não são necessárias maiores mudanças na infra-estrutura, mas afirma que as empresas que têm sistemas de tarifação mais modernos terão mais facilidade de efetivar as alterações. "O bilhete que o comutador envia ao sistema de tarifação não se altera muito. O que muda é a maneira com que o software trata essa informação", diz.

"A escolha da carrier não apresenta maiores problemas tecnológicos. A questão delicada são os acordos entre as operadoras, mesmo com as regras básicas estabelecidas em regulamento", diz Luís César Verdi, diretor de consultoria da HP. Ele esclarece que, à medida em que a mediação com os sistemas de comutação esteja padronizada, as regras de negócio são tratadas nos sistemas de tarifação. "As possibilidades de relacionamentos entre as operadoras são múltiplas. Elas podem começar a monitorar a troca de tráfego e, a partir desses dados, estabelecer as políticas de preços", exemplifica. Nos serviços diferenciados, Verdi observa que os sistemas de tarifação terão que tratar de esquemas cada vez mais complexos de definição de preços e distribuição de receitas. Com o aumento da competição, a capacidade de criar planos de tarifação para nichos cada vez mais específicos também é um diferencial importante. "Nisso, nenhuma operadora pode falhar. O sistema deve permitir planos multidimensionais, com cinco a nove níveis hierárquicos", afirma Adilson Silva, gerente de desenvolvimento de negócios para América Latina da EHPT. A empresa tem atuado, desde 1997, nas áreas de intermediação (construção de interfaces entre as centrais e os sistemas de informação) e interconexão e agora começa a intensificar a oferta de ferramentas de tarifação. "Além do aumento da complexidade (dos esquemas de tarifação) para os serviços de telefonia, o software tem que ser flexível para suportar as aplicações de convergência", enfatiza.

Regulamentação é tecnologicamente flexível

Um dos princípios que orienta a elaboração dos novos regulamentos de serviços da Anatel é a não regulamentação de tecnologia. Esta orientação, mais moderna, se estabelece em oposição ao que antes de fazia no Ministério das Comunicações. Os novos regulamentos não tratam mais de tecnologia, mas de serviços com qualquer tecnologia possível, respeitadas sempre as atribuições de faixas de radiofreqüências para aqueles serviços que delas necessitarem. A Anatel considera o SMP como um serviço de telecomunicações móvel terrestre de interesse coletivo, sem restrições de conteúdo. A agência definiu as faixas de freqüência que serão utilizadas e estabeleceu a necessidade do serviço evoluir para a convergência de redes. Algumas características do serviço exigem uma plataforma adequada para sua fruição, como é o caso do encaminhamento de mensagens para uma caixa postal de voz (para a qual há regras específicas), o identificador de chamadas, o recebimento e envio de mensagens curtas, a conexão à dados pelo WAP, todas facilidades que não precisam de regulamentação. Não há limitação para tecnologia, ficando a escolha por conta da operadora, observando-se apenas as faixas de freqüência disponíveis no regulamento. A novidade mais recente é o estabelecimento de uma nova faixa de freqüências justamente para otimizar a instalação de ERBs para as operadoras que irão utilizar as bandas C, D e E. Trata-se da faixa de 900 MHz, que, quando utilizada, exige menor número de ERBs para a cobertura.

Carlos Eduardo Zanatta, de Brasília

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