Entrada do GSM cria pressões tecnológicas
para operadoras
Vanderlei Campos
Novo serviço traz mudanças nas plataformas de serviços como roaming
e billing e abre o debate sobre a evolução brasileira à 3G.
Nunca fornecedores e operadoras assinaram tantos acordos de confidencialidade
quanto neste processo de entrada do SMP. Entretanto, mesmo com documentos e
funcionários trancados a sete chaves, as tecnologias e as experiências
internacionais já fornecem indicações razoavelmente claras sobre a correlação
de forças entre as operadoras.
Para Mário Cosentino, diretor de estratégias de evolução de redes móveis da
Ericsson, o maior impacto da introdução do GSM está associado à disseminação de
Internet móvel e outros serviços de dados. "Se a mudança fosse apenas a entrada
do GSM, as necessidades de adequação (do ponto de vista técnico) das operadoras
de banda A e B ficariam restritas à escolha de carrier de longa distância e
outras imposições da Anatel. Nesse caso, as novas operadoras viriam com GSM e
competiriam no mercado de telefonia com as operadoras de CDMA e TDMA, que não
precisariam alterar muito suas plataformas. A questão é que a banda C vem com
serviços avançados e uma clara perspectiva de evolução. As operadoras de banda
A e B têm, então, que se preparar para competir em novas frentes", observa.
As operadoras de CDMA, segundo Cosentino, contam com um cronograma de evolução
que permitirá serviços equivalentes ao GPRS, do mundo GSM. Mesmo assim, ele
constata que a definição da faixa de 1,8 GHz coloca os provedores de tecnologia
GSM em posição de vantagem. "O GSM é hoje um padrão mundial e quem estiver fora
terá problemas de escala e preços", afirma. Nas redes TDMA, o aumento da
largura de banda passaria por uma reformulação na utilização do espectro, que
implicaria mudanças nas ERBs, além de um novo plano de freqüências.
A Ericsson já anunciou o lançamento de um gatephone - um terminal GSM/TDMA -
que permitiria, por exemplo, que uma operadora de TDMA migrasse seus assinantes
de maior tráfego para GSM, dispondo assim de opção de roaming em GSM ou TDMA. O
produto, entretanto, está previsto para meados de 2002.
Yollande Pineda, gerente de marketing da Nokia, lembra no entanto que as atuais
operadoras de banda A e B contam com a vantagem de já terem amortizado os
investimentos. As operadoras de TDMA, segundo Pineda, têm um caminho de
evolução gradual por meio da tecnologia Edge. "É necessário alterar as centrais
e a parte de rádio, mas aproveita-se a infra-estrutura de ERBs e os sites",
explica. Ela afirma que as operadoras de CDMA também poderiam optar pela
migração para GSM, com o objetivo de obter benefícios de volume e
disponibilidade industrial de novas tecnologias. "Isso envolve troca de
equipamentos, mas a carrier aproveita os sites instalados", enfatiza.
Jonio Foigel, presidente da Alcatel, avalia que o TDMA está com sua
continuidade definitivamente comprometida, com a consolidação dos padrões WCDMA
e GPRS como evolução para a terceira geração.
"Os operadores de redes TDMA vão ter que migrar rapidamente. Essa encruzilhada
ficou ainda mais próxima com a decisão da AT&T Wireless, que está
implantando o GSM em cima de sua rede TDMA. O CDMA tem uma perspectiva de
longevidade maior, mas muitos países também estão migrando para GSM, como foi o
caso da Coréia", argumenta.
Segundo Foigel, no que depender da oferta da Alcatel, as operadoras de GSM
poderão iniciar brevemente seus serviços GPRS.
"Em meados deste ano, os terminais estarão disponíveis. É claro que essa
operação pressupõe investimentos em um backbone para tratar pacotes de dados",
pondera.
Ele admite que a migração da base de usuários envolve estratégias complexas e
provavelmente passa pela coexistência de tecnologias distintas. "A idéia de
distribuir terminais dual mode não é realista. O aparelho acaba ficando maior,
mais caro, além de consumir mais bateria. Isso levaria a um mercado muito
restrito", afirma.
Fernanda Saraiva, gerente de marketing da Motorola, informa que praticamente
todos os RFPs (solicitações de proposta) das operadoras de GSM pediam
dimensionamento da rede para GPRS. "Já estão planejando a infra-estrutura para
serviços diferenciados.
Todavia, essas aplicações são novas em todo o mundo e não se têm métricas para
precisar qual seria o tráfego gerado, nem a demanda pelo público", explica.
Roaming
Yollande Pineda avalia que as operadoras com tecnologia GSM e CDMA podem ter
defasagens momentâneas, mas devem manter uma competição equilibrada. "Havia
propostas para comunicação de dados em TDMA. Mas posições como a da AT&T
Wireless, de migrar para o GSM, comprometem os investimentos dos fornecedores
no TDMA", analisa. Embora os fabricantes já tenham anunciado planos de
lançamento de terminais GSM/TDMA, os usuários de aparelhos CDMA continuariam a
recorrer à conexão analógica para o roaming, da mesma forma que os assinantes
de operadoras TDMA que não dispuserem de terminais dual mode. "A parcela que
utiliza mais o roaming é relativamente pequena e o maior crescimento das
operadoras tem sido entre o público que está adquirindo seu primeiro celular e
precisa basicamente de cobertura local", pondera.
O problema do roaming não está apenas no terminal. Também o padrão de
bilhetagem dentro do sistema GSM é diferente do usado no TDMA. As redes GSM
adotam o TAP3, que incorpora serviços como a cobrança de serviços de Internet,
roaming pré-pago, diferenciação de cobrança pessoal ou comercial e um sistema
próprio de detecção de fraude.
Para viabilizar a utilização de roaming em redes com tecnologia distinta
daquela da operadora de origem do assinante, a Lógica está oferecendo uma
plataforma que permite a troca provisória de terminal, principalmente para o
público que viaja a negócios. A proposta é que o usuário vá a um posto
autorizado, que transfere as informações do thin card de seu terminal para
outro aparelho. José Roberto Gonçalves, diretor comercial da Lógica, menciona
que essa solução também poderá auxiliar as operadoras a promover uma migração
gradual de tecnologia. Os usuários passam a contar ainda com a possibilidade de
escolha da operadora de roaming, independente da tecnologia.
"O roaming é uma facilidade fundamental para uma parcela do público, mas não é
um recurso utilizado em grande escala", pondera Cézar Taurion, diretor da
Running Consulting e editor do site 3gmaster.com.br. Ele observa também que os
serviços diferenciados não devem ter um grande impacto imediato para a maioria
da base de celulares, que se concentra na modalidade de pré-pago. "Embora o
número de assinantes tenda a crescer, as estratégias de serviços mais avançados
são traçadas para disputar o mercado de pós-pagos, cujos usuários devem querer,
pelo menos, dispor de e-mail. O GSM está preparado para as inovações, mas ainda
levará um tempo para acertarem aplicações e modelos de negócios rentáveis",
avalia.
Outra dificuldade previsível para as novas operadoras é a própria conjuntura da
capitalização dessas empresas, em nível mundial. "As ações das carriers na
Europa despencaram por causa dos altos investimentos nos leilões para as
licenças de terceira geração. Portanto, há menos recursos para investir em
outras regiões. Em contrapartida, os melhores clientes, no Brasil, já estão
atendidos e seria necessário postergar parte da rentabilidade para atraí-los",
lembra. "Uma migração de tecnologia envolve troca de terminais e isso exigiria
subsídios para convencer alguém a comprar um novo aparelho", exemplifica. "É
uma equação financeira complicada", constata.
Novas regras requerem adaptação
As mudanças regulatórias que chegam com o SMP que devem causar
maior impacto inicial são a alteração das áreas de tarifação (ou Áreas de
Registro, no novo jargão da Anatel) e a escolha da carrier de longa distância.
Todavia, a perspectiva de disseminar outras aplicações implica uma
diversificação nos critérios e métodos de cobrança dos serviços.
"Há uma certa preocupação com a mudança nas áreas de registro. Além de mexer
nos sistemas de tarifação, isso muda até o esquema de reconhecimento dos
terminais. Com a escolha da operadora de DDD, as centrais terão que ser
reprogramadas e terá que ser feito um trabalho para ampliar os entroncamentos
entre as carriers", conta Renata Gomes, engenheira da Siemens. Ela observa que
um dos pontos mais críticos da proposta durante a consulta pública (e que
depois foi retirado) era a obrigação de dar ao usuário final a escolha da
operadora de terminação das chamadas, nos casos de roaming. "Isso não existe em
nenhuma rede GSM no mundo e seria um problema de grande complexidade técnica",
afirma.
Ela adverte que a escolha da operadora de DDD deve ser tratada com cuidado.
"Do ponto de vista do usuário, a primeira alteração é a reprogramação dos
números de longa distância que estão armazenados no terminal. Também não será
mais possível a rediscagem automática a partir da identificação do chamador,
pois terão que ser acrescentados os dígitos referentes à transportadora de DDD
e DDI", observa Fernanda Saraiva, gerente de marketing da Motorola.
"A maioria das operadoras vai ter que expandir seus sistemas. Mais pontos de
interconexão têm que ser implementados e também há uma diversificação no
esquema de repartição de receita, já que caberá ao usuário a escolha da carrier
de longa distância", avalia Sérgio Coelho, gerente de suporte da Amdocs,
desenvolvedora de sistemas de tarifação. Ele explica que não são necessárias
maiores mudanças na infra-estrutura, mas afirma que as empresas que têm
sistemas de tarifação mais modernos terão mais facilidade de efetivar as
alterações. "O bilhete que o comutador envia ao sistema de tarifação não se
altera muito. O que muda é a maneira com que o software trata essa informação",
diz.
"A escolha da carrier não apresenta maiores problemas tecnológicos. A questão
delicada são os acordos entre as operadoras, mesmo com as regras básicas
estabelecidas em regulamento", diz Luís César Verdi, diretor de consultoria da
HP. Ele esclarece que, à medida em que a mediação com os sistemas de comutação
esteja padronizada, as regras de negócio são tratadas nos sistemas de
tarifação. "As possibilidades de relacionamentos entre as operadoras são
múltiplas. Elas podem começar a monitorar a troca de tráfego e, a partir desses
dados, estabelecer as políticas de preços", exemplifica. Nos serviços
diferenciados, Verdi observa que os sistemas de tarifação terão que tratar de
esquemas cada vez mais complexos de definição de preços e distribuição de
receitas. Com o aumento da competição, a capacidade de criar planos de
tarifação para nichos cada vez mais específicos também é um diferencial
importante. "Nisso, nenhuma operadora pode falhar. O sistema deve permitir
planos multidimensionais, com cinco a nove níveis hierárquicos", afirma Adilson
Silva, gerente de desenvolvimento de negócios para América Latina da EHPT. A
empresa tem atuado, desde 1997, nas áreas de intermediação (construção de
interfaces entre as centrais e os sistemas de informação) e interconexão e
agora começa a intensificar a oferta de ferramentas de tarifação. "Além do
aumento da complexidade (dos esquemas de tarifação) para os serviços de
telefonia, o software tem que ser flexível para suportar as aplicações de
convergência", enfatiza.
|